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Natureza e cultura

Ao fim de vários milhares de anos de reflexão sobre a ação humana e a sua relação com o mundo envolvente, seja este também humano ou seja não humano, muitas definições de «cultura» já foram cunhadas. Algumas destas definições restringem o sentido de «cultura» a formas especiais da ação humana, formas que, supostamente, deveriam identificar o que é próprio do ser-se humano. Na realidade, o que tais definições restritivas fazem é projetar sobre a realidade humana concreta construções de tipo teórico aparente, que mais não são do que manifestações de interesse de quem assim pode agir e age, determinando culturalmente o que se pode entender por «cultura». São etnocêntricas.

Esta projeção aproveita sempre a quem quer definir-se a si próprio como modelo de verdadeira humanidade. Estamos, assim, situados no domínio da tirania, quando quem impõe o modelo projetado é apenas um ser humano; ou, então, estamos situados no campo da oligarquia, quando quem projeta a definição de cultura é um pequeno grupo de seres humanos.

No entanto, estas duas formas de projeção, que têm como finalidade o domínio dos demais seres humanos através da definição do que constitui a humanidade como «ato cultural», como «cultura», não esgotam as possibilidades: uma definição projetiva do que seja «cultura» operada por uma maioria, mesmo que proximamente universal, deixando de parte um setor ou setores da humanidade, não deixa, apenas por ser maioritária, de funcionar ao modo quer da tirania quer da oligarquia. Uma suposta democracia que referende um qualquer modelo cultural como sendo «a cultura», excluindo, através dessa definição e imposição como modelo, partes da humanidade, labora ao modo do tirano ou dos oligarcas, com eles coincidindo.



A cultura é de tal modo fundamental em termos humanos que é por ela, através dela, que a humanidade é, mas pode ser também através dela que a humanidade não apenas assine teoricamente a sentença de morte para si própria como também a execute



Estes exemplos de possível definição de cultura de modo restritivo permitem perceber que a cultura é algo de tal modo importante para a definição do que é a humanidade e, na humanidade, do que é cada ser humano, que não deve a cultura – porque não pode, assim, coincidir com a realidade concreta do que procura definir – ser abordada de forma restritiva.

A cultura, como definição nocional ou conceptual, deve ser o mais próxima possível do que seja a sua realidade concreta, que é a única que existe. A esta realidade concreta acede-se através da experiência humana.

Ora, que se pode perceber acerca do que a cultura seja, a partir da experiência humana, que é a única a que temos acesso?

Aliás, a formulação anterior está errada, pois, não há algo como um qualquer «eu» anterior à experiência humana propriamente dita, em ato: na realidade, o que somos como propriamente humanos, sempre, coincide com o que é a nossa própria experiência. Em termos propriamente humanos, nada mais há para lá de tal experiência. Uma breve reflexão atenta ao que é esta mesma experiência que, a cada instante, nos constitui, basta para que se intua o que aqui está a ser afirmado.



Mesmo o que, em termos religiosos, se refere como absoluto para lá do humano, é em ato cultural humano que é intuído: sem que fosse um ato cultural, não haveria religião alguma, referência alguma a deus algum



Sendo assim, e sendo a acessibilidade ao sentido próprio da cultura algo que depende da comum experiência humana, como não perceber que, a cada experiência humana, corresponde um ato cultural, seja esta experiência de que tipo seja?

Quando cada ser humano passa, da forma mais comum, de um estado em que, para si próprio, não existe, por exemplo, de um sono sem qualquer formação de sentido – vulgar «consciência», se se quiser – para o estado vígil, por mais frustre que este seja, está-se imediatamente em ato de experiência, em ato de constituição da pessoa como sentido, como que nascendo ou renascendo esta a partir de um nada relativo, e relativo apenas porque, nesta mesma vigilância, surge também a memória, que manifesta no ato presente algo que em tal presente não se esgota, apontando para isso a que se chama o passado pessoal.

Todavia tal ocorre como experiência propriamente pessoal apenas se a memória surgir neste estado de vigilância; se nem sequer surgir a memória, não há pessoa, não há como relatar o que essa experiência seja: ninguém, nem o próprio, sabe em que consiste tal experiência, pois mesmo o próprio não consegue dar sentido ao que surge em tal experiência pois, para isso, necessita da memória, então ausente.

A questão põe-se sobre se sequer se pode falar em «experiência» num caso como este. De facto, que é uma experiência senão um ato em que há uma relação biunívoca entre a pessoa que é sujeito de tal experiência, como lugar lógico – é o papel da memória – em que tal experiência ocorre, e esta mesma experiência como ato que constitui, apenas por existir, tal mesma pessoa?



À medida que a humanidade se foi expandindo junto e no seio do que anteriormente era natureza foi transformando toda a realidade do mundo em realidade cultural



Não há pessoa sem experiência e não há experiência sem pessoa. Apenas a pessoa «tem» experiência, porque a pessoa é experiência; ou não é coisa alguma.

Quando se fala de «experiência» noutros seres, está-se apenas a projetar sobre eles isso que é a experiência humana: este mecanismo projetivo – muito comum em várias áreas do pensamento humano – é tão válido para insetos como para deuses. Posso falar projectivamente da “experiência” da mosca da fruta ou de «Deus»; de facto, sei tanto de uma como de outra em termos epistemologicamente válidos; apenas sei o que acabei de projetar sobre a mosca da fruta ou «Deus». De notar que este é um erro muito comum em atividade científica, que arruína a ciência como construção que deveria ser mesmo racional.

