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O cristão serve o tempo: Estar radicalmente no presente para ser inteiramente na eternidade

Moderno ou antigo – esta pergunta está hoje mais do que nunca em primeiro plano para todos os interesses, não só nas questões de moda ou de saúde, mas em todas as áreas dos interesses humanos, na ciência, na literatura, na religião. E sobre esta palavra os espíritos divergem: alguns gritam absolutamente por aquilo que é moderno, outros, que estão conscientemente fora de moda, olham para trás para os bons velhos tempos de maneira mascarada. À pergunta «queres ser uma pessoa moderna?», alguns respondem: «Sim», seguros de si; outros, pelo contrário: «Não», também eles seguros de si. Como faz aquele que se define cristão? Como se confronta com as mudanças dos tempos? O cristão deve pensar de maneira conservadora ou progressista, deve ser antigo ou moderno? A pergunta fundamental de cada cristão é, evidentemente, a pergunta perante a eternidade. Como alcanço a eternidade no seio do tempo? Aqui, na contínua mudança do devir e do transcorrer, não há nada de eterno, que permanece; provavelmente há uma via fora do tempo, indiferente a tudo aquilo que acontece aqui, viver só na eternidade. Trata-se de fugir ao tempo tirano.

Por outro lado, a nossa palavra chama-nos: quereis encontrar a eternidade, então servi agora o tempo. Esta palavra deve ressoar-nos como uma enorme contradição: quereis coisas eternas? Então permanecei no transitório. Quereis coisas eternas? Então permanecei no temporâneo. «Quereis Deus? Então permanecei no mundo.» Parecia que já éramos capazes de nos subirmos para fora do mundo, através dos degraus de uma escada de virtudes para o Céu. A margem do mundo já tinha desaparecido na distância, e fomos impelidos para os espaços eternos, ainda metade humanidade, já metade Deus. Depois a Palavra arremessou-nos para o sentido contrário do nosso voo, caímos das alturas e eis que nos reencontramos no mundo. Se quereis ser eternos, então servi o tempo, assim ressoa nos nossos ouvidos.



Há uma só hora verdadeiramente significativa em toda a história do mundo: o presente. Quem foge do presente foge da hora de Deus; quem foge do tempo foge de Deus



Servi o tempo – porquê? Porque só no tempo encontrareis Deus e a eternidade. É a vontade oculta de Deus que se deixa encontrar no tempo; encontramos a vontade de Deus só em Jesus Cristo. Nada do que existe no tempo é divino, nem sequer a Igreja nem a nossa religião. Tudo isso está sujeito à fugacidade; todavia, em toda a transitoriedade do singular, do indivíduo, está contida uma parte da vontade de Deus, um pedaço de eternidade. O tempo é como um poço profundo e inesgotável, no qual, através das suas águas, brilha o ouro da fundura nunca alcançada; é como a rocha da montanha através da qual não se veem os veios do ouro nas profundezas. Toda a imperfeição, porém, é pelo menos imagem do perfeito, todo o transitório é um símbolo do eterno.

Cada instante está dirigido a Deus, afirmou um grande historiador; quer dizer que cada instante oculta um pedaço de eternidade, que deve ser encontrado; Deus governa sobre cada instante. O instante, o presente, é a palavra decisiva a que aponta o nosso texto. Servi o tempo, quer dizer, cada tempo, isto é, o presente. Por outras palavras, o presente é santo, está sob o olhar de Deus, é consagrado, é iluminado de luz eterna. O presente é a hora da responsabilidade de Deus connosco, cada presente; hoje e amanhã, o presente em toda a sua realidade e diversidade; há uma só hora verdadeiramente significativa em toda a história do mundo: o presente. Quem foge do presente foge da hora de Deus; quem foge do tempo foge de Deus. Servi o tempo!



Deus santificou o teu tempo; cada tempo, retamente compreendido, conduz diretamente a Deus; e Deus quer que sejamos de todo aquilo que somos



O Senhor do tempo é Deus, a viragem do tempo é Cristo, o verdadeiro espírito do tempo é o Espírito Santo. Assim, em cada instante oculta-se esta tripla dimensão: que eu reconheça Deus como o Senhor da minha vida, que me submeta a Cristo como ponto de viragem da minha vida, do juízo à graça, que eu consiga dar espaço e força ao Espírito Santo no meio do espírito do mundo. Servi o tempo; isto é, servi Deus, o Senhor, Cristo o reconciliador, o Espírito, o Santo do nosso mundo. Só quando permitimos ao presente dar cumprimento ao seu propósito, vivemos uma vida cristã, servimos o tempo. Servir o tempo – e isto reencaminha-nos à primeira pergunta – não quer dizer fazer-se seu “escravo”, não quer dizer aprovar aquilo que é moderno, só porque é “moderno”.

O serviço inclui a força da própria vontade e dos próprios pensamentos, e não a fraqueza daqueles que correm atrás, daqueles que berram juntamente com os outros; não significa: “serve a moda”, mas serve o tempo (…), ou seja, coloca-se no meio dele, nas suas tarefas e dificuldades, na sua seriedade e na sua indigência, e serve; é uma pessoa contemporânea no sentido mais profundo; quer se trate de indigências “políticas”, “económicas”, de decadência “moral” e “religiosa”, ou de preocupação pela nossa juventude adolescente, cada cristão é chamado a mergulhar na indigência do presente. Entra com todo o amor e toda a força que está à tua disposição. A água do poço do tempo tornou-se turva, de tal maneira que já não vemos o ouro do fundo eterno; façamos de modo que o poço seja de novo puro e límpido, façamos de modo a encontrar um pedaço de eternidade no tempo, escavemos em profundidade, até encontrar as fontes eternas. O amor, contudo, faz parte do serviço como a coisa mais importante; isto é, ama o teu tempo, de maneira a poder servi-lo.



