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“Laudato si’”: Nove temas para compreender o essencial da encíclica sobre a casa comum

Ao completar cinco anos, a “Laudato si’”, encíclica do papa Francisco sobre o cuidado da casa comum, está no centro de inúmeras reflexões e encontros promovidos pela Igreja católica, em Portugal e no mundo, além de inspirar não crentes ou pessoas de diferentes fés. Todavia, nem todos tiveram a oportunidade de a ler. Para estes e para aqueles que já a percorreram na leitura e no estudo mas já se esqueceram, propomos algumas das suas passagens mais significativas, divididas em nove temas.

 

O nosso planeta é um presente, não uma posse

Se o ser humano, criado à imagem de Deus, tem por missão «cultivar e guardar» a terra (Génesis 2,15), ele não é mais do que administrador, não o senhor.

«A harmonia entre o Criador, a humanidade e toda a criação foi destruída por termos pretendido ocupar o lugar de Deus, recusando reconhecer-nos como criaturas limitadas» (n. 66).

«Não somos Deus. A terra existe antes de nós e foi-nos dada. (…)Cada comunidade pode tomar da bondade da terra aquilo de que necessita para a sua sobrevivência, mas tem também o dever de a proteger e garantir a continuidade da sua fertilidade para as gerações futuras» (n. 67).

 

Habitados pelo Espírito

Não se trata de sacralizar a natureza, mas de reconhecer que ela partilha com a humanidade um mesmo mistério de vida e de existência.

«O ser humano, dotado de inteligência e amor e atraído pela plenitude de Cristo, é chamado a reconduzir todas as criaturas ao seu Criador» (n. 83)

«Todo o universo material é uma linguagem do amor de Deus, do seu carinho sem medida por nós» (n. 84).

«Em cada criatura, habita o seu Espírito vivificante, que nos chama a um relacionamento com Ele» (n. 88).

«Nós e todos os seres do universo, sendo criados pelo mesmo Pai, estamos unidos por laços invisíveis e formamos uma espécie de família universal» (n. 89).

«Uma Pessoa da Santíssima Trindade inseriu-Se no universo criado, partilhando a própria sorte com ele até à cruz. Desde o início do mundo, mas de modo peculiar a partir da encarnação, o mistério de Cristo opera veladamente no conjunto da realidade natural, sem com isso afectar a sua autonomia» (n. 99).

«A vida eterna será uma maravilha compartilhada, onde cada criatura, esplendorosamente transformada, ocupará o seu lugar» (n. 243).

 

Uma comunidade de destino

A perda da biodiversidade é um escândalo. Privamo-nos de um património precioso e de um dom de Deus.

«A nossa casa comum pode comparar-se ora a uma irmã, com quem partilhamos a existência, ora a uma boa mãe, que nos acolhe nos seus braços» (n. 1).

«Anualmente, desaparecem milhares de espécies vegetais e animais, que já não poderemos conhecer, que os nossos filhos não poderão ver, perdidas para sempre. (…) Por nossa causa, milhares de espécies já não darão glória a Deus com a sua existência, nem poderão comunicar-nos a sua própria mensagem. Não temos direito de o fazer» (n. 33).

 

Os pobres: longe da vista, longe do coração

Por trás das estatísticas mundiais sobre a pobreza, o desemprego, as migrações, há pessoas concretas.

«Muitas vezes falta uma consciência clara dos problemas que afetam particularmente os excluídos. Estes são a maioria do planeta, milhares de milhões de pessoas. Hoje são mencionados nos debates políticos e económicos internacionais, mas com frequência parece que os seus problemas se colocam como um apêndice. (…) Com efeito, na hora da implementação concreta, permanecem frequentemente no último lugar. Isto deve-se, em parte, ao facto de que muitos profissionais, formadores de opinião, meios de comunicação e centros de poder estão localizados longe deles» (n. 49).

«Não percamos tempo a imaginar os pobres do futuro, é suficiente que recordemos os pobres de hoje, que poucos anos têm para viver nesta terra e não podem continuar a esperar» (n. 162).

 

Coerência

Defender as espécies ameaçadas, sim! Mas sem esquecer o embrião humano.

