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No limiar da vinda de Cristo

O Apóstolo Paulo, nas duas cartas aos Tessalonicenses, adverte-nos para uma realidade constante, que é a vinda do Senhor. Há duas situações na comunidade de Tessalónica que geraram em Paulo alguma preocupação: enquanto a sua pregação é rejeitada na sinagoga dos judeus, muitos operários, considerados pagãos e não tendo uma raiz hebraica, convertem-se à pregação do Apóstolo dos Gentios (cf. 1Ts 4, 11ss e 2Ts 3, 6-12). Quanto a estas situações, sabemos que os judeus, causavam tensões e conflitos envolvendo os cristãos, forçando as autoridades públicas a uma ingerência ao seu favor. No que diz respeito aos pagãos, as duas Cartas de Paulo aos Tessalonicenses denotam uma forte e viva espera do Senhor que, não obstante, não estava isenta de infortúnio, de inquietações e até mesmo de impaciências.

Em 1Ts 1, 9-10, Paulo adensa a essência da identidade cristã ao redor do tema da espera do Senhor, determinando-a sob o prisma de quatro indicações:

1. Converter-se a Deus
A conversão a Deus supõe uma mudança radical e total a Deus, não se trata de mudar de direção ou procurar melhorar algum aspeto da vida, mas constitui-se num êxodo primeiro para Deus e depois para outros.

2. Afastar-se dos ídolos
A identidade cristã pressupõe confiar única e exclusivamente em Deus, libertando-se de todas aquelas realidades que, ilusoriamente, tomam o lugar de Deus. Só Deus é Deus e acreditar nesta força omnipotente, pressupõe o abandono de todas as falsas religiões que deixam Deus na penumbra da existência humana.

3. Servir o Deus verdadeiro
Em S. Paulo, o verbo e a ação de servir adquire outro matiz, ou seja, servir significa tornar-se escravo. Ora, ser escravo, na linguagem paulina, corresponde em reconhecer a Deus como o único Senhor digno de toda honra, glória e louvor.

4. Esperar a nova vinda de Jesus
Esperar Jesus significa estar vigilante, pois não sabemos nem o dia e nem a hora em que virá o Filho de Deus. A vinda esperada de Jesus traz a libertação, por isso, o Filho de Deus vem para libertar e não julgar ou condenar o mundo. A ira de Deus acontece quando o homem se abandona ao próprio egoísmo e a injustiça face aos irmãos.

Em 1Ts 2, 19, encontramos pela primeira vez a designação parusia que, embora etimologicamente assuma o mesmo significado de vinda, no sentido religioso assumiu-se um sentido mais solene e esplendoroso, tal como a vinda gloriosa de Cristo. Apesar de Paulo falar de Cristo Ressuscitado sem, contudo, falar da iminência do seu regresso, faz alusão à última vinda gloriosa de Cristo. Numa outra passagem mais à frente, em 1Ts 3, 13 o encontro com Cristo glorioso constituirá o tema mais lato da esperança cristã: «Queira ele confirmar vossos corações numa santidade irrepreensível, aos olhos de Deus, nosso Pai, por ocasião da Vinda de nosso Senhor Jesus com todos os santos». Dessa forma, segundo a monja carmelitana, Emanuela Ghini, «a parusia radica-se no Cristo, fundamento da Igreja, única fonte da sua fé e da sua esperança. A parusia é um aspeto daquela fé no Cristo Ressuscitado, que deu origem à primeira comunidade».

 

Estaremos para sempre com o Senhor

Em 1Ts 4, 13-18, não é difícil percebermos que os Tessalonicenses traziam grandes inquietações acerca do destino dos mortos, quando não teriam podido estar presentes na liturgia da parusia. Talvez os tessalonicenses julgassem que os seus mortos tivessem sido excluídos da parusia. O que nos interessa aqui é a resposta de Paulo que se movimenta numa linguagem e numa conceção que são frutos do seu tempo, mas que precisamos identificá-los e situá-los no seu devido contexto.

