Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

“Não olhem para cima”: Talvez um espelho

Não me recordo que, nestes anos, se tenha falado tanto de uma obra cinematográfica como do recentíssimo “Don’t look up”, do realizador Adam McKay, considerado por muitos “o filme do ano”. É significativo que tenha sido gravado e estreado (em sala, em Portugal, a 8 de dezembro) no meio de uma pandemia, na qual pareceria que haveria muito mais em que pensar.

Pode já ser interessante perguntar sobre o porquê deste curioso fenómeno cultural. Mas, dado que a cultura é o espelho da nossa realidade humana, ainda mais importante é tentar olharmo-nos neste espelho. Sem falar do final, que deixo à descoberta de quem ainda não viu o filme, recordo, com brevidade, a trama.

Uma jovem doutoranda, Kate Dibiasky (Jennifer Lawrence), que trabalha num observatório astronómico no Mighigan com o professor Randall Mundy (Leonardo Di Caprio), descobre no telescópio um cometa que, segundo os cálculos, se dirige para a Terra, e em cerca de seis meses atingi-la-á, causando a destruição de toda a humanidade. Os dois cientistas precipitam-se a dar a notícia às autoridades. Mas, quando, finalmente são recebidos na Casa Branca, a presidente, Janie Orlean (Meryl Streep), despacha-os à pressa, absorvida por um escândalo sexual que a envolve e das suas consequências sobre eleições próximas.



Falta em várias interpretações sobre o filme a referência à experiência fundamental sobre a qual o filme se joga, que é a descoberta da iminência da morte e a reação perante ela



Mundy e Kate, então, para avisar o mundo, apostam nos meios de comunicação, participando num programa televisivo de entretenimento de grande audiência, no qual os apresentadores e o público se mostram, no entanto, muito mais interessados no turbilhão sentimental de uma conhecida cantora e de um “disk jockey”. Entretanto, a presidente, para distrair a opinião pública do seu escândalo privado, tem a ideia de relanças e publicitar a notícia. É elaborado um projeto para desviar o cometa, atingindo-o com uma frota de mísseis nucleares.

A operação, contudo, é anulada no último minuto, quando o empresário Peter Isherwell (Mark Rylance) – milionário fundador e administrador de uma empresa de alta tecnologia e entre os maiores financiadores da presidente – descobre que o núcleo do cometa é riquíssimo de materiais raros e preciosos. Daqui a sua proposta, logo aceite por Orlean, de seguir outra estratégia, despedaçando o corpo celeste e fazendo cair os fragmentos sobre a Terra, para os explorar. A perplexidade do professor Mundy e dos outros cientistas é ignorada e as objeções imediatamente caladas.

A opinião pública divide-se entre os negacionistas, que consideram o cometa uma invenção do poder, os utilitaristas, que olham com esperança para as vantagens económicas perspetivadas por Isherwell, e os políticos, como a presidente e os seus assessores, a quem interessam apenas os efeitos mediáticos e eleitorais da operação. Neste frenético turbilhão de reações, ninguém parece preocupar-se com o iminente perigo mortal. Prefere-se não pensar. Fazem-se negócios, entrelaçam-se relações sexuais, fazem-se projetos, como se nada fosse. O cometa fica cada vez mais próximo, ao ponto de ser visível, belíssimo e tremendo, a olho nu, mas o “slogan” é «don’t look up», não olhem para cima.



Se “Não olhem para cima” fosse apenas uma crítica à sociedade americana, à política, à economia capitalista, ao estilo dos meios de comunicação, teriam razões os críticos – pelo menos tão numerosos quanto os admiradores – que sublinham a ausência de originalidade e o carácter genérico de uma denúncia que hoje foi demasiadas vezes feita pelo cinema



Fico por aqui. De resto, esta rápida síntese é suficiente para dar uma ideia do conteúdo do filme e procurar responder às perguntas de que partimos: porque existe tanta ressonância? E em que sentido pode espelhar a nossa situação atual?

 

Interpretações variadas

As interpretações dadas ao filme são diversas. «Uma comédia do absurdo para falar de pandemia e de alterações climáticas». Segundo esta leitura, «McKay constrói uma comédia do absurdo sob a marca do humor negro para sublinhar a fragilidade do governo americano em situações de emergência”, colocando na berlinda «quem sempre negou a existência do Covid durante espa pandemia, ou quem ignora o desastre das alterações climáticas em curso».

«“Don’t look up”, o anticapitalismo que desperta as consciências» é o título de outra recensão, na qual se argumenta que «o inimigo no filme é um: o capitalismo», em particular por causa das suas responsabilidades na crise ambiental e climática. Uma leitura que tem amplo espaço em muitos outros comentários, segundo os quais o verdadeiro objetivo do realizador é a denúncia desta crise.

«Um filme que enfrenta o negacionismo da ciência» é o título de outra apreciação, de acordo com a qual o objetivo da sátira corrosiva da obra seria, segundo o próprio Leonardo Di Caprio, uma crítica à maneira como demasiadas vezes são rejeitados os resultados científicos e os cientistas que os descobrem. Outros viram no filme a dificuldade dos cientistas em encontrar uma linguagem verdadeira comunicativa, fracassando no propósito de sensibilizar o público.



