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O bom senso do místico

Nessa altura, após o sucedido, o impulso subitamente travado, o desejo contido, fizera-o enrubescer. Não havia nada que o impedisse de falar exceto o “bom senso”. «Afinal, o que é bom senso?», interrogou-se. «É essa coisa que não vemos, mas está em toda a parte», respondeu-lhe a consciência. «É a peneira através da qual o conteúdo indesejado é impedido de ver a luz do dia, o filtro dos afetos que, uma vez entrelaçados em pensamentos, procuram palavras e identidade própria. Quando o filtro não funciona, já sabes…». Após um prolongado silêncio, ele pediu a Deus, com um ardor inusitado, que lhe sacudisse a peneira do bom senso, para que não se tornasse escravo do senso comum.

Desagradava-lhe essa ideia. A obediência cega às leis da maioria, a mono-leitura da realidade, a simpatia temerosa com a opinião dominante. O senso comum era um território que evitava por natureza. Era dado à dissonância, não por prazer, mas por vocação. Outrora conhecera a história bíblica de Moisés, o homem do deserto, e percebera tudo naquele instante. Quando o crente de bom senso, em conformidade com o chamamento divino, supera a ditadura do senso comum, e avança «para além do deserto» até ao monte de Deus; quando, despojado do essencial, acolhe, sem a ânsia de compreender, o que contempla, a experiência do mistério extravasa as condicionantes do tempo e do espaço. Em consequência, a indelével marca da eternidade molda-o. E o mistério desemboca em ministério. O místico, como outrora o profeta do Egito, avança mesmo contra o senso comum, porque acredita na libertação dos seus irmãos, porque vê a terra prometida, porque reconhece que Deus não abandona o seu povo. Torna-se naturalmente o administrador das coisas divinas.

As experiências fraturantes decidem o futuro de uma vida, pessoal e coletiva. Mais tarde, ao recontarmos a velha história em câmara lenta, diremos sempre que foi antes ou depois, como se todos os acontecimentos se desenvolvessem na órbita da experiência iluminadora. Entretanto, para que tudo fique devidamente esclarecido, é preciso envolver-se num processo de debate interno, no laboratório do coração, até que se atravesse o território nubloso do categorizado como senso comum. O místico, cheio de bom senso, sabe que tem de ir para além dos desertos das grandes cidades, bem como contornar a ebulição contínua dos senhores que, todas as manhãs, reeditam as “verdades comuns”.

O território sagrado está ao alcance de todos, mas nem todos se empenham em lá chegar. Nele, só nele, percebemos quem somos e o que somos chamados a realizar.


 

P. Nélio Pita, CM
Imagem: "Moisés e a sarça ardente" (det.) | Marc Chagall
Publicado em 22.03.2019

 

 
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