Ora, poderíamos dizer que encontramos na resposta de Paulo, não raras vezes, características e peculiaridades comuns com a literatura apocalíptica, ou seja, a voz do arcanjo, a descida de Cristo dos céus, entre outros. Este género de literatura sinaliza o cenário exato daquilo que virá a acontecer no fim dos tempos. Paulo pretende trazer a lembrança do amor de Deus pela humanidade, o Seu desígnio salvífico. Neste tipo de linguagem está embrenhado a escatologia paulina, onde os mortos assistirão ao cortejo triunfal de Cristo, uma vez que a ressurreição dos mortos manifesta já uma primeira ação deste triunfo.

Colocando-se na mentalidade do seu tempo, Paulo procura responder os bulícios dos Tessalonicenses sem, contudo, esgotar o ardor da sua pregação. Por isso, para além dessa linguagem, Paulo recorre a um tema de suma importância para a fé daquela comunidade: a esperança, sendo Cristo o fundamento da nossa esperança. Segundo o teólogo e biblista italiano, Giuseppe Barbaglio, «Paulo explora as imagens tradicionais que representavam o acontecimento final, servindo-se de suas terminologias proféticas e apocalípticas. Também recolhe os lugares comuns da escatologia proto cristã junto a influências do mundo grego. Mas tudo isso só possui um valor funcional: dar corpo à certeza da fé que é assegurada aos crentes pela graça ante um futuro salvífico, é estar sempre com o Senhor, participando do reino glorioso de Deus».

O Apóstolo coloca Cristo com a garantia da esperança, uma vez que a nossa ressurreição brota da própria ressurreição de Cristo. Cristo é portador de uma esperança que vivifica o género humano. Pela ressurreição do Senhor, o Homem é introduzido na vida eterna com o Pai. Por Cristo, somos co-herdeiros, somos triunfadores, onde «a vida é mais forte do que morte», num paraíso, onde a esperança desponta como aurora, onde outrora habitava as trevas da morte.

 

Como um ladrão

Em 1Ts 5, 1-11 o Apóstolo Paulo adverte que o Dia do Senhor virá como um ladrão noturno. Assim sendo, Paulo convida-nos a viver num estado permanente de vigilância, sem nos esmorecer, de modo que este Dia não nos surpreenda como um ladrão. Associado a estes acontecimentos, o Apóstolo exorta-nos, no v. 23, a vivermos na santidade de Deus, para que todo o nosso ser esteja íntegro e irreprochável para a segunda vinda do Messias. Segundo Barbaglio, «a exortação paulina centra-se radicalmente na trama da história salvífica a partir de três tempos: o passado, quando os Tessalonicenses foram chamados por Deus a crer e a santificarem-se, sendo destinados à salvação; o presente, como filhos da luz aos quais são exigidas ações consequentes; e o futuro, salvos na parusia de Cristo mediante a qual devem apresentarem-se irrepreensíveis».

Com estas advertências, não é difícil perceber que estamos diante de um Mistério que está iminente para acontecer, mas não podemos calcular nem o dia e nem a hora. A única recomendação que se dá é viver este estado incessante de diligência e cautela. O próprio Jesus, antes da Ascensão, responde aos discípulos: «Estando, pois, reunidos, eles assim o interrogaram: “Senhor, é agora o tempo em que irás restaurar a realeza em Israel?” E ele respondeu-lhes: “Não compete a vós conhecer os tempos e os momentos que o Pai fixou com sua própria autoridade”» (At 1, 6-7).

A vigilância que nos pede S. Paulo indica-nos o modo próprio de viver e ser cristão. Preconiza-nos a viver temperantes, sóbrios, revestidos com as couraças da fé, da esperança e da caridade, qual vigia esperando a aurora. Não se pode acalentar ou distrair com o sucesso, o dinheiro, a boa fama, o carreirismo, porque a vinda do Senhor é certa e o julgamento deste mundo está próximo. Isso não quer dizer que o cristão deve viver atemorizado ou amedrontado, porque Cristo já derramou o seu sangue por nós, já nos comunicou o seu Espírito que fortalece as sonolências da nossa vida. A recomendação de S. Paulo é, antes, para vivermos sempre na luz de Cristo, longe das trevas da noite que nos consomem e nos tornam incapazes de procurar as coisas justas e retas. É na luz de Cristo que veremos a luz e seremos capazes de edificar a nossa vida na rocha firme que é a Palavra de Deus.

