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No coração da vida simples

Passo a noite em casa de amigos. Após o jantar ainda ficamos à mesa. Paula, a mais velha, foi para o seu quarto. A sua irmã mais pequena, Madalena, continua à mesa connosco, enquanto que os seus pais e eu refazemos o mundo: um pouco melhor, é preciso dizê-lo. A Madalena está absorvida a colorir desenhos, dando vida a uma pálida “rainha das neves”. Toda a sua atenção está concentrada no desenho. Ao apanhar uma palavra da nossa conversa, de que ela, sem dúvida, não conhece o sentido, levanta a cabeça, pousa o seu lápis de cor, e, olhando-me, diz-me com um ao mesmo tempo surpreendido e sério: «Ah sim?»…

Esta pequena cena de vida comum fala-me intensamente neste Advento. Conduz-me àquela sublime palavra do Cântico dos Cânticos (5,2): «Durmo, mas o meu coração vigia»… Esta menina parecia “dormir” na sua tarefa de colorista, mas, de facto, vigiava. Trata-se de estar lá. Não de sonhar num mundo impossível. Não de escapar para o improvável. Não de procurar ganhar o Céu, não de chorar o passado, mas estar totalmente inteira no presente e ostentar toda a sua possibilidade.

Estar lá: aplicarmo-nos, como a pequena Madalena, a dar cores a este estranho tempo que passa. Dar cor às mil realidades da vida quotidiana: numa família, nos filhos a educar, na profissão, nas relações sociais que é bom manter. Estar lá, mesmo e sobretudo quando os tempos são duros por causa desta pandemia que não acaba de nos fazer medo. Está na hora de nos aplicarmos: «Se toda a vida tende para o seu fim, devemos, durante a nossa, colori-la com as nossas cores do amor e da esperança», dizia Chagall. Só a bondade terá a última palavra.

Aplicarmo-nos a dar cor à vida. Mas não na hibernação. Como a Madalena, trata-se de permanecer desperta e à escuta. E, ao mesmo tempo, guardar um espírito contemplativo. Descobrir na normalidade dos dias uma Vida que se oculta na vida. Ouvir, no fluxo de palavras que nos arrasta, algumas palavras simples e fundadoras, sem as quais não se consegue viver.

É algo como isto o mistério do Advento. Não o acolhimento de um Deus vindo do Céu que se propulsa na aventura humana, mas de um Deus «mais íntimo de nós que nós mesmos», que se revela no coração da nossa humanidade. Digamo-lo claramente: Deus não virá. Não se trata de o esperar. É Ele que nos espera. Porque Ele já está. No coração da vida simples.

Numa carta que escreveu a Louise Salonne, uma das suas amigas próximas, outra Madalena escreveu, em 1929: «Que a Luz sem a qual todas as luzes são minúsculas te seja dada. Que a Vida sem a qual a vida é dura, pequena, fragmentada, te dê a sua unidade e a sua simplicidade radiosa. E que o Amigo sem o qual toda a amizade é frágil, dependente, vacilante, se revele a ti e seja: a tua paisagem, o teu livro e a tua riqueza» (Madeleine Delbrêl). Ah sim?, dizia a Madalena. Sim, sim, minha pequena, sim… «Desperta em nós a inteligência do coração…»


 

P. Raphaël Buyse
In La Vie
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: famveldman/Bigstock.com
Publicado em 11.12.2020

 

 
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