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O cinema sempre atual de Éric Rohmer: Entrever sonho e esperança na vida banal, sem julgamentos

«É melhor viver a sonhar um ideal do que adaptar-se a uma realidade medíocre e perder toda a esperança.» Com estas palavras, Delphin, protagonista de “O raio verde”, de Rohmer, oferece uma chave de leitura sobre a filmografia do realizador francês.

Éric Rohmer (1920-2010), nome artístico de Maurice Schérer, professor de Letras antes de se ocupar de cinema e colaborador de André Bazin na redação dos “Cahiers do Cinéma”, foi animador da “nouvelle vague” do cinema francês juntamente com Godard, Truffaut, Rivette e Chabrol.

O que em primeiro lugar sensibiliza é a frescura dos seus filmes, que obtém deixando aos seus autores, à exceção de alguns pontos essenciais do enredo, uma grande liberdade de improvisação. Os atores representam com espontaneidade: no ecrã triunfa a vida vivida em toda a sua simplicidade. Estamos longe das tramas sensacionais de Hollywood.

A magia do cinema de Rohmer é a de intuir a vitalidade da experiência quotidiana, realçando-lhe o fascínio das possibilidades de cada dia. Nas vidas à primeira vista banais dos seus personagens, na aparente simplicidade das tramas, não faltam golpes de teatro. A realidade supera a fantasia. A realidade de Rohmer nunca é medíocre.



Rohmer, como todo o grande autor, não julga as suas criaturas. Observa com simpatia o seu vacilar incerto de uma possibilidade para a outra. Sem a pretensão de os compreender verdadeiramente, descreve-lhes pensamentos, estados de alma e ações



O cineasta, com um estilo enxuto em que dominam enquadramentos fixos e uma montagem linear, convida-nos a afinar o olhar para colher o sublime na simplicidade, para entrever espirais de luz que preenchem de sentido a experiência do quotidiano. Do realizador parece chegar um convite a viver sob o sinal da esperança, a reconhecer a luz que enche de gosto a vida de cada dia.

Delphin continua a sonhar uma relação autêntica. Não se contenta com relações fictícias. A sua luta é sofrida: depara-se com uma realidade que dificilmente voa alto. Colegas, amigos e conhecidos exortam-no a lançar-se ao primeiro que vier, para não ficar sozinha. Acompanhada por um tímido «sinal de esperança» (rigorosamente verde) no seu caminho, decide renunciar a todo o compromisso para encontrar um companheiro que lhe permita ser ela própria. O seu sonho torna-se realidade.










A esperança e o imprevisto nas situações mais inesperadas permanece no centro de outros filmes, como “Conto de inverno” e “Conto de outono”. Em ambos – episódios do ciclo “Contos das quatro estações – os protagonistas são sonhadores esboçados em toda a sua vulnerabilidade e ingenuidade.

A Félicie de “Conto de inverno” não renuncia à esperança de regressar com o homem dos seus sonhos, de quem perdeu o rasto devido a um mal-entendido. Magali, viúva e apaixonada vinicultora de “Conto de outono”, sonha um companheiro de vida mas não faz nada para o encontrar. Também neste caso o sonho torna-se realidade.



Em “A minha noite em casa de Maud” são belíssimas as conversas entre o católico Jean-Louis e a não crente Maud. Ambos com as suas observações e perguntas – juntamente com Blaise Pascal, o terceiro protagonista ideal do filme – buscam as razões do seu crer e não crer



As relações, com toda a sua beleza e impossibilidade de serem agarradas, são outro tema que está no coração do cinema de Rohmer. Aos longos diálogos, por vezes intermináveis, com que os protagonistas procuram afirmar-se, conhecer-se e compreender-se, contrapõe-se a realidade imprevista, cujos acontecimentos tomam muitas vezes caminhos inesperados.

O espetador observa com ternura e simpatia as reviravoltas amorosas dos dois jovens e confusos protagonistas de “Noites de lua cheia” e de “Conto de verão”. Falam, experimentam, viajam, deixam-se arrastar pelos acontecimentos, sem tomar uma decisão. A vida decidirá por eles.

A confusão e inquietação dos personagens são sugeridas pela realização de Rohmer. A câmara segue os protagonistas que caminham sem cessar e mudam repentinamente de direção e velocidade, aludindo a um avançar às apalpadelas que desagua em escolhas arbitrárias.










Todavia, Rohmer, como todo o grande autor, não julga as suas criaturas. Observa com simpatia o seu vacilar incerto de uma possibilidade para a outra. Sem a pretensão de os compreender verdadeiramente, descreve-lhes pensamentos, estados de alma e ações. Respeitoso, perscruta as suas tentativas de fazer clareza, antes de tudo a eles próprios, com diálogos inesgotáveis.

Em “A minha noite em casa de Maud” são belíssimas as conversas entre o católico Jean-Louis e a não crente Maud. Ambos com as suas observações e perguntas – juntamente com Blaise Pascal, o terceiro protagonista ideal do filme – buscam as razões do seu crer e não crer.

Rohmer é um autor do passado sempre-verde na sua novidade. Poderemos esperar que os seus filmes inspirem os cineastas de hoje a uma arte em diálogo com a beleza da vida e do seu mistério? O próximo que avance.


 

Piero Loredan
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Eric Rohmer | D.R.
Publicado em 02.08.2021

 

 
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