Blaise Pascal individuou no “divertimento” a reação dos seres humanos diante do problema da morte. «O homem quer ser feliz (…). Para ser bem sucedido deveria tornar-se imortal; mas dado que não o pode, decidiu não pensar nela»



Estas leituras têm todas, sem dúvida, um certo fundamento e devem ser consideradas numa perspetiva de conjunto. Em particular aquelas que fazem referência ao negacionismo e à relação da opinião pública com a ciência intercetam seguramente problemas atualíssimos no tempo da pandemia.

Falta, todavia, nestas interpretações, a referência à experiência fundamental sobre a qual o filme se joga, que é a descoberta da iminência da morte e a reação perante ela. De resto, se “Não olhem para cima” fosse apenas uma crítica à sociedade americana, à política, à economia capitalista, ao estilo dos meios de comunicação, teriam razões os críticos – pelo menos tão numerosos quanto os admiradores – que sublinham a ausência de originalidade e o carácter genérico de uma denúncia que hoje foi demasiadas vezes feita pelo cinema. Para não falar que um filme pelo qual os dois atores protagonistas receberam 30 (Di Caprio) e 25 (Lawrence) milhões de dólares teria bem pouca credibilidade como crítica social.

 

A fuga do pensamento da morte

A questão é que talvez o realizador – conscientemente ou inconscientemente (as obras contêm, muitas vezes, mais do que os seus criadores pretendiam dizer) – tenha colocado em evidência precisamente a relatividade de todo este conjunto de fatores particulares da vida, acentuando-lhes a futilidade diante da perspetiva de um fim que os arrastará inexoravelmente para o nada. E é precisamente esta relatividade que os personagens do filme – políticos, apresentadores televisivos, financeiros, homens e mulheres comuns – não querem ver.

Por isso negam a iminência da catástrofe, ou minimizam-lhe os efeitos, ou procuram fazê-la reentrar nos seus esquemas, calculando-lhe as possíveis vantagens estratégicas ou económicas. Por isso procuram entontecer-se com o sexo ou com a droga, ou simplesmente dedicando-se aos seus pequenos problemas quotidianos. No navio que afunda, preferem concentrar-se na manutenção dos serviços de bordo. O sentido do filme não é tanto uma crítica da sociedade, quanto uma reflexão existencial. Desviar o olhar do cometa, ter o olhar bem fixo nas “coisas da vida”, deixando-se absorver pelas rotinas diárias como se não houvesse morte, é a condição para escapar ao não-sentido da “vida” que se precipita no nada. Para exorcizar o medo.



É precisamente ao levantar os olhos que se poderia descobrir que a nossa finitude, finalmente compreendida e aceite, abre o espaço a Algo ou Alguém que a supera. Quem viu o filme sabe que esta perspetiva está presente no final



Talvez isto possa explicar porque, num tempo como o nosso, onde a crise climática, mas sobretudo a pandemia, ameaçam a sobrevivência de todos e de cada um, o filme tenha sido percecionado na sua extrema atualidade. Na verdade, o problema não se coloca apenas hoje. Há alguns séculos, um pensador muito penetrante, Blaise Pascal, tinha individuado no “divertimento” (do latim de-vertere, dirigir para outro lado a atenção) a reação dos seres humanos diante do problema da morte. «O homem quer ser feliz (…). Para ser bem sucedido deveria tornar-se imortal; mas dado que não o pode, decidiu não pensar nela».

Vem daqui, diz Pascal, a corrida frenética na qual – já naquele tempo! – as pessoas se esforçam por exorcizar a única certeza da sua vida, isto é, que vão morrer. «Assim se explica porque são tao procurados o jogo, a conversa das mulheres, a guerra, os grandes cargos. Não que nestas coisas exista efetivamente felicidade, nem que se pense que a verdadeira bem-aventurança consiste em possuir o dinheiro que se pode ganhar no jogo, ou em perseguir uma lebre; estas coisas, se nos fossem oferecidas, não as quereríamos».

O nosso problema é fugir ao pensamento da morte: «Nós», escreve o filósofo francês, «não procuramos nem o prazer (…), nem os perigos da guerra, nem as preocupações dos encargos, mas procuramos precisamente o tumulto que nos desvia do pensar e nos distrai». Os personagens do filme de McKay estão todos à caça de algo que os distraia do cometa, seja ela a metáfora do desastre ecológico ou, mais imediatamente, da pandemia. Não querem levantar o olhar “para cima”, para além dos pequenos problemas e dos pequenos interesses do seu quotidiano, porque isso os deixaria expostos ao medo da orte.

E talvez seja também um indício desta “fuga” o facto de a grande maioria dos comentários a “Don’t look up” se ter concentrado na sua denúncia do mau serviço a bordo do navio, e não tenha salientado o essencial da mensagem, isto é, que o navio estava a afundar. Porém, é precisamente ao levantar os olhos que se poderia descobrir que a nossa finitude, finalmente compreendida e aceite, abre o espaço a Algo ou Alguém que a supera. Quem viu o filme sabe que esta perspetiva está presente no final. E que é precisamente dela que pode brotar uma mais autêntica relação entre as pessoas. É um frágil, mas autêntico, sinal de esperança para quem é capaz de erguer o olhar.









 

Giuseppe Savagnone
Responsável pela página da Pastoral da Cultura da Arquidiocese de Palermo, Itália
In Tuttavia
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "Não olhem para cima" | D.R.
Publicado em 25.02.2022

 

 
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Mais Cultura
Vídeos