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Música e liturgia: lugares de hospitalidade

Este mês de novembro vê chegar, à cena pública, um artefacto musical particularmente significativo. Nos últimos anos, um grupo de jovens músicos tem vivido uma particular relação com uma comunidade paroquial da cidade de Lisboa, a Paróquia de São Tomás de Aquino. A partir de uma experiência de reciprocidade, esta comunidade tem feito a experiência de uma renovação da música que habita a celebração litúrgica – para além, de outros acontecimentos musicais mais próximos da figura do «concerto espiritual», assinalando grandes momentos do calendário litúrgico. Assinale-se que o Livro-CD do Ensemble São Tomás de Aquino publicado pela Paulus, veiculando uma prática musical tecnicamente desenvolvida, privilegia a criação de música litúrgica contemporânea, não se circunscrevendo aos territórios musealizados da música ritual do Ocidente cristão.

Em termos gerais, a arte musical que se exprime neste projeto pretende construir uma particular relação entre qualidade artística e verossimilhança litúrgica, no quadro da receção do Concílio Vaticano II. Hoje, com frequência, os detratores deste Concílio – refiro-me aos bem-intencionados – falam desta experiência reformista como um duro golpe na continuidade da rica tradição cristã latina. Esta atitude de veneração dos tesouros artísticos do passado esquece até que, em grande medida, esse esplendor cultural dava testemunho de uma situação histórica em que o protagonismo cultural das Igrejas dependia do seu lugar de poder e de controlo social, situação que poucos pretenderão reeditada. Entre os músicos que engrossam este coro de críticas, esboça-se a ficção de um mundo pré-conciliar, onde, de forma amplamente disseminada, se entoava o canto gregoriano e se ouvia Palestrina. Obviamente, essa ficção não resiste ao conhecimento histórico da situação das liturgias paroquiais, no mundo católico, antes do Vaticano II, nem incorpora as exigências novas de um catolicismo que, durante o século XX cresceu, sobretudo, em novas geografias, extraeuropeias.



A qualidade «pastoral» que descreve este Concílio desenha-se na figura de uma Igreja que se apresenta em comunhão com as alegrias e esperanças do mundo e como sinal da unidade do género humano. Trata-se, portanto, de uma eclesiologia de descentramento, de renúncia à autorreferencialidade



Na verdade, a Constituição sobre a Liturgia Sacrossanctum Concilium conheceu leituras contrastantes no seu processo de receção. Trata-se do único documento do Concílio Vaticano II cuja redação integrou grande parte do trabalho das comissões pontifícias preparatórias. Sabemos que o mesmo não se reproduziu no processo de redação dos outros documentos. Alguns leitores veem, neste documento, muitos traços de uma cultura eclesiástica pré-conciliar, centrada na ideia de liturgia como culto público, que a experiência conciliar, nos seus desenvolvimentos, pretendeu superar. Outros interpretam o documento como um ponto de chegada de tendências que, no mundo católico, sublinhavam a necessidade de voltar a enfatizar a liturgia como lugar de convocação, oração, pregação e envio, lugar de contacto com as fontes da fé e, por isso, fonte e cume da experiência cristã.

A qualidade «pastoral» que descreve este Concílio desenha-se na figura de uma Igreja que se apresenta em comunhão com as alegrias e esperanças do mundo e como sinal da unidade do género humano. Trata-se, portanto, de uma eclesiologia de descentramento, de renúncia à autorreferencialidade. O sentido de «pastoralidade» próprio deste Concílio – presente, desde logo, nos discursos do Papa João XXIII – dá conta de uma Igreja preocupada com a comunicabilidade e a traduzibilidade da sua mensagem. Esse impulso é uma concretização da sua vocação ecuménica, enquanto comunidade aberta à diversidade das culturas e sensível a todas as inquietudes humanas. O nº 37 da Sacrosanctum Concilium traduz, desta forma, esta direção: «Não é desejo da Igreja impor, nem mesmo na liturgia, a não ser quando está em causa a fé e o bem de toda a comunidade, uma forma única e rígida, mas respeitar e procurar desenvolver as qualidades e dores do espírito das várias raças e povos».