«É evidente a incoerência de quem luta contra o tráfico de animais em risco de extinção, mas fica completamente indiferente perante o tráfico de pessoas, desinteressa-se dos pobres ou procura destruir outro ser humano de que não gosta. Isto compromete o sentido da luta pelo meio ambiente» (n. 91).

«Quando, na própria realidade, não se reconhece a importância dum pobre, dum embrião humano, duma pessoa com deficiência – só para dar alguns exemplos –, dificilmente se saberá escutar os gritos da própria natureza. Tudo está interligado» (n. 117).

 

A escola dos pequenos gestos

Pequenos gestos não salvam o planeta. Mas mudam a nossa atenção aos outros.

«Se uma pessoa habitualmente se resguarda um pouco mais em vez de ligar o aquecimento, embora as suas economias lhe permitam consumir e gastar mais, isso supõe que adquiriu convicções e modos de sentir favoráveis ao cuidado do ambiente. É muito nobre assumir o dever de cuidar da criação com pequenas acções diárias, e é maravilhoso que a educação seja capaz de motivar para elas até dar forma a um estilo de vida» (n. 211).

 

E se abrandássemos?

O crescimento não tem sentido se desrespeita a justiça social

«Ninguém quer o regresso à Idade da Pedra, mas é indispensável abrandar a marcha para olhar a realidade doutra forma, recolher os avanços positivos e sustentáveis e ao mesmo tempo recuperar os valores e os grandes objetivos arrasados por um desenfreamento megalómano» (n. 114).

«Sabemos que é insustentável o comportamento daqueles que consomem e destroem cada vez mais, enquanto outros ainda não podem viver de acordo com a sua dignidade humana. Por isso, chegou a hora de aceitar um certo decréscimo do consumo nalgumas partes do mundo, fornecendo recursos para que se possa crescer de forma saudável noutras partes» (n. 193).

 

A beleza salvará o mundo

A contemplação do mundo é um caminho de vida espiritual.

«O universo desenvolve-se em Deus, que o preenche completamente. E, portanto, há um mistério a contemplar numa folha, numa vereda, no orvalho, no rosto do pobre. O ideal não é só passar da exterioridade à interioridade para descobrir a ação de Deus na alma, mas também chegar a encontrá-Lo em todas as coisas» (n. 233).

 

Adormecidos… ou responsáveis?

Favorecer uma governação mundial dos desafios ecológicos é urgente. Religiosos, cientistas e ecologistas devem entrar em diálogo.

«Cresce uma ecologia superficial ou aparente que consolida um certo torpor e uma alegre irresponsabilidade. Como frequentemente acontece em épocas de crises profundas, que exigem decisões corajosas, somos tentados a pensar que aquilo que está a acontecer não é verdade» (n. 59).

«O século XXI (…) assiste a uma perda de poder dos Estados nacionais, sobretudo porque a dimensão económico-financeira, de carácter transnacional, tende a prevalecer sobre a política. Neste contexto, torna-se indispensável a maturação de instituições internacionais mais fortes e eficazmente organizadas, com autoridades designadas de maneira imparcial por meio de acordos entre os governos nacionais e dotadas de poder de sancionar» (n. 175).

«A maior parte dos habitantes do planeta declara-se crente, e isto deveria levar as religiões a estabelecerem diálogo entre si, visando o cuidado da natureza, a defesa dos pobres, a construção duma trama de respeito e de fraternidade. De igual modo é indispensável um diálogo entre as próprias ciências, porque cada uma costuma fechar-se nos limites da sua própria linguagem (…). Torna-se necessário também um diálogo aberto e respeitador dos diferentes movimentos ecologistas, entre os quais não faltam as lutas ideológicas. A gravidade da crise ecológica obriga-nos, a todos, a pensar no bem comum e a prosseguir pelo caminho do diálogo que requer paciência, ascese e generosidade, lembrando-nos sempre que a realidade é superior à ideia» (n. 201).


 

Dominique Lang
In Le Pèlerin
Edição: Rui Jorge Martins
Imagem: World Image/Bigstock.com
Publicado em 03.11.2020

 

 

 
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