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Nunca será demais repetir: No coração da vida do cristão está a fé, não a lei

Após o sinal da multiplicação-partilha dos pães, Jesus, recusando a aclamação mundana da parte da multidão que queria fazê-lo rei, porque Ele tinha obtido alimento, fugiu, solitariamente, para o monte, deixando os discípulos que procuravam regressar, de barco, à outra margem do mar, rumo a Cafarnaum. Mas era de noite, e uma violenta tempestade desencadeou-se no lago. Nessa situação de dificuldade, os discípulos vislumbram Jesus que caminha sobre as águas do lago, indo ao encontro deles, e são tomados pelo medo. Mas Ele diz: «Eu sou, não tenhais medo!», depois aporta com eles em terra firme e entra em Cafarnamum.

E então, «no dia seguinte», a multidão, que tinha comido o pão, vai em busca de Jesus, e encontra-o, depois de atravessar o lago de barco, e pede-lhe com respeito: «Mestre, quando é que vieste para aqui?» (João 6, 24-35). Jesus, todavia, conhecendo as motivações daquela busca, não responde à curiosidade da multidão, mas revela com autoridade o quanto é insuficiente, ambígua e desviante: «Ámen, ámen, Eu vos digo: vós procurais-me não porque vistes sinais, mas porque comestes daqueles pães e vos saciastes». Aquela busca faz de Jesus aquele que satisfaz as necessidades e humanas e preenche a ausência, mas desconhece a sua verdadeira identidade, aquela de quem veio não para dar um alimento que elimina a fome material, mas para dar aquilo que nutre para a vida eterna. Aqueles galileus tinham visto o prodígio mas não tinham lido o sinal, ou seja, aquilo que aquela ação de Jesus significava. Tinham experimentado a saciedade mas não tinham compreendido que aquele pão era o dom da vida de Jesus.



Esta verdade central deve ser, no entanto, compreendida bem: a fé não é um ato intelectual, gnóstico, mas é uma adesão vital a Jesus Cristo, é um estar no seu seguimento, envolvido com a sua própria vida. Desta maneira são varridas as contraposições intelectuais entre fé e ação-obras, entre contemplação e ação



Desvelada a atitude da multidão, Jesus profere na sinagoga de Cafarnaum um longo discurso, anunciando-lhe o tema nas suas primeiras palavras: «Trabalhai não pelo alimento que perece, mas pelo alimento que permanece para a vida eterna e que o Filho do homem vos dará. Estes, com efeito, o Pai, Deus, marcou com o seu selo». Jesus pede aos seus ouvintes um compromisso, revela o dom que Ele, Filho do homem, faz aos seres humanos, e manifesta-se como aquele sobre o qual o Pai colocou a sua bênção. É preciso, portanto, trabalhar para receber do Pai o pão de cada dia, alimento para o corpo destinado à morte; ao mesmo tempo, porém, Jesus exorta a desejar, ou seja, a trabalhar com igual intensidade e convicção em vista daquele alimento que só Ele pode dar, o alimento que dá a vida para sempre, a vida que permanece para além da morte.

Atenção: Jesus não despreza o alimento material, mas, sabendo que «nem só de pão vive o homem», exorta a trabalhar com convicção e intensidade em vista daquele alimento que dá a vida para sempre.

Mas mesmo perante esta revelação da sua identidade, aqueles galileus não compreendem, e por isso perguntam a Jesus: «Que fazer? Que devemos fazer para realizar a vontade de Deus? Que ordem cumprir?». Jesus, em resposta, revela a obra, o agir por excelência, que apesar de parecer uma não ação, algo a que segundo o sentir humano falta concretude: a ação das ações, a ação por excelência que Deus quer e pede é acreditar, aderir àquilo que Ele mandou. A única obra é a fé, diz Jesus. É obra de Deus porque permite a Deus trabalhar no ser humano, na História, na vida daquele que acredita. Sim, está aqui a diferença cristã: no coração da vida do crente não está a lei, mas a fé. Nunca se repetirá isto em demasia, e não nos esqueçamos que o primeiro nome dado aos discípulos de Jesus no Novo Testamento após a ressurreição foi precisamente «os crentes» (Atos 2, 44; 4, 32). A fé faz os cristãos, plasma os cristãos, salva os cristãos.