 

A vinda do Senhor e a nossa reunião com Ele

Em 2Ts 2, 1-13 encontramos uma perícope, de não fácil interpretação, devido à sua linguagem apocalítica, mas que consiste numa passagem de fundamental importância para compreender a temática que aqui estamos a refletir.

Nos v. 1-5, Paulo retifica a ansiedade da espera dos Tessalonicenses, ou seja, a parusia não está iminente. Adverte, pois para o aparecimento da apostasia e do homem ímpio. O homem da impiedade ainda não está revelado; já age, mas alguém o retém (v. 6-8). Assim sendo, o Apóstolo convida os Tessalonicenses a não se deixarem lograr pelas falsas interpretações acerca da vinda do Senhor.

A partir das duas Cartas de Paulo, é evidente a admonição na primeira, da vinda eminente do Senhor em atitude de vigilância e, na segunda, uma espécie de tardança desta mesma vinda, através do apaziguamento da impaciência da comunidade de Tessalónica. O único dado que Paulo dá como garantido é que a vinda do Senhor acontecerá de uma forma adventícia e inesperada. A parusia implica o estado permanente de vigilância, mas é necessário atribuir uma justa compreensão da escatologia e uma esclarecida atitude entre espera e a impaciência. Paulo demonstra convicção no que concerne à luz que os acontecimentos escatológicos lançam sobre o tempo da Igreja. Dessa forma, os cristãos são convidados a assumirem atitudes concretas durante o tempo de espera, uma vez que nestes acontecimentos escatológicos estão presentes elementos que estruturam a educação para viver o tempo de expectativa. Daí que a exortação de Paulo perspetiva o futuro, sempre com os pés alicerçados no presente.

Para compreender a parusia, o Apóstolo convida a comunidade a ganhar consciência do “mistério da iniquidade” que já está em ação, mas ainda não atingiu o ápice da sua manifestação. No v. 3, Paulo adverte que «deve vir primeiro a apostasia, e aparecer o homem ímpio, o filho da perdição, que se levanta contra tudo que chama Deus…». Ora, a apostasia aparece como tudo aquilo que é contrário ao caminho de Deus. Trata-se de uma rebelião consciente, da recusa da verdade, no consentimento da mentira e da injustiça (Cf. 2Ts 2, 10-12). O homem iníquo que nos apresenta Paulo é a realização-limite do pecado, a malvadez sem máscara e plenamente consciente. Existe aqui um paradoxo: enquanto em Cristo confrontamo-nos com um Deus que se fez homem, no homem iníquo confrontamo-nos com um homem que quer fazer-se Deus. Se por um lado encontramos o amor, a humildade, o serviço, por outro encontramos o egoísmo, a soberba e domínio. Posto isto, todo o pecado caracteriza como a encarnação dessa impiedade. Mas nem todo o pecado tem o peso da impiedade do homem iníquo. No v. 7, o Apóstolo diz: «Pois o mistério da impiedade já age, só é necessário que seja afastado aquele que ainda o retém». O que dizer do impedimento desta manifestação? Não sabemos! Seja como for, vamos sempre confrontar-nos com uma obscuridade, uma complexidade que é de difícil interpretação.

