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Não há lugar para os crentes

Num artigo de 1993 sobre as metamorfoses contemporâneas da necessidade religiosa, o sociólogo francês Patrick Michel escreve que «a crise não é do crer, mas do crer juntos». Significa que as pessoas não deixaram de procurar alguma coisa em que acreditar, mas já não veem espaços instituídos em que seja possível encontra-la e dela fazer uma experiência partilhada.

As grandes e históricas instituições, sejam laicas ou religiosas, parecem em igual medida ter-se tornado lugares de práticas e retóricas incapazes de se renovar, e nos quais as pessoas têm dificuldade em sentir como suas. Amplificam-se, assim as dinâmicas do “faça-você-mesmoa”, onde aqueles aspirantes a crentes que são os seres humanos traçam itinerários cada vez mais personalizados, que preveem algumas vezes o abandono, a deserção, mas com muito mais frequência a seleção, a pertença condicionada, a autogestão e muitas outras táticas semelhantes. Já deixou de ser necessário investigar complicados estudos sobre a população para dar-se conta destes processos.

 

Na crise das instituições

Basta observar o que acontece também à nossa Igreja. Que a instituição está a viver momentos de não feliz reputação parece claro a todos. No entanto, as suas manifestas insuficiências não dizem tanto respeito aos “escândalos” com que repetidamente os seus espaços de poder regozijam os nossos noticiários, melhor que a Netflix, com os seus negros quotidianos. Sexo, dinheiro e poder são zonas de sombra fáceis de reconhecer, estigmatizar e, ao limite, para o crente, de perdoar.

O que se torna mais difícil de ver é a conclamada incapacidade do catolicismo instituído em ser lugar que permita à fé ter uma forma real. No presente, não num ideal atemporal. A impressão é que cresce cada vez mais o número de quantos que, para poder dar forma à sua fé, têm de pôr-se, se não fora, pelo menos às margens da Igreja, em qualquer circunscrito oásis de partilha personalizada. O quesito que cai sobre a Igreja de hoje é se ela ainda é um lugar para crentes (para crentes, não para aficionados das práticas religiosas).

Uma pergunta como esta, adequadamente calibrada segundo os respetivos domínios, poderia dizer respeito do mesmo modo a todas as Igrejas, partidos, à escola, sindicatos, até a ciência e todas aquelas instituições que diariamente têm de lidar com a crescente desafetação dos indivíduos que deveriam encontrar nelas formas compatíveis com as suas expetativas.

É preciso prestar homenagem ao papa Francisco, pelo menos no que se refere aos problemas da Igreja, por ter tentado pegar o touro pelos chifres. Como o desafio se está a revelar árduo, todos nós o vemos. E também não seja mal conhecida a coragem espiritual de uma tentativa que vida salvar precisamente a exausta vocação geradora de uma Igreja muito próxima da esterilidade clínica. Através de sinais, discursos, símbolos, pessoas, opções, que, para dizer a verdade, nem sempre correram bem, Francisco ao menos introduziu nos discursos da Igreja o vocábulo «reforma», conferindo-lhe um significado de transformação que tem na mira um catolicismo novamente hospitaleiro das diferenças, em que cada pessoa pode encontrar a forma da própria fé. A encíclica “Fratelli tutti” faz parte desta tentativa.

 

A intuição de Francisco

A sua principal intuição consiste em compreender que o cristianismo tradicional e instituído não pode resolver esta questão sozinho, mas só se se ocupar do “acreditar” de todos, que antes de tudo diz respeito à possibilidade de depor quotidianamente confiança num mundo humano e acolhedor, lugar daquela justiça que, experimentada na história, pode também ser esperada depois dela. Sem o cuidado sério e concreto por uma tal justiça, também a esperança religiosa acaba por ser um ruido que sai dos altifalantes de uma ideologia como as outras. O “ter fé” de cada pessoa compreende sempre também o “poder crer” de todos. E o tema da “fraternidade”, neste sentido, representa algo mais do que o som familiar, e um tanto beato, do jargão religioso que, de facto, dele permaneceu o herdeiro quase exclusivo.

Inspirado pela explícita admissão à tradição franciscana, “fraternidade” é ao mesmo tempo o termo removido da tríade que fez nascer a nossa modernidade iluminada e secular: “liberte, egalité, fraternité”. A civilização que brotou destas palavras de ordem é também aquela que substancialmente privilegiou as primeiras duas, fundando um sistema social baseado nas liberdades individuais e sobre a igualdade de direitos que, sem o princípio ativo de um primados dos laços, transformou o mundo no espaço antagonístico de uma arena em que todos querem tudo como todos.

Muitos sinais, alarmantes quanto normalmente ignorados, contribuem para tornar sérios estes discursos e a subtrai-los ao sorrisinho impudente dos cínicos. As estruturas económicas, os métodos de produção, a burocracia dos direitos, o sistema comunicativo, as práticas políticas, os desvios financeiros e tudo quanto compõe os pilares desta civilização exaltada e frenética, é colocado ao espelho dos seus custos sociais, dos “descartados” sistemáticos que, transformados em números estatísticos, não perturbam com o seu rosto humano e pessoal.

 

Alguma coisa de epocal

Ao espalhar a expressão “fratelli tutti”, o papa realiza algo de muito maior do que imiscuir na conversa global algumas gotas de franciscanismo edificante: reivindica a plenitude dos sonhos modernos comprometidos por perigosas omissões, como um composto químico que, sem um só dos seus elementos, se torna veneno moral. É algo de francamente epocal. Os primeiros a compreendê-lo serão, mais uma vez, os defensores de um paradigma tecno-mercantil que, por muitos inconvenientes que encontre, não mostra, de facto, sinais de enfraquecimento: não deixarão de desacreditar um pontificado que nunca detestarão suficientemente; os últimos a compreendê-lo serão, mais uma vez, aqueles mandarins eclesiásticos que considerarão este documento não suficientemente religioso porque excessivamente social: não deixarão de contar os dias para um virar de página.

Nesta encíclica, que entre várias (para alguns, irritantes) novidades inclui conter (creio que pela primeira vez) a citação de uma canção (“Samba da bênção”, de Vinicius de Moraes), aposta na rendição de um capital espiritual que desde há demasiado tempo o cristianismo mantém sob o chão da imobilidade. Fazer valer algo que é de todos não significa esquecer aquilo que é próprio. Significa alimentar o ar em que pode respirar.

João XXIII insistia em ir atrás daquilo que une, em vez do que divide. Francisco mobiliza toda a energia possível para dar forma social a este princípio. Sabe que pode falar a muita “gente de fé” que hoje não se encontra necessariamente entre a “gente de Igreja”. Na esperança de reconduzir muita “gente de Igreja” a ser também “gente de fé”.


 

Giuliano Zanchi
In Settimana News
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: diy13/Bigstock.com
Publicado em 28.10.2020

 

 

 
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