Esta verdade central deve ser, no entanto, compreendida bem: a fé não é um ato intelectual, gnóstico, mas é uma adesão vital a Jesus Cristo, é um estar no seu seguimento, envolvido com a sua própria vida. Desta maneira são varridas as contraposições intelectuais entre fé e ação-obras, entre contemplação e ação.

A obra do cristão é acreditar, é acolher o dom da fé para fazer dela a sua responsabilidade, a sua obra, a sua luta, a sua salvaguarda. Só assim se reconhece o primado à graça, ao amor gratuito e sempre preveniente do Senhor, que é um dom a acolher com espírito de admiração e de agradecimento, enquanto capaz de gerar na profundidade do coração responsabilidade e desejo de responder ao dom, ou melhor, ao Doador. Acreditar em Jesus Cristo, o enviado de Deus ao mundo, significa estar onde Ele está, partilhando com Ele a própria vida, «onde quer que Ele vá», radicalmente e até ao fim.



Quem pode dizer que é capaz de compreender e sustentar estas palavras? Em todo o caso, talvez o Senhor nos peça somente que tentemos acolher estas palavras; e fazê-lo sabendo que o seu dom, a sua graça, nos permite torná-las palavras acolhidas por cada um de nós de maneira pessoalíssima, ou seja, como somente o Senhor pode fazê-las conhecer e compreender



Mas aquela multidão revela a sua identidade: para acreditar quer um sinal. Tinham visto o sinal da multiplicação-partilha dos pães, mas a partir do momento em que isso não tinha resultado naquilo que eles queriam, na proclamação de Jesus como rei e messias mundano, agora exigem outro, como aquele feito por Moisés através do dom do maná. Desta forma, mostram que não são sequer capazes de ler a Torá, porque nela – explica-lhes Jesus - «não foi Moisés que deu o pão do Céu, mas o Pai dá o pão do Céu, o verdadeiro, ou seja, aquele que desce do Céu e dá a vida ao mundo». E assim Jesus revela que se sente chamado não a dar alguma coisa, mas a dar-se totalmente a si próprio. Então pedem a Jesus para lhes dar esse pão, e dá-lo para sempre. E Ele responde-lhes com a revelação inaudita: «Eu sou o pão da vida». Por isso, o pão para a vida eterna não é um simples dom da parte de Jesus, mas é o próprio Jesus, que dá toda a sua pessoa.

O que significa esta linguagem, que arrisca ser compreendida por nós de maneira abstrata? Significa que Jesus é alimento, e nesta primeira parte do seu longo discurso Ele apresenta-se como alimento enquanto Palavra, Palavra do Pai, Palavra feita carne, Palavra descida do Céu, Palavra enviada por Deus aos humanos. A Palavra de Deus foi sempre lida no Antigo Testamento como alimento, pão que dá a vida à humanidade; mas agora esta Palavra, dita muitas vezes e de diversos modos nos tempos antigos aos seres humanos através de Moisés e dos profetas, é um homem: é Palavra de Deus humanizada em Jesus de Nazaré. Neste sentido, Jesus entrega-se aos humanos como «pão da vida», pão que transporta a vida.

Esta linguagem é de tal maneira vertiginosa que não é possível comentar tais palavras de Jesus: só acolhendo-as em adoração. Jesus, um homem, um judeu marginal da Galileia, o filho de Maria e de José, proveniente de Nazaré, é na verdade a Palavra de Deus, e, enquanto tal, é alimento, pão para a nossa vida de crentes nele. Quem pode dizer que é capaz de compreender e sustentar estas palavras? Em todo o caso, talvez o Senhor nos peça somente que tentemos acolher estas palavras; e fazê-lo sabendo que o seu dom, a sua graça, nos permite torná-las palavras acolhidas por cada um de nós de maneira pessoalíssima, ou seja, como somente o Senhor pode fazê-las conhecer e compreender. Assim assimilamos o alimento para a vida eterna, segundo a promessa de Jesus: «Quem vem a mim não mais terá fome e quem acredita em mim não mais terá sede». Uma promessa paralela àquela feita por Jesus à mulher da Samaria: «Quem beber da água que Eu lhe der, não mais terá sede pela eternidade».


 

Enzo Bianchi
In Altrimenti
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Jesús Cervantes/Bigstock.com
Publicado em 28.07.2021

 

 
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