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Marcos, o Evangelho do espanto e da fé difícil

O Evangelho de Marcos fornece a maior parte dos textos dos Evangelhos nas Eucaristias dominicais do ciclo B do ano litúrgico. Mas, uma vez que a leitura litúrgica não é ainda uma leitura pessoal direta do texto bíblico, é necessário que os crentes ousem o esforço e a alegria de uma leitura direta, pessoal e comunitária dos textos bíblicos, para chegarem a usufruir sobretudo dos frutos espirituais que a Palavra de Deus produz.

Além disso, a proclamação litúrgica é dominada pelo critério da extensão e da seleção dos excertos, de modo que já não há o contacto com o texto completo do Evangelho, mas apenas com perícopes, isto é, com fragmentos mais ou menos extensos. Assim, a perspetiva litúrgica do Evangelho deve ser completada com a leitura contínua do próprio texto.

Os Evangelhos – e o de Marcos não é certamente exceção – são narrações (diegesis, narratio: Lc 1,1) e, como tal, são lidas na sua unidade, seguindo o desenrolar do relato e deixando-se levar pela mão da narração: só com uma leitura atenta à sua dimensão literária de narrativas elas revelarão, mesmo completamente, a sua mensagem religiosa. E, se toda a narração é narração de uma história, o que é contado nos Evangelhos é a «história de Jesus».

Com efeito, a fé bíblica, que crê num Deus que se manifesta na história e na companhia dos homens, exprime-se na narração. A Bíblia diz Deus não formulando abstratos princípios teológicos ou filosóficos, mas contando uma história, ou melhor, uma história de histórias. Impossível de definir, o Deus bíblico é, no entanto, possível de contar. E os Evangelhos, que veem em Jesus de Nazaré a humanidade de Deus, aquele que na sua existência narrou Deus, não podem senão ter a forma de narração. Jesus, o não-teólogo, é o narrador de Deus, aquele que faz disso uma exegese viva, com as suas palavras e a sua prática de humanidade.



Para Marcos, a chave da abóbada da revelação do rosto de Deus, feita por Jesus, é a cruz. E a narração evangélica mostra sempre que Deus se manifesta na humanidade de Jesus, apreendida também na sua fraqueza e vulnerabilidade



Mas, se Jesus é o narrador de Deus («A Deus jamais alguém o viu. O Filho Unigénito [...] foi quem o deu a conhecer [exegesato]»: Jo 1,18), Ele é também o narrador narrado por aquelas narrações escritas que são os Evangelhos. Portanto, Jesus, aquele que narrava Deus oralmente e existencialmente, foi transposto para a narração escrita. Jesus não escreveu nada e, depois da sua morte, outros escreveram sobre Ele, transmitiram a sua recordação através do trabalho narrativo, através da sua escritura, que não só era sempre acompanhada pela oralidade da pregação e do anúncio, mas era e é ainda hoje destinada a tornar-se novamente oralidade, palavra falada e testemunho existencial.

Algumas notas acerca do Evangelho de Marcos, no seu todo, são, por isso, importantes, para ajudar o leitor a melhor situar as «perícopes» litúrgicas e, sobretudo, para convidar o próprio leitor a abordar o segundo Evangelho na sua unidade, completando assim a perspetiva litúrgica.

A estrutura do segundo Evangelho é iniciática e desenvolve-se em duas etapas essenciais do conhecimento e do seguimento: a uma primeira parte centrada na identidade de Jesus e atravessada pela pergunta «Quem é Jesus?» (Mc 1,14-8,26) segue-se a segunda que versa sobre o seguimento e que responde à pergunta «Como seguir Jesus?» (Mc 9,14-16,8). Se Mc 1,1-13 constitui o prólogo do Evangelho e Mc 16,9-20 representa o seu apêndice (acrescentado provavelmente no século II para atenuar o aspeto escandaloso, incompleto, do final original, deliberadamente reticente e sem relatos de aparições do Ressuscitado), a parte central (Mc 8,27-9,13) funde os dois temas da identidade de Jesus (8,27: «Quem dizem as pessoas que Eu sou?») e do seu seguimento (8,34: «Se alguém quiser vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me»). Ela mostra o inextricável entrelaçado de cruz e glória: Jesus é o Filho do homem que tem de sofrer e ser condenado à morte (8,31; 9,12), mas também ressuscitar (8,31; 9,9.10) e manifestar- -se na glória (9,1-9), e pede ao discípulo um envolvimento radical (8,34-9,1). Jesus, o Cristo, o Senhor, conhece-se seguindo-o.



As permanentes rápidas deslocações de Jesus significam um Cristo que vai à frente, que está sempre a caminho, sempre a partir de novo, a ir-se embora, em suma, escapa a ser presa das pessoas: está fora do alcance humano



Para Marcos, a chave da abóbada da revelação do rosto de Deus, feita por Jesus, é a cruz. E a narração evangélica mostra sempre que Deus se manifesta na humanidade de Jesus, apreendida também na sua fraqueza e vulnerabilidade. No cerne do segundo Evangelho está o paradoxo de que o poder de Deus se manifesta na fraqueza de Jesus, evidente ao máximo na cruz.

