

O Anúncio dos Pastores
Levantai-vos, ó homens! Homens à volta da fogueira reunidos,
que conheceis os céus sem fim,
astrólogos, vinde até aqui! Olhai para mim,
sou uma nova estrela em ascensão. Todo o meu ser arde à sua maneira
e irradia tão fortemente e é tão prodigiosamente inteira
a sua luz, que o profundo firmamento
já me não basta. Deixai entrar como alento
o meu esplendor na vossa existência: oh, os olhares soturnos,
os corações soturnos, destinos nocturnos
que vos preenchem, Ó pastores, como é grande a minha solidão
em vós. E de súbito abre-se-me o espaço.
Não vos admireis: a grande árvore de pão
Projectou uma sombra. Sim, sou eu que o faço.
Ó intrépidos, fôsseis vós cientes
de como agora, nos vossos rostos em contemplação,
o futuro brilha! Muitas coisas diferentes
acontecerão a esta luz intensa. A vós o confio sem temor,
pois sois discretos; à vossa fé cheia de rectidão
tudo aqui fala. Fala a chuva e o calor,
o bando de sabes, o vento e a vossa verdade,
inflando. Não retendes no espaço interior
do peito as coisas da realidade
para as atormentar. Tal como o deleite maior
invade um Anjo, assim as coisas terrenas
penetram em vós. E se uma sarça apenas
se inflamasse de súbito podia o Eterno assim
do seu interior chamar-vos, e se todo o Querubim
perto dos vossos rebanhos se dignasse aproximar
não vos colheria de surpresa:
cairíeis de face por terra com certeza,
adoraríeis e a Terra haveríeis de nomear.
Porém tudo isto foi. Agora um novo ser
Fará o orbe terrestre com mais esforço se alargar.
Que é para nós uma sarça-ardente: Deus veio se acolher
Ao seio de uma Virgem. Eu sou a estrela a brilhar
Que o seu íntimo reflecte e vos há-de sempre acompanhar.
Consolação de Maria pelo Ressuscitado
O que ambos então experimentaram: não é o mais ameno
de todos os mistérios
e no entanto ainda terreno:
quando Ele, ainda um pouco pálido do sepulcro,
mais ligeiro, veio ao seu encontro:
ressuscitado por inteiro.
Oh, em primeiro lugar a ela! Como ali se encontravam,
Indizivelmente, curando-se.
Sim, curavam-se, era o que se passava. Não careciam
de um contacto mais forte.
Durante uma fracção de segundo
Ele pousou a Sua mão,
em breve eterna, no ombro feminino.
E começara,
silenciosamente, como as árvores na Primavera,
em conjunto, infinitamente,
a estação do ano
da sua máxima intimidade.