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Migrantes devem ter «condições para expressarem a sua cultura», afirma bispo de Santarém

Os migrantes devem ter «condições para expressarem a sua cultura», e não podem ser «explorados ou maltratados, mas acolhidos e protegidos com a mesma respeitabilidade que desejamos para os portugueses que vivem em qualquer outro país», considera o bispo de Santarém.

D. José Traquina, presidente pela comissão que, entre os bispos de Portugal, acompanha a pastoral social e a mobilidade humana, em particular as migrações, vincou que os católicos devem ter «capacidade de acolhimento», e não alimentar sentimentos que contradigam a «matriz cristã de fraternidade universal».

Na celebração da Palavra que decorreu esta quarta-feira à noite, durante a peregrinação aniversária internacional de agosto a Fátima, o prelado vincou que as migrações, quer de portugueses no estrangeiro, quer de estrangeiros em Portugal – estima-se que sejam perto de 600 mil –, constituem «uma realidade para a qual a Pastoral da Igreja tem de estar atenta para acompanhamento e apoio».

Os estrangeiros também «devem ser informados» acerca sobre as «regras e hábitos de convivência» que se praticam em Portugal, sublinhou, na celebração que costuma congregar milhares de emigrantes lusos que regressam para as férias, mas que, este ano, registou acentuada diminuição de peregrinos, devido à pandemia.

Na missa a que presidiu hoje, D. José Traquina lembrou «os atuais milhões de pobres em todo o mundo, os milhões de refugiados que têm de fugir como Jesus para terem vida, os migrantes que, por desconhecimento das formas legais de emigrar, são explorados por contrabandistas e traficantes, os milhões de pessoas deslocadas forçadamente dentro do seu próprio país, por falta de segurança».



«Se me perguntarem se em Portugal há racismo, direi, infelizmente, que sim. Ainda somos olhados de lado, preteridos no que refere ao emprego e algumas vezes insultados. Existe racismo, ainda que encapuzado, pois existe a vergonha de o admitir»



Ontem, o prelado apontou a necessidade «de reconhecer a nível mundial o direito dos pobres. Deus quer que seja reconhecido o direito dos pobres no mundo inteiro», o que, em atos concretos significa: «Há uma parte dos nossos bens que devem ser disponibilizados para quem deles carece».

A Obra Católica Portuguesa de Migrações publicou hoje na sua página o depoimento de Sara, nascida em Angola, em 1975, trazida para Portugal, para escapar à guerra. No quarto de uma pensão, em Ovar, a família conseguiu comprar «a muito custo», uma casa na margem sul do Tejo, onde, com cinco anos, começou a tomar consciência do que era «ser de cor».

«Eu o meu irmão estudávamos num colégio onde éramos as únicas crianças negras. Recordo-me perfeitamente de ouvir a minha professora dizer a outra: – a preta é inteligente. Na altura não tive a noção do alcance do comentário. Depois começaram os insultos dos colegas, que gozavam com o meu cabelo, a minha cor e me mandavam para a minha terra. E eu não percebia, para mim nunca tinha tido “cor”, era apenas eu. Depois disto comecei a assimilar que me viam como uma pessoa diferente apenas pelo meu tom de pele. Foram muitas as vezes que fui alvo de racismo e do que hoje chamam "buliyng". No entanto, os meus pais sempre ensinaram, quer a mim, quer ao meu irmão a termos orgulho da nossa cor e origem e aos poucos deixou de me incomodar», assinala

«Abraço a cultura do país em que nasci, porque assim me foi incutido e estou perfeitamente integrada neste país que me acolheu», acentua. E acrescenta: «Se me perguntarem se em Portugal há racismo, direi, infelizmente, que sim. Ainda somos olhados de lado, preteridos no que refere ao emprego e algumas vezes insultados. Existe racismo, ainda que encapuzado, pois existe a vergonha de o admitir».

A 48.ª Semana Nacional das Migrações, que decorre até domingo, tem como tema o mesmo que o papa anunciou para o Dia Mundial do Migrante e Refugiado: “Forçados, como Jesus Cristo, a fugir. Acolher, proteger, promover e integrar os deslocados internos”.


 

Rui Jorge Martins
Fontes: Diocese de Santarém, Obra Católica Portuguesa das Migrações
Imagem: vverve/Bigstock.com
Publicado em 13.08.2020

 

 
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