O paradoxo de que Jesus é portador exprime-se na reação de espanto que muitas vezes domina os que o encontram. Poderemos falar de uma cristologia do espanto em todo o Evangelho de Marcos. Onde o espanto é a abertura da própria vulnerabilidade à luz, mas igualmente aos choques que o encontro com a pessoa de Jesus provoca. O paradoxo habita também a vida espiritual do discípulo, como mostra a expressão, quase um oxímoro, do pai do rapaz epilético: «Eu creio, ajuda a minha pouca fé» (Mc 9,24). Marcos é o Evangelho da fé difícil, uma fé que é acompanhada de interrogações, uma fé que não é totalitária, não é luz deslumbrante, mas continua a conviver com a obscuridade da dúvida e da não-fé.

Sendo assim, não admira que o leitor que a narração de Marcos tende a criar é um leitor surpreendido, um leitor que se esforça a «ir atrás» das contínuas, improvisadas, rápidas deslocações geográficas de Jesus (contam-se pelo menos cinquenta e quatro mudanças de lugar, por parte de Jesus, nos primeiros dez capítulos); um leitor que deve enfrentar uma narração segmentada e premente, formada pela sucessão de pequenas unidades narrativas (parábolas, diálogos, curas, encontros), a um ritmo que retira o fôlego.

As perguntas sobre a identidade de Jesus e sobre como segui-lo encontram o seu complemento na pergunta ulterior: «Onde está Jesus?» E Jesus encontra-se onde não seria de esperar: no meio daqueles que se deixam mergulhar por João no Jordão, confessando os seus pecados (Mc 1,5), à mesa com pecadores e publicanos (Mc 2,15), na cruz entre dois malfeitores (Mc 15,27).



O género literário «evangelho» tem início com Marcos: deste modo, a novidade cristã exprime-se também literariamente. Ora, o evangelho é género literário que leva ao empenhamento do leitor, à sua decisão de fé e ao seu testemunho existencial



As permanentes rápidas deslocações de Jesus significam um Cristo que vai à frente, que está sempre a caminho, sempre a partir de novo, a ir-se embora, em suma, escapa a ser presa das pessoas: está fora do alcance humano. Jesus, observa com finura Daniel Marguerat, «não escapa tanto aos discípulos como, continuamente, ao próprio leitor, passando rapidamente de um lado para outro, enquanto a questão da sua identidade se vai reabrindo, ao mesmo tempo que a mantém por enquanto fechada».

Jesus não se deixa prender, e isso é sublinhado também pela constante imposição do silêncio acerca da sua identidade: Jesus manda calar quem pudesse revelar a sua identidade. São os demónios que a proclamam, sendo, porém, silenciados por Jesus (Mc 3,11s). Ou melhor, é diabólica a confissão de fé desligada do seguimento até ao fim, até à cruz, quando o segredo messiânico finalmente é revelado. Mas, mesmo na cruz, Jesus adianta-se e surpreende: o centurião confessa-o «Filho de Deus» quando Jesus já está morto («Vendo-o expirar daquele modo, o centurião disse: “Verdadeiramente este homem era Filho de Deus!”»: Mc 15,39).

Diante do túmulo vazio as mulheres descobrem com espanto que Jesus não está ali, mas precede os discípulos na Galileia (Mc 16,7). «O Jesus de Marcos subtrai-se às personagens do Evangelho, mesmo para além do túmulo. Mas este subtrair-se é metáfora de uma alteridade, de um outro lugar, de uma outra terra para onde o leitor é convocado para ver o Vivente» 8. O final do Evangelho remete para o princípio, para a Galileia de onde Jesus provinha e onde iniciara o seu ministério público (Mc 1,9.14). É esse, com efeito, o anúncio às mulheres no sepulcro: «Ide e dizei aos seus discípulos e a Pedro: “Ele precede-vos na Galileia. Lá o vereis, como vos disse.”» Para o leitor, isto significa que, acabando de ler o Evangelho, deve voltar ao princípio e recomeçar. À leitura deve seguir-se a releitura.

O género literário «evangelho» tem início com Marcos: deste modo, a novidade cristã exprime-se também literariamente. Ora, o evangelho é género literário que leva ao empenhamento do leitor, à sua decisão de fé e ao seu testemunho existencial. O primitivo final «escandaloso» do Evangelho de Marcos («As mulheres saíram, fugindo do sepulcro, pois
estavam a tremer e fora de si. E não disseram nada a ninguém, porque tinham medo»: Mc 16,8) abre o Evangelho ao leitor, pedindo-lhe que ele mesmo anuncie a ressurreição, que «substitua» as mulheres que, segundo o texto, não teriam dito nada a ninguém. A página do Evangelho passa assim para a vida do crente, torna-se vida. E o crente torna-se ele próprio narração do Evangelho, torna-se Evangelho vivo.


 

Luciano Manicardi
In Comentário à liturgia dominical e festiva – Ano B, ed. Paulinas
Imagem: "S. Marcos" (det.) | Guido Reni | 1621
Publicado em 11.12.2020

 

 
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