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Música: Objeto impalpável e poderoso que acompanha as perguntas mais importantes da vida

Quando é que a música teve início? E porquê? Para compreender a importância deste estranho hábito do ser humano de organizar os sons de maneira agradável, seria necessário dar resposta a estas perguntas. Muitos estudiosos tentaram-no, e muitos, ainda hoje, vão em busca de documentos, sugestões, vestígios capazes de resolver este mistério.

As descobertas de antigos fragmentos de instrumentos musicais, como os encontrados na Alemanha sul-ocidental, em Geissenklösterle, e na Eslovénia, em Divje Babe, que remontam há cerca de 40 mil anos, sugerem-nos como já os seres humanos de Neanderthal e os primeiros Homo Sapiens faziam música. O instrumento que os investigadores tiveram entre as mãos, escavando nesses locais arqueológicos, é uma flauta. Em marfim, no caso de Geissenklösterle; extraído do fémur de um urso na de Divje Babe.

Outras descobertas trouxeram à luz fragmentos de xilofones, construídos com lâminas de sílex. É provável que os nossos antepassados tivessem construído também instrumentos em madeira ou com materiais mais fáceis de trabalhar, mas mais sensíveis ao desgaste do tempo, e por isso não temos achados desses períodos históricos que o possam demonstrar.

Com toda a probabilidade, todavia, não foi a flauta o primeiro instrumento musical utilizado pelo ser humano. A música terá tido início, quase seguramente, com o canto, o mais íntimo dos instrumentos. E o ser humano descobriu-se, de maneira natural e inata, compositor. Sentiu a exigência de colocar em ordem os sons, de os organizar em melodias, de preencher as palavras de ritmos e elevação, de modular a sua voz de maneira diferente do simples falar.

Porque é que o fez? Que necessidade o moveu nessa direção? Porque é que o aparecimento da música está entre as primeiríssimas descobertas do ser humano, quando ainda lutava todos os dias pela subsistência? Se tivesse sido uma atividade não necessária, teria nascido mais tarde, após ter respondido à urgência quotidiana de ter a vida salvaguardada.



As mães estão, sem dúvida, entre os primeiros compositores que a história humana conheceu. Bem depressa se deram conta de que, através da capacidade de modular o tom da sua voz, podiam entrar num contacto mais profundo com o seu pequenino



«Por muito rudimentar que possa ser, este canto permeia toda a vida do ser humano primitivo. Comunica a sua poesia, diverte no repouso e nas ocupações pacíficas, exalta e distende; conduz num transe hipnótico aqueles que cuidam dos doentes e lutam pela afirmação e pela vida num mágico encantamento, desperta os músculos dos dançarinos quando estão para ceder, inebria os combatentes e conduz as mulheres ao êxtase.» Seguindo as palavras do grande musicólogo Curt Sachs, podemos compreender como a música permeia, desde logo, vários contextos da vida do ser humano primitivo. Não era uma simples banda sonora, era algo de mais, que acompanhava os momentos mais importantes e delicados da sua vida.

Para compreender este aspeto fundamental, vale a pena perguntarmo-nos quais foram as primeiras formas de composição musical. Ou, para que ocasiões o ser humano codificava cantos e melodias? Não se trata de composições escritas no pentagrama – os primeiros e rudimentares sistemas de notação musical chegarão apenas em torno do século VII a.C. –, mas de criações orientadas pelo instinto e pelo costume. Nem se pode falar de arte, se por arte entendemos um processo criativo “consciente”.

Ainda hoje, a criança tem o seu primeiro contacto direto com a música graças às canções de embalar. As mães estão, sem dúvida, entre os primeiros compositores que a história humana conheceu. Bem depressa se deram conta de que, através da capacidade de modular o tom da sua voz, podiam entrar num contacto mais profundo com o seu pequenino. Especificamente, as canções de embalar tinham a função de sossegar e adormecer o bebé. Construídas sobre melodias simples e repetitivas, são sempre acompanhadas pelo contacto físico, pelo lento embalar do abraço materno ao ritmo de um canto sussurrado que dissipa toda a tensão. Neste caso, a música reforça a ligação relacional entre mãe e filho, infunde serenidade através do excedente emotivo que, unido ao contacto físico, é capaz de proporcionar. A invenção melódica, neste caso, entra em jogo num dos contextos mais delicados da experiência humana: o da vida nascente.



A música, desde as suas origens, teve a ver com os momentos mais profundos e importantes da vida do ser humano: o nascimento de uma vida, o medo da morte, a relação com a divindade. Aos nossos olhos contemporâneos, a música emerge com fundo, entretenimento, distração, exercício intelectual. Na sua natureza misteriosa, é muito mais



Os homens primitivos, enquanto as mulheres se descobriam criadoras de canções de embalar, tinham a tarefa, fundamental, de ir à caça. Esta atividade, em nada privada de perigos, ocorria em grupo, e os caçadores utilizavam o canto em várias ocasiões. Danças e cantos, ritmicamente impetuosos, serviam para infundir coragem, vencer o medo e impressionar as presas que haveriam de conquistar. Serviam também para comunicar entre eles mensagens particulares, sempre que estivessem distantes uns dos outros. Mensagens de alerta e da conquista da presa-

Acontece também hoje, sobretudo em ambiente desportivo, ver esta utilização do canto. Quando, por exemplo, antes do início do jogo, a equipa se reúne e, com intensidade, entoa o seu moto, ou quando, como sucede para os All Blacks, a seleção nacional de râguebi neozelandesa, se organizam autênticas danças rituais antigas para infundir coragem e impressionar o adversário.

Este género de composições musicais é também encontrado nos corpos militares, onde a música serve para criar sentido de pertença e para exaltar o valor e a força do próprio exército. Igualmente neste caso, a música entra em jogo num dos momentos mais delicados da vida do ser humano: quando serve para exorcizar o medo da morte e infundir a coragem necessária para enfrentar uma ação potencialmente arriscada.

As comunidades primitivas, além disso, tinham uma relação direta com a divindade. O espaço do sagrado era bem delimitado, para propiciar, para agradecer, para suplicar. Para dialogar com a divindade, o ser humano cria danças e cantos rituais. Estes tinham a função de lançar uma ponte para o sobrenatural, criar um momento propício de contacto entre o ser humano e Deus. Serviam para oferecer sacrifícios, para dar graças aos deuses, para atribuir valor sagrado aos acontecimentos que atingiam cada pessoa e a comunidade. Também neste caso, a música entrava como protagonista num dos âmbitos mais importantes da vida social, o da relação com o sagrado, quase como se fosse a chave para entrar em contracto com aquilo que é invisível aos olhos.

Estes aspetos permitem-nos dizer que a música, desde as suas origens, teve a ver com os momentos mais profundos e importantes da vida do ser humano: o nascimento de uma vida, o medo da morte, a relação com a divindade. Aos nossos olhos contemporâneos, a música emerge com fundo, entretenimento, distração, exercício intelectual. Na sua natureza misteriosa, é muito mais, um objeto misterioso e impalpável que acompanha as perguntas mais importantes da vida.


 

Cristian Carrara
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Flauta de Geissenklösterle | D.R.
Publicado em 15.07.2020

 

 
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