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O declínio dos mestres e a ascensão dos “influencers”

A denúncia por “instigação ao suicídio” movida contra uma “influencer” (influenciador) que, no TikTok, lançou uma série de «desafios extremos» – o último consistia em cobrir o rosto com uma fita adesiva transparente, com risco de asfixia –, chegou após a trágica morte de duas crianças, uma de dez anos, outra de nove, vítimas de “jogos” análogos, trazendo à luz aquilo que de ambiguidade está presente no fenómeno destes “persuasores” que, com o poderoso meio das redes sociais, condicionam cada vez mais a nossa maneira de pensar, sentir e viver. A potencial “instigadora” tinha o impressionante séquito de 731 mil seguidores. E, sobretudo, uma adesão cega. Uma mensagem enviada para o seu perfil dizia: «Olá, se me saudares, juro que me lanço da janela».

 

Luzes e sombras

Felizmente, nem todos os influenciadores são assim. Muitos, na realidade, exercem a sua influência de formas absolutamente lícitas, dando conselhos sobre o que vestir, propondo receitas de cozinha, oferecendo uma conversa agradável e espirituosa… Ocasionalmente, promovem também iniciativas filantrópicas, recolhendo, por exemplo, dinheiro em favor de iniciativas destinadas a aliviar as consequências da pandemia.

Há, igualmente, quem lance mensagens mais profundas e construtivas, ricas de apontamentos culturais e existenciais, encontrando uma resposta significativa, ainda que, em termos numéricos, menos vasta.

 

Um sucesso sem igual

Para além dos resultados, estamos diante de uma figura nova, que merece a nossa atenção pelo papel que assume agora na nossa sociedade. Como escreve Monica Monnis na revista “Elle”, «são famosos, têm milhões de seguidores pendurados pelos seus lábios, cada palavra deles vale ouro (…), com um simples “post” são capazes de orientar a opinião pública, provocar celeuma e/ou polémica, conquistar títulos de jornais e eclipsar notícias, pelo menos na teoria, mais importantes (uma pandemia, para nomear uma)».

Talvez o retrato aqui traçado peque por ênfase em excesso. Mas algo de verdadeiro, seguramente contém. Dizem-no as proporções do séquito que estes influenciadores obtêm. Cristiano Ronaldo tem 258 milhões de seguidores no Instagram – e trata-se apenas de uma pessoa, e de uma rede social, numa lista de homens e mulheres que, em maior ou menor medida, conseguem uma atenção que nenhum representante da cultura “oficial” – docentes, jornalistas, cientistas, artistas – pode sonhar conquistar.

 

Uma adesão sem reservas críticas

O que preocupa é o estilo da relação que liga a maior parte dos influenciadores aos seus seguidores. Há algo que acomuna o frequentador do TikTok que se dizia disposto a lançar-se da janela e as milhões de pessoas – muitas são jovens – «penduradas pelos lábios» dos seus mais conhecidos, e felizmente mais inócuos, colegas. Estamos perante uma admiração e uma adesão que muitas vezes tendem a não passar através de uma real verificação crítica, também porque reforçadas pela lógica das modas da sociedade neocapitalista de massa, que já por si favorece os mecanismos da imitação passiva e da homologação.

 

O perigo do vazio

É verdade, aqui, que não há o risco da violência que noutros casos uma semelhante adesão pode suscitar, como no caso dos fundamentalismos religiosos que plasmam as mentes e os corações com verdades unilaterais e agressivas. Porque estes “novos mestres”, em cuja escola crescem os nossos jovens, não querem transmitir nenhuma verdade; aliás, na maior parte dos casos, relativizam-na, em nome dos gostos e das preferências.

Todavia, é preciso questionar se não eles, em certa medida, também não perigosos, na medida em que contribuem para a manutenção de um vazio intelectual e espiritual que não criam, mas que pelo menos alimentam, sobretudo nos mais jovens, e cujos efeitos se encontram em todas as manifestações da nossa vida privada e pública.

Neste vazio podem verificar-se episódios extremos e devastadores – como o dos suicídios infantis que impressionaram a opinião pública –, ou, mais simplesmente, a celebração diária dos ritos consumistas, que tem como fundo a renúncia a tomar a sério os “grandes problemas” que deveriam determinar o sentido da vida.

 

A demissão dos “mestres”

O crescente influxo dos influenciadores corresponde – ao mesmo tempo como efeito e como causa – ao ocaso dos “mestres”, daqueles verdadeiros, que ensinavam a colocar estes problemas e a enfrentá-los com espírito crítico, sem se fazerem “pendurar pelos lábios”, propondo, não conselhos sobre a roupa ou gastronomia, mas perguntas de fundo decisivas para as escolhas públicas e privadas.