Não é, assim, possível distinguir cientificamente entre o que é a «experiência humana» e o que é a própria humanidade, sem mais. Tudo o que se possa dizer fora deste paradigma epistemológico mais não é do que mais uma qualquer forma de projeção, que, ironicamente, constitui mais uma forma de experiência humana, o que acaba por provar a tese contrária, isto é, que tudo o que é propriamente humano coincide com a experiência humana.

Que tem tudo isto com a cultura?

Tudo.



Se a cultura não é coisa alguma sem a humanidade, a humanidade também não é coisa alguma sem a cultura. Deste ponto de vista, o ser humano é um absoluto para si próprio, mas é este absoluto apenas na e pela cultura. Sem cultura, o absoluto do ser humano passa imediatamente a absoluto de nada



Depois de que ficou anteriormente estabelecido, percebe-se que a cultura é quer o resultado de toda a ação humana, que coincide com a sua mesma experiência, quer esta mesma ação e experiência.

Uma forma de se perceber tal coincidência consiste em funcionar, como se costuma dizer, pela negativa, que, neste caso, seria mais correto designar como «por absurdo». Então, por absurdo, procure imaginar-se o que seria a «cultura» sem qualquer ação humana. Quando se diz «sem qualquer ação humana» quer dizer-se exatamente o que o enunciado diz: nunca houve qualquer ação humana.

Que resta? De notar que esta questão só pode ser posta porque há uma qualquer forma de ação humana, com uma real imensidão de pressupostos, que a põe. Que, resta, então?

Resta, melhor, «restaria» aquilo a que comummente se designa como «natureza», em sentido estrito e por contraposição com isso a que se chama «natureza humana», designação que aqui, neste contexto, porque não a podemos discutir, não assumimos. Resta, em contexto religioso, o próprio Deus, para quem a pessoa não divina é uma estrutura metafísica de possibilidade, sendo as Pessoas Divinas as únicas reais, metafisicamente, mas também em sua «experiência» própria, que inclui a pericorese.



Ninguém encontra a natureza num «parque natural – ou temático» ou num jardim zoológico, por melhor que estes sejam. São ambos factos, atos culturais. São atos culturais porque são fruto da ação humana: não há jardins zoológicos na natureza



Assim sendo, isso que é a cultura define-se necessariamente por justaposição – não é «contraposição», a menos que a cultura o queira, razão, por exemplo, de toda a problemática negativa em termos ecológicos – com «natureza», assumindo esta como tudo o que é, em e por si mesmo, independente da ação humana.

Que quer isto dizer, esta independência da ação humana?

Um exemplo retirado da forma aburguesada como vamos vivendo basta para se compreender o que está em causa: em muitos atos de marketing sobre viagens é dito que se pode viajar até ao parque temático X, onde se poderá usufruir da natureza. Ora, nada mais errado: se se trata de um parque temático, por mais floral que seja, sendo necessariamente produto humano, não é algo de natural.

Ninguém encontra a natureza num «parque natural – ou temático» ou num jardim zoológico, por melhor que estes sejam. São ambos factos, atos culturais. São atos culturais porque são fruto da ação humana: não há jardins zoológicos na natureza.

Nos dias que correm, salvo em situações geográficas ou geológicas muito remotas, já não há verdadeiramente algo a que se possa cientificamente denominar como natureza. Mesmo nesses eventuais sítios, é difícil pensar-se que não haja umas quaisquer moléculas de água ou de ar contaminadas pela irradiação nuclear causada pela muito cultural experimentação de armas nucleares ou por fugas radioativas de origem humana, também algo de muito cultural.



O tirano só pode ser tirano exatamente porque não percebe que partilha culturalmente o que é com toda a restante humanidade, na forma concreta dos atos culturais que todos põem como construção do mundo humano. É esta construção que o tirano destrói



De nada serve dizer que muitos cientistas consideram que, mesmo assim, isso é natureza: tais cientistas ou são desonestos ou ignorantes.

A cultura corresponde, assim; coincide, assim, com a totalidade da ação humana quer como ato em decorrência – que é o que cria a cultura – quer como resultado deste mesmo ato.

À medida que a humanidade se foi expandindo junto e no seio do que anteriormente era natureza foi transformando toda a realidade do mundo em realidade cultural.

A cultura é de tal modo fundamental em termos humanos que é por ela, através dela, que a humanidade é, mas pode ser também através dela que a humanidade não apenas assine teoricamente a sentença de morte para si própria como também a execute.

Se a cultura não é coisa alguma sem a humanidade, a humanidade também não é coisa alguma sem a cultura.

Deste ponto de vista, o ser humano é um absoluto para si próprio, mas é este absoluto apenas na e pela cultura. Sem cultura, o absoluto do ser humano passa imediatamente a absoluto de nada.

Mesmo o que, em termos religiosos, se refere como absoluto para lá do humano, é em ato cultural humano que é intuído: sem que fosse um ato cultural, não haveria religião alguma, referência alguma a deus algum.

Basta o que ficou estabelecido para que se perceba a importância absoluta da cultura em termos humanos. Sem se perceber isto, não se percebe coisa alguma em termos de possibilidade da ação humana e não há ação verdadeiramente humana que não tenha de ter tal em consideração. Note-se que o tirano só pode ser tirano exatamente porque não percebe que partilha culturalmente o que é com toda a restante humanidade, na forma concreta dos atos culturais que todos põem como construção do mundo humano.

É esta construção que o tirano destrói. É esta construção que exige a comum cura, o comum cuidado humano, ato cultural, único, que pode, humanamente, tornar perene a própria humanidade como ato cultural.


 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade das Ciências Humanas
Imagem: Art-World/Bigstock.com
Publicado em 15.07.2019

 

 
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