Sede pessoas com a própria vontade, com as próprias paixões e as próprias preocupações, a própria felicidade e a própria miséria, a própria seriedade e a própria inconsciência, o próprio júbilo e o próprio lamento. Deus quer ver as pessoas, não os fantasmas que fogem da Terra



Não nos coloquemos fora dos acontecimentos da modernidade. Todos nós temos a responsabilidade da culpa e da miséria de todos nós, é preciso aprender de novo a compreender o que é a solidariedade no interior da humanidade. Manter-se de fora e dizer «hoje não tenho nada a ver com aquilo que acontece, e demasiado repreensível para mim que me intrometa nisso», significa não servir, mas julgar. Sede fraternos: servi o tempo!

O sentido mais profundo, todavia, revela-se apenas quando consideramos que não só o mundo tem o seu tempo e as suas horas, mas que a nossa própria vida tem o seu tempo e a sua hora de Deus, e que por trás dos tempos da nossa vida tornam-se visíveis os traços de Deus; que os poços profundos da eternidade estão debaixo dos nossos caminhos, e cada passo ecoa um frágil eco da eternidade. Significa compreender a forma profunda e pura destes tempos para a presentar na nossa conduta de vida; só assim, no meio do nosso tempo, encontraremos a santa presença de Deus. O meu tempo está nas tuas mãos. A minha infância, a minha juventude, o meu tempo de adulto e a minha velhice.

Servi o vosso tempo, a presença de Deus na vossa vida; Deus santificou o vosso tempo; cada tempo, retamente compreendido, conduz diretamente a Deus; e Deus quer que sejamos de todo aquilo que somos. «Sê totalmente criança», até seres uma criança na brincadeira e na alegria, na recetividade e na gratidão, no abandono à vontade daqueles que amas; «sê totalmente um jovem», na independência e na segurança, na coragem e no despeito, que é próprio do jovem; na força, mas também na submissão àqueles que adoras como teus guias, e na medida em que realizares o propósito desse tempo teu que Deus te dá, estarás radicado nas profundidades da eternidade. Leva todas as alegrias e sofrimentos do teu tempo, preenche a essência daquilo que a juventude é na sua necessidade e na sua liberdade, e assim sobre ti estará o comprazimento de Deus, assim chegarás do tempo à eternidade.



Só aquele que está com ambos os pés na terra, que é e permanece totalmente filho da terra, que não faz tentativas desesperadas de voar para alturas que são inalcançáveis para ele, que se contenta com aquilo que tem e a isso permanece fiel com gratidão



Sede pessoas com a própria vontade, com as próprias paixões e as próprias preocupações, a própria felicidade e a própria miséria, a própria seriedade e a própria inconsciência, o próprio júbilo e o próprio lamento. Deus quer ver as pessoas, não os fantasmas que fogem da Terra; Deus amou a Terra e fez-nos da Terra, tornou a Terra nossa mãe, Ele, que é nosso Pai. Não somos criados como anjos, mas como filhos da Terra, com a culpa e a paixão, com a força e as fraquezas, mas somos filhos da Terra amada por Deus, amados por Deus, especialmente na nossa fragilidade, nas nossas paixões, na nossa culpa; Deus ama-nos especialmente na nossa atitude rebelde sobre a Terra – no tempo, no nosso tempo; Deus quer-nos na permanência na nossa Mãe Terra e no que doou, na solidariedade com os humanos, mesmo quando são frágeis, em fraternidade com o nosso pequeno e frágil tempo, e ilumina os nossos corações com um pouco de eternidade que rompe cada tempo.

Há uma antiga lenda grega centrada no gigante Anteu, tão forte que ninguém podia derrotá-lo. Muitos tinham tentado a luta e revelaram-se inferiores, até que chegou alguém que, durante o combate, levantou o gigante do solo e, inesperadamente, teve sucesso sobre ele; tinha terminado a sua força, que nele fluía apenas pelo facto de estar com os pés seguros no solo. Esta lenda é extremamente profunda. Só aquele que está com ambos os pés na terra, que é e permanece totalmente filho da terra, que não faz tentativas desesperadas de voar para alturas que são inalcançáveis para ele, que se contenta com aquilo que tem e a isso permanece fiel com gratidão, este tem toda a força da humanidade, este serve o tempo, e portanto a eternidade.

Depois, no entanto, acontecer-nos-á que no tempo, pela sua transitoriedade, voltemos sempre de novo os olhos para o tempo que virá no final dos tempos. Servi o tempo, a hora que Deus quer ter com o vosso povo, com vós próprios; sede pessoas do santo presente, que não volta mais, como aquele samaritano compassivo era o homem do presente, de maneira a tornar-vos pessoas da eternidade. O Senhor do tempo é Deus. A viragem dos tempos é Cristo. O verdadeiro espírito do tempo é o Espírito Santo.


 

Dietrich Bonhoeffer
Teólogo protestante
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: kroker/Bigstock.com
Publicado em 27.01.2021

 

 
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