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O absoluto da luz

No Evangelho, segundo São João, depois de se afirmar que «no início era o “Logos”», que este mesmo «Logos» estava «junto de Deus» e que «Deus era o “Logos”», versículo 1, afirma-se, nos versículos 4 e 5, que o que no «Logos» nasceu era vida e que esta vida era a luz dos seres humanos. Mais se acrescenta que esta luz resplandece – brilha é pouco – na escuridão, não podendo esta vencer aquela.

No versículo 14, acrescenta João que o «Logos» se tornou carne e que habitou/permaneceu entre nós.

Aparentemente, João não nos dá uma narração do nascimento de Jesus. Aparentemente, apenas. Isso de que João fala no início de seu Evangelho, e de que retirámos breves excertos, é o seu modo próprio de se referir ao sentido lógico (de «logos») de isso que é o nascimento de Jesus. De notar que, no contexto do que aqui se escreve, a expressão «sentido lógico» é redundante, mas é-o propositadamente.

O Evangelho de João é o lugar lógico em que a boa nova se apresenta como «Logos», como «sentido», melhor tradução para o que o termo helénico aponta à inteligência. O «Logos» de que fala João é o absoluto do sentido, possível e realizado. É Deus como absoluto de possibilidade de sentido e como sentido em ato. O mesmo é dizer: é o Espírito.



O absoluto da relação do Criador com a criação. Deus dando-se à criação, dando-se ao ponto de a assumir carnalmente, de a provar, provando-se, até ao mais fundo da dor, até ao mais alto da alegria



Ora, ‘antes’ do que se narra em Génesis 1, não há senão este mesmo absoluto Espírito. Isso a que se chama «criação» é o primeiro ato em que deixa de haver apenas Espírito e surge um novo modo de realidade, essa em que há um misto de Espírito e de criatura do Espírito (não, não é ‘não-espírito’). A este misto, em absoluto relativo ao Espírito, chamamos mundo. Este mundo não é apenas a estreitamente paroquial Terra ou mesmo o moderno ‘cosmos’, mas tudo o que não é, em si mesmo, o Espírito, Deus, ainda irrelativo. Pense-se num universo matemático platónico-cartesiano a infinitas dimensões como coisa criada e ter-se-á uma pálida ideia do que é a criação. Deus, o Espírito, é Deus disto tudo; no entanto, é, em ato próprio, infinitamente excedente em ato a tal criatura.

Este é o «Logos» de que fala João. Ora, este «Logos» não apenas criou o mundo como, estendendo a sua misericórdia para lá de qualquer forma de justiça humanamente pensável, em certo momento do ato do mundo, desejou ser «carne», literal «sarks», essa que tão desprezada é, mas não por Deus, não pelo «Logos».

Misericordioso que é o «Logos» não quis ser carne, o que seria uma forma de violência, mas, diz-se em outra narrativa, solicitou a uma menina que pudesse ser carne nela, pois é o único modo de se ser carne, através da carne; carne que é remoto genesíaco fruto do espírito. A menina concedeu. O «Logos» formou-se em carme, materializou-se na forma da carne, pois a carne não é matéria, mas a vida de que João fala, isto é, a mais subtil forma de espírito.

Deus fez-se carne. Em Deus, como Espírito, eternamente há a possibilidade da humana carne por si assumida. A carne humana, antes de ser humana, é divina. Não há «Logos» incarnado sem que haja, nesse mesmo «Logos», o absoluto da possibilidade da carne em que vai poder ser. Poder ser. Não há qualquer magia na incarnação de Jesus: um absoluto metafísico – como todo os outros, infinitos – e o encontro do desejo de Deus com a vontade de uma jovem mulher. O encontro da pura metafísica transcendente a toda a história, com a mais concreta das realidades históricas, de que depende para poder realizar-se; realizar-se literalmente, isto é, tornar-se ‘coisa’, ato mundano.