Existe aqui uma drástica impugnação entre Deus e o mal, mesmo que a piedade e impiedade, o ódio e o amor apareçam, por vezes, amalgamados. No decorrer da história, constataremos sempre a sagacidade entre o bem e o mal onde, ocasionalmente o mal aparecerá com toda a sua pujança. Mas é exatamente no momento em que se mostrar robusto e perspicaz é que o mal demonstrará o seu falhanço, a sua ruína. O quadro apocalítico que Paulo perfilha, ensina que a história se desenvolve de modo a fazer resplandecer a graça de Deus. O Reino de Deus não é obra do impulso humano, mas desponta justamente naquele momento em que o mal aparece como triunfante. O que interessa na pregação de Paulo é que a nossa história é resgatada e assumida por Cristo. Não se trata de uma conquista humana ou da insubstituibilidade de Deus, mas é pura graça, clemência e mercê do Senhor da Vida e da História. O Apóstolo quer nos testemunhar que Deus carrega na palma das Suas Mãos a história da humanidade e, que inclusive, o próprio mal está subordinado à Sua onipotência. Por conseguinte, afirma Paulo em 2Ts 2, 8: «Então aparecerá o ímpio, aquele que o Senhor destruirá com o sopro da sua boca, e o suprimirá pela manifestação da sua Vinda».

Concluído este cenário apocalítico que é, concomitantemente, assustador e dulcificador, Paulo em 2 Ts 2, 13 retoma à oração: «Nós, porém, sempre agradecemos a Deus por vós, irmãos queridos do Senhor, porque Deus vos escolheu desde o princípio para serdes salvos mediante a santificação do Espírito e a fé na verdade». A oração de Paulo, após a descrição realística dos acontecimentos, transmite uma consoladora certeza que pede uma apurada robustez do espírito, de uma fé ardente e generosa, mantendo os ensinamentos «que vos ensinamos oralmente ou por escrito» (2 Ts 2, 15). É nesta rocha inquebrantável que Paulo nos exorta a ancorar a nossa vida para a vinda do Senhor Jesus. Finalmente, o Apóstolo conclui a sua admoestação com uma eterna consolação e boa esperança na e pela graça de Deus. Esta é a única certeza que levamos durante o tempo de espera (cf. 2 Ts 2, 16). É a esta esperança que nos devemos abandonar sem reservas, porque tudo o resto, na visão do Apóstolo Paulo, é completamente secundário.

Após percorrermos o caminho que Paulo faz com a Comunidade de Tessalónica, podemos concluir que ninguém conhece o tempo e a hora da vinda do Senhor, porém, sabe-se com segurança que a sua vinda será de forma imprevista. Se isto é verdade, é então preciso viver despertos e vigilantes. Esta advertência não é só de Paulo, mas de toda a tradição cristã: «Não vos pertence a vós saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou em seu poder» (At 1,6-7).

A vigilância significa a recusa de indagar-se sobre o como e sobre o quando. O futuro não está nas nossas mãos. Mas a vigilância também significa o estar despertos: o como e o quando não está nas nossas mãos, mas a vinda do Senhor é um facto certo que requer prontidão a atenção aos sinais dos tempos. A vinda do Senhor pode acontecer exatamente enquanto dizemos «paz e segurança». Pode tratar-se de juízos de valor desatentos, sem fundamento. Quer se trate da paz, quer se trate da segurança, elas estão sempre em risco: não se pode adormecer. Por isso, para Paulo, estar vigilantes significa também ser temperantes, sóbrios, e sobretudo, estarmos revestidos com as armas da fé, da esperança e da caridade. Vigilantes, mas não pessimistas ou cheios de medo. O julgamento é certo, mas existe também a certeza de que Cristo morreu por nós: e isto é consolador.

O cristão não deve viver apenas uma vida noturna, a qual é sinal de uma sonolência e de uma inconsciência que conduzem a uma vida vazia. Poderia haver aqui também alusão aos banquetes noturnos que eram moda entre os pagãos. O assunto é de profunda atualidade!

A conclusão é esta: que o cristão deve viver na luz, não nas trevas; estar vigilante e não adormecido, viver e procurar as coisas verdadeiras, justas e luminosas, não as coisas sonolentas e tenebrosas. O cristão deve viver uma vida luminosa, não uma vida noturna!


 

P. Me. Alexsander Baccarini Pinto
Imagem: howtogoto/Bigstock.com
Publicado em 17.12.2021

 

 
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