E não se fala aqui apenas dos grandes intelectuais que em tempos orientavam a cultura da nossa sociedade. O processo que conduziu os adultos a demitirem-nos da sua tarefa de educadores, atingiu, antes de todos, pais e professores. Quer nas famílias – cada vez menos capacitadas para transmitir aos seus filhos um património convincente de valores – quer na escola, cada vez mais concentrada (quando corre bem) na mera “transmissão dos saberes –, a capacidade dos “mestres” de propor aos jovens mensagens significativas é hoje imensamente inferior à de um qualquer influenciador.

 

O diálogo ausente…

A pandemia está a colocar-nos diante dos olhos as consequências desta crise educativa, exasperando as tensões de relações nas quais o grande ausente era, desde há muito, o diálogo, condição imprescindível para educar. Impossível, numa relação apressada de convivência, como a que muitas vezes caracterizava a vida familiar antes do Covid; supérfluo na escola para uma mera transmissão de conhecimentos, o diálogo, nesta emergência, revelou-se indispensável precisamente na exasperação da sua ausência.

Sem diálogo, a relação pais-filhos liofiliza-se num repertório de frases feitas, e os jovens, sequestrados em casa e deixados sós, procuram no telemóvel ou no computador os possíveis interlocutores, com o risco de encontrar os errados. Assim como, sem diálogo, torna-se problemática uma relação escolar puramente virtual, que deveria ter a sua linfa numa comunicação humana, e que, em vez disso, continua a fundar-se em lições inspiradas no velho esquema unidirecional

 

… E a ocasião para o redescobrir, antes de tudo na escuta

A emergência, com maior evidência, de uma dificuldade incubada desde há muito, pode obrigar pais e professores a repensar o seu papel educativo e a dar-se conta que precisamente eles – não os influenciadores – devem ser os “mestres” dos seus filhos e dos seus alunos, instaurando com eles uma comunicação digna deste nome.

Tarefa que exige empenho, porque o diálogo requer a escuta, e a escuta, por seu lado, disponibilidade de tempo e de atenção. Se queremos que as novas gerações não sejam alimentadas pelos influenciadores na “feira das vaidades” da sociedade massificada, é preciso que nós, adultos, redescubramos o rosto de cada um e aprendamos de novo a escutar os seus problemas, as suas angústias, os seus desejos. Que saíamos da lógica perversa do negociado sobre o “sim” e sobre o “não”, a que tantas vezes se reduziu a relação em família, ou dos programas e das perguntas, na escola, e reencontremos o gosto de falar verdadeiramente.

O ambiente concentracionário criado em certos casos, ou a aridez extenuante do ensino à distância em certas aulas, poderá ser derrotado por pais e professores que se esforcem por compreender mais os problemas dos seus filhos e dos seus alunos, e aprendam, através dessa escuta, a ser mais criativos e atrativos do que os influenciadores.

 

Uma nova relação com os meios técnicos

Isto comportaria uma nova relação com os instrumentos de comunicação. Em vez de fixar o filho, desde pequeno, à frente de um ecrã, para “o fazer estar sossegado”, os pais deviam brincar com ele. Em vez de lhe oferecerem um telemóvel quando tem onze anos (ou talvez menos), deveriam dedicar-lhe tempo para o escutar. E depois estar junto dele e segui-lo, não com um controlo fiscal, mas apontando para uma participação nas suas experiências, que supõe a partilha dos seus interesses. Ajudando-o a descodificar e a selecionar as mensagens que de todos os lados nos inundam nas redes sociais.

Também a escola não pode iludir-se que a digitalização resolva, por si, os problemas. É o uso que as pessoas fazem destes meios que os tornam, ou não, humanos. E os mais meios mais aperfeiçoados podem favorecer, não substituir, o ambiente de escuta recíproca que permite à relação educativa instaurar-se e desenvolver-se.

 

Para mudar as estruturas, comecemos pelas pessoas

Provavelmente, a pandemia, infelizmente, ainda terá tempos longos. Suficientes para recolher o seu desafio, se assim se quiser fazer. Ou para gerar outras catástrofes, se não se quiser. É verdade que a mudança da sociedade não pode depender unicamente do empenho das pessoas singulares. Há um quadro político, social, económico em que a atual crise educativa se insere, e no qual se coloca também o fenómeno dos influenciadores. Mas, no fim, também as condições estruturais podem ser mudadas apenas se as pessoas forem diferentes. Por isso, vale a pena começar por elas.


 

Giuseppe Savagnone
Responsável pela página da Pastoral da Cultura da arquidiocese de Palermo, Itália
In Tuttavia
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Alessandro Biascioli/Bigstock.com
Publicado em 01.02.2021

 

 
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