O que há de mais extraordinário em termos divinos – e, todavia, de mais ordinário em termos humanos – na incarnação do «Logos» é que, se este, enquanto absoluto metafísico infinito em ato, não necessita de amor humano (o amor trinitário é o próprio Deus), já quando incarnado precisa de tanto amor quanto qualquer ser humano



Eis o Natal. Sem «Logos» eterno, não há Natal; sem carnal ventre de Maria, não há Natal. Espantosa materialização algorítmica, esta: da pura lógica da humana forma, em espírito, à humana realidade no cadinho uterino de uma jovem mulher. É esta a essência de todo o milagre: não a magia, mas a grandeza inusitada e inédita da riqueza metafísica e de sua possibilidade de tradução material, como no mesmo instante absoluto em que Deus tudo ‘tirou’ do relativo nada de tudo.

Não é do nada que o «Logos» emerge, mas do ato infinito que tudo suporta ‘contra’ o nada. É este mesmo sentido de contraditoriedade com o nada, em absoluto, que significa a luz de que fala o Evangelista. A luz dos seres humanos, essa a que nada faz obstáculo, essa que, apenas por haver, elimina as trevas, significa não apenas o que dá sentido «logos» a tudo, mas o que, pela sua presença, tudo mantém em ato.

Jesus, o Cristo, assume, assim, a dimensão lógica da providência do mundo, o rosto de Deus voltado para a criação. O absoluto da relação do Criador com a criação. Deus dando-se à criação, dando-se ao ponto de a assumir carnalmente, de a provar, provando-se, até ao mais fundo da dor, até ao mais alto da alegria.

No versículo 10, João afirma que o mundo foi feito por meio do «Logos». Precisamente. Como se explica, então, que sendo o «Logos» eterno, haja esta relação não-eterna com o criado, necessariamente efémero?



Para se poder aproximar do que seja algo como o divino ‘desejo’ de amor, medite-se no que poderá ter sido a experiência – inenarrável, em si mesma, mas vivida em carne, vida de espírito, semelhante à minha e à tua – de Jesus ao amar a Mãe e ao saber-se por ela amado



Que reflexo pode a efemeridade do tempo ter na eternidade? Não é questão a que possamos responder. No entanto, quem ama (ou já amou), isto é, quem quer o bem do ato a que dirige tal amor, não pressente o que há de eterno em tal mesmo amor? E que dizer de quem ama Deus? É que amar Deus é querer o bem de Deus. Tolice, dir-se-á: tolice inconsequente; todavia, não há neste amor a Deus como querer o bem de Deus, precisamente esse que não necessita de que o amem, algo de tão estranho – todavia real e absoluto nessa sua mesma realidade, irredutível – quanto haver uma eternidade que ame uma insignificância de tempo?

Ora, o que há de mais extraordinário em termos divinos – e, todavia, de mais ordinário em termos humanos – na incarnação do «Logos» é que, se este, enquanto absoluto metafísico infinito em ato, não necessita de amor humano (o amor trinitário é o próprio Deus), já quando incarnado precisa de tanto amor quanto qualquer ser humano. Mesmo tipo de carne, mesma fragilidade, mesma dependência de atos de amor.

Para se poder aproximar do que seja algo como o divino ‘desejo’ de amor, medite-se no que poderá ter sido a experiência – inenarrável, em si mesma, mas vivida em carne, vida de espírito, semelhante à minha e à tua – de Jesus ao amar a Mãe e ao saber-se por ela amado.

Não será esta experiência real muito mais esclarecedora quanto à grandeza do ser humano do que a do próprio Job? Não experimentou o «Logos», no absoluto do ato de amor de Maria, isso por que e para que o mundo foi criado?

Não terá Cristo encontrado em Maria o concreto ato de amor que vale não sobretudo a salvação da criação, mas a criação da criação?

Creio que sim.


 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Imagem: Singjai/Bigstock.com
Publicado em 24.12.2020

 

 
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