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Não podemos permitir que os algoritmos neguem a compaixão e a esperança; e cuidado com a meritocracia, alerta papa

Estou convicto de que o diálogo entre crentes e não crentes sobre questões fundamentais da ética, da ciência e da arte, e sobre a busca do significado da vida, é um caminho para a construção da paz e para o desenvolvimento humano integral.

A tecnologia é de grande ajuda para a humanidade. Pensemos nos incontáveis progressos nos campos da medicina, da engenharia e das comunicações. E ao reconhecermos os benefícios da ciência e da técnica, vemos neles uma prova da criatividade do ser humano e também da nobreza da sua vocação a participar responsavelmente na ação criativa de Deus.

Nesta perspetiva, considero que o desenvolvimento da inteligência artificial e da aprendizagem automática tem o potencial para dar um contribuo benéfico ao futuro da humanidade, não o podemos descartar. Estou certo, todavia, que este potencial só se realizará se houver uma vontade coerente da parte daqueles que desenvolvem as tecnologias para agir de maneira ética e responsável.

Neste sentido, é reconfortante o empenho de muitos que trabalham nestes campos para garantir que a tecnologia se centre no ser humano, fundada em bases éticas na projeção e finalizada para o bem. Alegra-me que tenha emergido um consenso para que os processos de desenvolvimento respeitem valores como a inclusão, a transparência, a segurança, a equidade, a confidencialidade e a confiabilidade. Também acolho favoravelmente os esforços das organizações internacionais para regulamentar estas tecnologias, a fim de que promovam um progresso autêntico, ou seja, contribuam a deixar um mundo melhor e uma qualidade de vida integralmente superior. (…)



As nossas instituições nacionais e internacionais têm a capacidade de considerar as empresas tecnológicas responsáveis pelo impacto social e cultural dos seus produtos?



O valor fundamental que devemos reconhecer e promover é o da dignidade da pessoa humana. Convido-vos, portanto, nas vossas deliberações, a fazer da dignidade intrínseca de cada homem e de cada mulher o critério-chave na avaliação das tecnologias emergentes, as quais revelam a sua positividade ética na medida em que ajudam a manifestar essa dignidade e a incrementar a expressão, a todos os níveis, da vida humana.

Preocupa-me o facto de que os dados recolhidos até agora pareçam sugerir que as tecnologias digitais tenham servido para aumentar as desigualdades no mundo. Não só as diferenças de riqueza material, que também são importantes, mas também as de acesso à influência política e social. Interroguemo-nos: as nossas instituições nacionais e internacionais têm a capacidade de considerar as empresas tecnológicas responsáveis pelo impacto social e cultural dos seus produtos? Há o risco de o aumento da desigualdade poder comprometer o nosso sentido de solidariedade humana e social? Poderemos perder o nosso sentido de destino partilhado? Na realidade, a nossa meta é que o crescimento da inovação científica e tecnológica seja acompanhado por uma maior igualdade e inclusão social.

Este problema da desigualdade pode ser agravado por uma falsa conceção da meritocracia que mina a noção de dignidade humana. O reconhecimento e a recompensa do mérito e do esforço humano têm um fundamento, mas há o risco de conceber a vantagem económica de poucos como fruto de ganho ou merecimento, enquanto a pobreza de muitos é vista, em certo sentido, como culpa deles.

Esta perspetiva subvaloriza as desigualdades de partida entre as pessoas em termos de riqueza, oportunidades educativas e laços sociais, e trata o privilégio e a vantagem como conquistas pessoais. Consequentemente – em termos esquemáticos – se a pobreza é culpa dos pobres, os ricos são exonerados de fazer o que quer que seja.



A ausência de diversidade é ausência de riqueza, porque a diversidade impõe-nos aprender juntos uns dos outros e redescobrir com humildade o sentido autêntico e o alcance da nossa dignidade humana



O conceito de dignidade humana – é este o centro – impõe-nos reconhecer e respeitar o facto de o valor fundamental de uma pessoa não poder ser medido por um conjunto de dados. Nos processos de decisão social e económica, devemos ser cautelosos ao confiar os juízos a algoritmos que elaboram dados recolhidos, muitas vezes de maneira sub-reptícia, sobre indivíduos e sobre as suas características e sobre os seus comportamentos passados. Esses dados podem estar contaminados por prejuízos e preconceitos sociais. Tanto mais que o comportamento passado de um indivíduo não deveria ser usado para negar-lhe a oportunidade de mudar, de crescer e de contribuir para a sociedade. Não podemos permitir que os algoritmos limitem ou condicionem o respeito da dignidade humana, nem que excluam a compaixão, a misericórdia, o perdão e, sobretudo, a abertura à esperança de uma mudança da pessoa.

Caros amigos, concluo reiterando a convicção de que apenas formas de diálogo verdadeiramente inclusivas podem permitir discernir com sabedoria como colocar a inteligência artificial e as tecnologias digitais ao serviço da família humana.

A história bíblica da Torre de Babel (cf. Génesis 11) foi muitas vezes utilizada para advertir para ambições excessivas da ciência e da tecnologia. Na realidade, a Escritura adverte-nos para o orgulho de querer «tocar o céu», isto é, agarrar e apoderar-se do horizonte de valores que identifica e garante a nossa dignidade humana. E sempre, quando isto acontece, acaba-se numa grave injustiça na própria sociedade.

No mito da Torre de Babel, fazer um tijolo é difícil: fazer o barro, a palha, amassar, depois cozer… Quando um tijolo caía era uma grande perda, lamentavam-se muito: «Perdemos um tijolo». Se caía um operário, ninguém dizia nada. Isto deve fazer-nos pensar: o que é mais importante? O tijolo ou o homem ou a mulher que trabalha? Esta é uma distinção que nos deve fazer pensar.

E após a Torre de Babel, a consequente criação de línguas diferentes torna-se, como cada intervenção de Deus, uma nova possibilidade. Ela convida-nos a considerar a diferença e a diversidade como uma riqueza, porque a uniformidade não deixa crescer, a uniformidade imposta. Apenas uma certa uniformidade funciona – pode dar-se –, mas a imposta não serve.

A ausência de diversidade é ausência de riqueza, porque a diversidade impõe-nos aprender juntos uns dos outros e redescobrir com humildade o sentido autêntico e o alcance da nossa dignidade humana. Não esqueçamos que as diferenças estimulam a criatividade, criam tensão, e na resolução de uma tensão consiste o progresso da humanidade, quando as tensões se resolvem num plano superior, que não aniquila os polos em tensão, mas fá-los amadurecer.


 

Papa Francisco
Excertos do discurso aos participantes no encontro “Minerva Dialogues”, Vaticano, 27.03.2023
In Sala de Imprensa da Santa Sé
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Imagem: Arthead/Bigstock.com
Publicado em 27.03.2023

 

 
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