Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

Misericórdia, liturgia de ternura e festa

Cansado da mentalidade farisaica que visa desqualificar os pecadores, Jesus, como extraordinário exegeta do Pai, narra uma ampla parábola em três quadros (Lucas 15, 1-32, Evangelho do 24.º Domingo do Tempo Comum, 11.9.2022) para encenar o paradoxo do amor excedente do Pai e provocar os homens religiosos do seu tempo à conversão a um Deus que não tem nada a ver com as medidas humanas tão estreitas, com as nossas definições dogmáticas tão asfixiantes, com a atitude de quem declara conhecê-lo por palavras mas depois o renega com factos (cf. Tito 1, 16).

Os primeiros dois quadros da parábola assemelham-se muitíssimo: em ambos há algo que se perdeu e que depois é procurado, reencontrado e festejado. No primeiro, o protagonista é um homem, no segundo uma mulher; no primeiro a busca acontece fora, no segundo dentro; no primeiro a perda é de 1/100, no segundo de 1/10.

O pastor quer muito às suas ovelhas e não quer que nenhuma se perca (cf. Lucas 19, 10; João 6, 39), por isso procura-a até que a encontra (cf. Lucas 15, 4). A ovelha perdida, tão amada pelo seu pastor, simboliza a vida de quem, perdido, se deixou encontrar e pelo qual Deus faz festa. É Deus o pastor que, diferentemente dos homens, ama loucamente o seu rebanho (cf. Salmo 23, Isaías 40, 11; Jeremias 23, 1-4; Ezequiel 34).

Da pastagem passa-se depois para a casa, onde uma mulher perdeu uma moeda de prata, mas não se dá por vencida e põe-se a procurá-la cuidadosamente até que a encontra (cf. Lucas 15, 8), e a sua alegria por a ter reencontrado é tão grande, que inclusive a transmite às suas amigas e vizinhas. Esta alegria evoca a dos «anjos de Deus» (expressão casta para fazer referência a Deus) por um só pecador que se converte. A alegria excedente do pastor e da mulher tornam-se assim categorias preparatórias para falar da alegria que Deus nutre pelos seus filhos.



A liturgia da ternura celebrada no umbral de casa sanciona a ressurreição do filho rebelde e a fidelidade inoxidável do amor paterno; a liturgia da festa celebrada em casa com o banquete, a música e as danças assinala, depois, o regresso a uma vida de relações e a recuperação da dignidade perdida



Diversamente dos dois primeiros quadros, o terceiro não contém o tema da busca, mas o da espera, não fala de Deus, nem de «céu», nem de «anjos». Nos quadros anteriores, a perda passa de 1/100 a 1/10 dos próprios bens; agora chega-se a uma perda total. Nos dois primeiros quadros o que se perde são “propriedades”, no terceiro são filhos, criaturas dotadas de inteligência, espírito de iniciativa e liberdade. O último quadro, portanto, toca as relações familiares e o foco centra-se primeiro na relação filho menor/pai (cf. Lucas 15, 11-24), depois na relação filho maior/pai (cf. Lucas 15, 25-32).

O filho menor apresenta-se como “o homem dos direitos” que deseja a sua quota de património antes de tempo. Revestido por uma liberdade extrema e sem limites, mergulha na cultura do provisório que consome tudo e apressadamente, e corta o ser humano da rede das suas relações, destinando-o à morte. Ao recordar o calor da sua casa e dos afetos, este filho decide regressar e propõe ao pai que o faça trabalhar junto de si para ganhar o seu pão. Da lógica dos direitos o jovem passa à lógica da troca.

Com olho de águia, o pai perscruta o caminho, desejoso de ser o primeiro a ver a silhueta do filho à distância; apesar de ter sido lesado por causa do erro que sofreu, decidiu conceder a graça ao jovem, tornando-o público em toda a povoação. Com cinco verbos Lucas retrata o afeto deste pai, por trás de quem se oculta aquele que Tobite e Ana tinham manifestado a Tobias, seu filho, por ocasião do seu regresso a casa (cf. Tobias 11,5-6.9.13): um coração que vê, que se enternece, corre, abraça e beija. A liturgia da ternura celebrada no umbral de casa sanciona a ressurreição do filho rebelde e a fidelidade inoxidável do amor paterno; a liturgia da festa celebrada em casa com o banquete, a música e as danças assinala, depois, o regresso a uma vida de relações e a recuperação da dignidade perdida.



Mesmo perante a miséria deste filho que encarna o género do “homem dos deveres” e diante da sua visão distorcida das coisas e das relações, o pai não perde a paciência e explica-lhe amorosamente que um filho não é amado por causa daquilo que faz, mas por força do que é



O ruído da festa chega ao primogénito, de volta do trabalho, colocando-o imediatamente de mau humor: decide não entrar em casa, para ferir aquele pai, que, ao acolher o irmão desgraçado, o humilhou. Durante toda a sua vida viveu de modo servil, acrisolando-se na sua perfeita e louvável observância de todos os ditames paternos, e agora sente-se enganado, explorado e desiludido. Mas mesmo perante a miséria deste filho que encarna o género do “homem dos deveres” e diante da sua visão distorcida das coisas e das relações, o pai não perde a paciência e explica-lhe amorosamente que um filho não é amado por causa daquilo que faz, acreditando que dessa maneira ganha, de alguma forma, a estima e o amor do pai, mas por força do que é, isto é, o herdeiro amado do pai: «Filho, tu estiveste sempre comigo e tudo aquilo que é meu é teu; mas era preciso fazer festa e alegrarmo-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado» (Lucas 15, 31-32).

À lógica dos direitos, da troca, dos deveres, o pai contrapõe a “lógica da gratuidade e da ternura misericordiosa”, que Jesus quer indicar não só aos fariseus do seu tempo, mas também a nós que hoje somos os destinatários desta Palavra. O exegeta do Pai confia-nos o estilo da ternura, feito de dom, perdão, comunhão no amor, que transforma a vida em festa e obtém uma alegria plena e contagiosa.


 

Rosalba Manes
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "Fête au village" (det.) | Marc Chagall | 1969
Publicado em 07.09.2022. Atualizado em 08.09.2022

 

 
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Mais Cultura
Vídeos