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Nada mais do que a paz

Por que razão um ser humano, qualquer, violenta outro, senão para roubar – furto violento – ao outro bens que propriamente pertencem a este último? Este «porque», «porquê», etiológico, não se basta a si próprio, antes depende de um «para quê», já não etiológico, mas teleológico. A razão do roubo é devida a uma finalidade. Esta finalidade, por sua vez, serve como culminar de uma possibilidade. Esta possibilidade corresponde ao preenchimento de uma qualquer lacuna.

Um ser humano violenta outro ser humano porque quer servir através de tal ato uma finalidade, que, por sua vez, é o culminar de um processo de enriquecimento: violenta-se o outro para que o violentador fique com um bem que lhe não competia, mas de que pensa necessitar.

Este bem pode assumir qualquer forma de ser: pode ser um bem material, pode ser um bem tipicamente psicológico – ilusório para lá da mera dimensão psicológica –, pode ser um bem tipicamente social, pode ser um bem espiritual ou ilusoriamente espiritual. Seja qual for o seu modo de ser, o seu modo ontológico, este bem é algo que é pensado pelo agressor como a si necessário. O agressor é, assim, e sempre, um ser ontologicamente miserável no que diz respeito ao bem pelo que violenta o outro.



Como é evidente a partir da leitura do início do Génesis, até que o primeiro ato de violência tenha sido cometido – realizar o único interdito, relativamente a um infinito de não-interditos – não houvera mal algum. Terríveis mitos, que transmitem terríveis verdades sobre o que cada um de nós pode ser



Mesmo quando parece que tal ato serve para manifestar uma qualquer grandeza ontológica do agressor, o que exibe é apenas a necessidade de manifestar algo. Ora, para que se manifesta algo senão para que seja contemplado por esses a quem se manifesta, incluindo o próprio ou mesmo o seu ídolo-deus?

Alguém de verdadeiramente grandioso do ponto de vista ontológico não se manifesta de tal modo, simplesmente porque, logicamente, sendo assim propriamente grandioso, não necessita de manifestar seja o que for: o que é, como é, no que é, é já manifestação suficiente. A grandeza ontológica basta e basta-se. O sol não precisa de anúncios luminosos.

Nenhum ser ontologicamente grande necessita de cometer qualquer agressão. Apenas os miseráveis procedem de tal modo. A berrante violência ilude-os quanto à grandeza do que são.

O bem simplesmente põe-se e, nisso e por isso, impõe-se: contemple-se a grandeza do ato criador, seja o de Deus seja o de qualquer ente humano.



Todos os anos, na artificialidade científica da transição de ano, se verifica a ritual possibilidade de um recomeço antropológico, que permite todo um reformular ético e político de cada um e de todos os seres humanos



Como é evidente a partir da leitura do início do Génesis, até que o primeiro ato de violência tenha sido cometido – realizar o único interdito, relativamente a um infinito de não-interditos – não houvera mal algum. É a violência a introdutora do mal, como se pode ver, já de modo mais obsceno, na matança de Abel por Caim; Caim de quem somos descendentes, pois o cadáver de Abel não teve descendência.

Terríveis mitos, que transmitem terríveis verdades sobre o que cada um de nós pode ser. Note-se que não se escreveu «sobre o que cada um de nós é», pois não se determina coisa alguma com tais mitos, apenas se manifestam possibilidades ontológicas, conformadoras transcendentais da possibilidade ética e política do ser humano, de todos, sem exceção.

Ora, a ritualidade litúrgica, sagrada e profana, da mítica da transição de ano, veicula não tanto um modelo cosmológico, mítico ou científico, mas um modelo ontológico de possibilidade antropológica: todos os anos, na artificialidade científica da transição de ano, se verifica a ritual possibilidade de um recomeço antropológico, que permite todo um reformular ético e político de cada um e de todos os seres humanos.



Por que razão insisto em ser uma besta violenta? Por que razão insisto em ser um tirano, um parasita do bem próprio dos outros? Por que razão não me dedico a ser o bem que posso ser para mim mesmo e para os outros?



Degradado pela nossa ação violenta – mas também mantido pela nossa ação não-violenta –, o mundo recebe a possibilidade de reconstituição ontológica através da metamorfose da ação humana. Os “propósitos” para o ano-novo. De um modo geral, soam a falso, mesmo que o não sejam. É o peso histórico da violência que desmente antecipadamente a possibilidade de uma renovada ação posta em bem.

Ora, nada, senão a mesma maldade nossa de cada dia, impede que a finalidade de bem possa ser servida.

Por que razão insisto em ser uma besta violenta? Por que razão insisto em ser um tirano, um parasita do bem próprio dos outros?

Por que razão não me dedico a ser o bem que posso ser para mim mesmo e para os outros?

Condições? Más condições? Mas há algumas destas que não tenham origem precisamente na maldade humana?



A humanidade não é necessária e, sobretudo, não é uma condenação. Se merecer tal, fruto da violência dos seus componentes, desaparecerá. Uma pseudo-humanidade de Cains é algo de aberrante



Mesmo perante a mais vasta e negra e natural das fomes, pode-se sempre, tendo todos que morrer, agir com dignidade suficiente para que, precisamente, sem violência, todos morram com dignidade.

Ora, salvo tal situação-paradigma extrema, objetivamente justificada de modo natural, não havendo razão para a violência, que desculpas são aceitáveis? Nenhumas.

A violência é exclusivamente humana, porque o ser humano é o único que, sendo já por sua própria ação uma besta, poderia não o ter sido. Neste sentido, nenhum animal é uma besta. Reserva-se a bestialidade para os seres humanos violentos.

Possa 2022 ser um ano em que os seres humanos queiram ser dignos desta designação. A humanidade não é necessária e, sobretudo, não é uma condenação. Se merecer tal, fruto da violência dos seus componentes, desaparecerá. Uma pseudo-humanidade de Cains é algo de aberrante.

Um 2022 em que mereçamos existir, na esperança de um 2023.


 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Imagem: sewcream/Bigstock.com
Publicado em 17.02.2022

 

 
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