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Max Weber: 100 anos da morte de um dos pais da sociologia moderna

A política é recontro, não é moral. Consequentemente, quem se quer ocupar da política deve estar consciente de que ela é competição, e que a ela é inerente uma dimensão agónica que estabelece o declarado objetivo da derrota do adversário. Mas esta dinâmica pressupõe um agir impudente, sem escrúpulos, que elimina toda a forma de respeito em relação ao outro? A esta interrogação fundamental, Max Weber, de quem, a 14 de junho, se assinalou o centenário da morte, declara uma resposta clara e consciente: a vitória, em política, uma vitória completa e autêntica, só se pode obter através da salvaguarda de um código ético que contemple a plena conformidade às leis, a qual, por seu lado, é garantia da tutela dos valores essenciais em que se inspira e de que se alimenta o tecido social e civil. A dimensão ética, portanto, eleva-se a paradigma inamovível num contexto, como o da política, onde geralmente os atores tendem a virar as costas à disponibilidade para a escuta e à vontade de diálogo.

Considerado um dos pais fundadores da sociologia moderna, Weber concentrou grande parte da sua investigação ao desenvolvimento do capitalismo. Nesse sentido, foi influenciado por Karl Marx, de quem, ao mesmo tempo, criticou alguns aspetos do pensamento, como a conceção materialista da história. Weber, em relação a Marx, atribuía menor importância ao conflito de classes por considerar que as ideias e os valores influem sobre a sociedade da mesma maneira que as condições económicas. Weber reconhecia o carácter do capitalismo moderno no racionalismo económico, concebido como uma parte nevrálgica de um mais geral processo de racionalização que comporta a pragmática organização da empresa, a tendência para o lucro, a elaboração de balanços preventivos e consultivos, e, ao mesmo tempo, o emprego do trabalho livre e a existência de um mercado livre. Juntamente com estes elementos, o sociólogo e filósofo alemão apontava um fator definível como o «espírito do capitalismo», ou seja, uma mentalidade económica que mergulharia as raízes no terreno da religião.

Numa das suas obras mais conhecidas, “A ética protestante e o espírito do capitalismo” (1904-1905), Weber sustenta que a religião é uma das razões pelas quais as culturas do Ocidente e do Oriente se desenvolveram de maneira diferente, e sublinhava a importância de algumas características do protestantismo ascético, que, segundo o sociólogo, contribuíram para o nascimento do capitalismo, da burocracia e do Estado racional e legal nos países ocidentais.



Um aspeto conhecido por poucos diz respeito à importância conferida por Weber ao jornalismo. Em 1918, sublinhava que «nem todos têm bem claro que escrever um bom artigo comporta um empenho intelectual igual àquele que é requerido a um académico»



No pensamento de Weber, num cenário ligado às instituições chamadas a favorecer o progresso da sociedade, a reflexão sobre o valor do Parlamento ocupa um lugar importante. Em clara oposição ao chanceler Otto von Bismarck, culpado de ter transformado o Parlamento num lugar «exclusivamente burocrático», o sociólogo defendia que ele deve ser um laboratório onde se plasma a democracia. É nesse contexto que se formam os melhores seres humanos. Quem governa faz parte de uma minoria restritíssima, e essa minoria só pode nascer no seio do Parlamento, o qual, simultaneamente, é chamado a favorecer, de maneira sábia e prudente, o emergir do líder carismático, concebido como síntese de uma elite composta pelos espíritos mais brilhantes.

Mas como Weber evidencia na obra “Parlamento e governo” (1917), o líder carismático poderia ser seduzido por derivas autoritárias. Se isso ocorresse, seria o próprio Parlamento a desenvolver uma saudável atividade de controlo, opondo antes de tudo, nesse exercício de vigilância, o valor da legalidade constitucional, que ninguém pode violar. Por isso, é ao Parlamento que Weber confia a tarefa de agir como filtro entre o Governo e a massa, conferindo-lhe, assim, uma função de alta valência estratégica na perspetiva d eum viver civil bem regulado e baseado em equilíbrios sólidos.

Um aspeto conhecido por poucos, e que no entanto se reveste de relevante significado, diz respeito à importância conferida por Weber ao jornalismo. Numa conferência realizada em Munique em 1918, o sociólogo, com uma linguagem firme e perentória, sublinhava que «nem todos têm bem claro que escrever um bom artigo comporta um empenho intelectual igual àquele que é requerido a um académico que se cimente no conseguimento de um grande objetivo». Como se esquece – evidenciava Weber – que o jornalista tem muitas vezes de redigir um artigo à pressa e num ímpeto, condições nem sempre favoráveis, enquanto o estudioso e o investigador dispõem, geralmente, de tempos longos e de espaços consonantes com as exigências da atividade intelectual. Descura-se, além disso, o facto de a responsabilidade do jornalista em relação à sociedade é «muito maior do que a revestida pelo estudioso».

A conferência teve lugar pouco depois do fim da primeira guerra mundial, quando o imperativo comum era o de reconstruir, em várias frentes, e com prioridades bem articuladas, o que tinha sido destruído. Nesta perspetiva, o elogio tecido por Weber em relação ao jornalismo enche-se de um valor ainda mais significativo, tendo o sociólogo compreendido bem o precioso e ativo contributo que podem dar, para o bem e para o progresso da sociedade, a caneta e a mão de quem a move.


 

Gabriele Nicolò
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Max Weber | D.R.
Publicado em 16.06.2020

 

 
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