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O cinema como oração

O documentário “Andrei Tarkovsky. O cinema como oração” (1h37) estende-se da infância do grande realizador e escritor russo (Rússia, 1932 – França, 1986) até à maturidade artística e ao prematuro desaparecimento. O filho do cineasta, Andrei Andreyevich, nascido em Moscovo no ano de 1970, recolhe fotografias e vídeos antigos, áudios inéditos, entrevistas e lições de cinema, imagens gravadas nos lugares de vida e trabalho, que viram crescer a inteligência voraz e combativa do pai, uma mente incompreendida no seu país natal, obrigada a emigrar para continuar a trabalhar.

Tarkovsky só assinou oito filmes, oito memoráveis obras, que tiveram emulações e influxos a nível mundial. O documentário “O cinema como oração” está também dividido em oito capítulos, nos quais podemos escutar diretamente a voz inexausta, decidida e apaixonada do realizador. Vemo-lo no “set” ou a empunhar uma máquina de filmar artesanal, ou a conversar com a mulher, os filhos, os amigos, os jornalistas. São oferecidas sequências selecionadas das suas obras, como a última, “Sacrifício” (1986), na qual o protagonista faz um voto. Sacrificará todas as suas posses em troca da vida dos seus queridos, em perigo perante uma iminente guerra atómica. «Tudo aquilo que não é necessário é pecado», recita o protagonista. Do mesmo modo, o grande realizador “sacrificou” a sua vida, queimou-a numa luz encadeadora, traduziu-a em visões nunca vistas.



Imagem Póster | D.R.


Elogio da lentidão

O que há em comum entre aqueles oito filmes e o ícone russo pintado pelo monge Andrei Rublëv (veja-se o filme homónimo, 1966), que viveu entre 1370 e 1430? O cinema de Tarkovski não é de ação, e não pertence ao género de conteúdo religioso. A sua respiração sacra aprecia-se pela meditação sobre o tempo, que as imagens oferecem. Um tempo solene, longuíssimo, que tudo envolve. O que acontece é menos importante do que o ritmo com que acontece, as pausas, os abrandamentos, as acelerações, as suspensões dramáticas, que se assemelham a uma imagem parada, a uma fotografia dilatada, ao impercetível mas indubitável movimento dos astros.

Quando não acontece nada, o esperador é, aos poucos – e com extrema fadiga – aspirado para um mundo que nunca habitou. O seu olhar não é violentado por efeitos especiais, mas acariciado com visões imóveis, que o fixam à poltrona, que o impedem de se evadir, e que lhe restituem a liberdade de sonhar, imaginar, preencher os vazios, entrar na cenografia. A atenção pode deslocar-se para onde quer, porque se nada de especial acontece, tudo pode ser a sede de uma epifania, de uma revelação, de um apocalipse, de uma saída do ocultamento. Quem vê, aprende que não conta a velocidade ou o frenesi dos factos, mas a conversão à lentidão dos movimentos, dos olhares, da respiração, dos batimentos cardíacos, do pensamento.

 

Dedicação integral

A segunda lição ética diz respeito à dedicação integral à missão de cineasta, uma missão que tinha o carácter de uma oração, pois sabia exprimir os afetos e as ideias – grandes e pequenas – na presença e no diálogo com o transcendente, entendido como a emocionante fonte de sentido, de verdade moral, de criação artística, de experimentação visiva e sonora. Uma fonte estética que o surpreendia e seduzia, que reclamava obediência nas leituras preparatórias, na encenação, na montagem, na escolha dos atores, no trabalho com a equipa.

Os grandes génios, em quem Tarkovsky se inspirava (Leonardo, Bach, Tolstoi, Dostoiévski), não eram – segundo ele – produtores dotados de perícia técnica, mas homens de poesia, “possuídos” pela beleza, que neles soprava o hálito criador, e de quem os seus textos eram um sinal estático, sempre fragmentário e incompleto. Como um salmo interrompido, uma invocação refreada, como a fotografia de um horizonte belíssimo e inalcançável. Não se “inventa”, não se “faz” uma obra-prima. É, antes, a obra que te dá vida: «Uma obra-prima (lemos numa nota de realização) pode ser manifestação de uma alma que te toca ao de leve enquanto sobe para o alto, para o céu, sussurrando-te, e deixando atrás de si apenas um sopro de vento que podes sentir…».









 

Paolo Marino Cattorini
In Messaggero di sant'Antonio
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Póster (det.)
Publicado em 17.11.2020 | Atualizado em 18.11.2020

 

 
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