Não parece possível reeditar a ideia de cultura como uma idealidade abstrata ou uma totalidade homogénea. A noção de cultura inclui uma pluralidade irredutível de modos de dizer, fazer, pensar, gestualizar, etc.



Esta direção, muito acentuada na receção do Concílio Vaticano II, enraíza-se na revalorização do princípio da Igreja-assembleia como sujeito da ação litúrgica. É precisamente quando se valoriza a experiência litúrgica enquanto vivência comunitária, situada num tempo e num lugar, que surge, com particular acutilância, a pergunta: que linguagens para a liturgia? Este é o novo contexto em que se renovam os laços entre culto e cultura. Mas não parece possível reeditar a ideia de cultura como uma idealidade abstrata ou uma totalidade homogénea. A noção de cultura inclui uma pluralidade irredutível de modos de dizer, fazer, pensar, gestualizar, etc. 

O princípio central de «participação», na reforma conciliar, decorre, por um lado, dessa revalorização da comunidade-assembleia, enquanto sujeito da ação, e, por outro, desse princípio de pastoralidade que abre a ação à suas dimensões contextuais. Esta transformação tem particulares implicações no que diz respeito ao texto litúrgico e à música litúrgica, campos de um combate ideológico, nas décadas que se seguiram ao Concílio. A forma como se lê este problema depende muito do modo como se entende esta pergunta: quem é o sujeito da ação litúrgica? Certas sensibilidades dão prioridade ao acontecimento grupal, veiculando uma ideologia «basista», no qual o grupo celebra a sua existência comprometida, esgotando-se na sua própria criatividade. Outros, pretendendo valorizar uma conceção universalista de Igreja (na qual a Igreja universal precede a sua expressão local), ficam enredados numa espécie de platonismo litúrgico que reduz a possibilidade de a liturgia incorporar a espessura humana dos seus contextos de realização.



O projeto, que agora se torna público, dialoga com uma tradição diversificada de linguagens musicais nascidas no habitat litúrgico. Esse trabalho de receção inclui a consciência de que a tradição tem de ser recolocada



Nesse sentido, a vernaculização da liturgia, ou seja, a incorporação da diversidade das línguas, trouxe consigo um desafio muito mais complexo, que nem sempre encontrou respostas eficazes: a incorporação de uma «viragem» cultural na própria compreensão das linguagens litúrgicas. Nas décadas que se seguiram ao Concílio, em grande parte da geografia do catolicismo, muitos liturgistas compositores ensaiaram um trabalho desafiante: responder à necessidade de vernaculizar uma arte de celebrar que se tinha cristalizado numa língua separada (morta, socialmente) e em formas pouco adequadas ao princípio de participação ativa (actuosa, segundo o vocabulário da Constituição Sacrosanctum Concilium). A ideia de participação ativa da assembleia fecundou múltiplas experiências quanto ao ensaio de novos idiomas litúrgicos, alargando também as dificuldades de regulação.

O projeto, que agora se torna público, dialoga com uma tradição diversificada de linguagens musicais nascidas no habitat litúrgico. Esse trabalho de receção inclui a consciência de que a tradição tem de ser recolocada. Dizemos de uma língua que é morta, porque perdeu os seus falantes. Ou seja, perdeu a possibilidade de «empalavrar» novas experiências, «ressignificar» novas interrogações. No que diz respeito a esta exigência, este projeto beneficiou do extraordinário trabalho de criação de Frei José Augusto Mourão (1947-2011), membro da Ordem dos Pregadores. Para além dos textos do Missal Romano, os cânticos, hinos e aclamações ali reunidos contam com a presença da sua poesia litúrgica, recuperando para a celebração cristã a tradição de criação hinológica, marcada agora pelos desafios da nossa contemporaneidade. Grande parte das criações musicais gravadas, e publicadas no cantoral que acompanha a edição discográfica, encontra no labor teoliterário de Frei José Augusto Mourão a oportunidade de uma vivência singular: a comunhão entre música e literatura, ao serviço da arte de celebrar.


 

Alfredo Teixeira
Antropólogo, compositor
Imagem: Capa e CD | D.R.
Publicado em 24.11.2020

 

 
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