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Maradona: A morte desmascara o vazio

A morte de um ser humano é sempre um acontecimento doloroso. Em certos casos, no entanto, as reações que suscita, além da intrínseca dramaticidade da perda, conferem-lhe um significado mais vasto. É o caso da morte de Diego Armando Maradona. Jornais, televisões, rádio, redes sociais de todo o mundo deram a esta notícia um destaque que obscureceu, por um momento, os problemas ligados à pandemia e às eleições nos EUA. Os meios de comunicação, aliás, mais não fizeram do que dar ressonância a um luto real, que abalou profundamente a opinião pública mundial. Viram-se imagens de pessoas que se abraçavam a chorar, de gente que saiu para as ruas a exaltar o campeão argentino e a manifestar a sua dor.

 

Um novo rito

Um eco como este merece, talvez, algumas reflexões. Não tanto sobre Maradona, mas sobre o vazio parece ter aberto o seu desaparecimento. A primeira que vem à mente é a importância que o desporto – não tanto o praticado como o “espetacularizado” –, e o futebol em particular, tem na nossa história recente, alimentando um negócio de proporções desmedidas, e, sobretudo, polarizando o interesse de uma sociedade secularizada e desiludida pelas ideologias.

Malgrado um certo declínio, registado nos últimos anos, malgrado a crise determinada pela pandemia, permanece o papel que o futebol desempenhou, durante décadas, preenchendo – graças à rádio, televisão e diários desportivos – a vida de milhões de pessoas, marcando a sua semana com um calendário que se tornou, com a multiplicação dos troféus, cada vez mais rico.

Em tempos, o domingo era o dia do Senhor, santificado com a participação na santa missa. Agora, para muitos, tornou-se o dia do jogo. No declínio da participação nas celebrações religiosas, o encontro com “o jogo” tornou-se um novo rito.

 

Uma “fé” e os seus “ídolos”

Esta assonância com a esfera religiosa, que pode parecer exagerada, é, na realidade, evidente a quem conhece muitos que não hesitam em definir o ser-se adepto de uma equipa como “fé”. Explicam-se assim também os fenómenos de fanatismo e violência que, infelizmente, viram degenerar a paixão desportiva – a par do que pode acontecer à fé religiosa – em formas de intolerância e violência.

Neste contexto, não é de admirar que, como cada religião, também a futebolística tenha os seus “santos”. Ou talvez seja melhor dizer – na ausência de um verdadeiro Deus único – os seus ídolos. Também aqui estamos perante uma terminologia que pode aparecer, à primeira vista, pouco apropriada, mas que na verdade se tornou habitual pelos meios de comunicação, para os quais um campeão é, precisamente, um, “ídolo” das multidões dos seus adeptos, que não só o admiram, mas veneram e glorificam como os seguidores de uma religião fazem com a divindade.

 

Um messias?

Desta forma, pode compreender-se por que a vida e morte de Maradona foram tão importantes, em primeiro lugar para milhões dos seus compatriotas, que reconheceram na sua pessoa uma espécie de “messias”, capaz de resgatar o país dos seus recorrentes desastres económicos, e até vingar as humilhações sofridas no plano militar pela guerra das Malvinas. Não é por acaso que, a propósito do primeiro golo do “Pibe de oro” à equipa inglesa, no campeonato do mundo de 1986 – marcado com a ajuda de uma mão – se tenha falado da “mão de Deus”…

Mas devemos falar também do significado que Maradona teve para os napolitanos, permitindo a uma cidade (e a toda uma região) com imensos problemas económicos, de saúde, laborais, desbaratar – no campeonato de futebol – as equipas de Milão e Turim, arrancando-lhes um troféu assemelhado ao símbolo da sua superioridade em todos os campos.

 

Verdadeira e falsa religião

Vêm à mente as teses de Marx, segundo as quais «a religião é o ópio dos povos», entendendo com isto que os seres humanos tendem a fechar os olhos aos seus problemas reais terrenos, projetando a solução num céu imaginário, e renunciando a procura-la nesta Terra. Como acontece a quem busca na droga uma via de escape que o exonere de enfrentar as dificuldades da sua vida.

Provavelmente, esta análise aplica-se, mais do que à religião como tal, a algumas das suas contrafações, que da religião são um sucedâneo e que lhe tomam o lugar quando ela deixa de ter uma incidência real na vida pessoal e social. A morte de Maradona, segundo este ponto de vista, mais do que abrir um vazio, revela-o. Uma sociedade que precisa de ídolos já perdeu algo de mais válido a quem confiar o sentido da sua vida.

E isto é tanto mais verdadeiro se o autêntico ídolo, no fim de contas, não era Maradona, mas o mito do sucesso e do dinheiro que irradiava da sua pessoa. Como, de resto, no caso de outras celebridades: ídolos sempre houve muitos, e o mundo atual é politeísta.

 

O vazio das ideologias

Este quadro de perplexidade não estaria completo sem uma referência ao tema das ideologias. Também delas, como da fé religiosa, o nosso tempo já amplamente registou o ocaso. Alguém, nestes dias, referiu-se ao campeão argentino como último apoiante do comunismo, ou pelo menos da sua versão sul-americana que foi incarnada por líderes como Fidel Castro ou Hugo Chavez. Mencionou-se, a propósito, a amizade que ligava Maradona a estas duas personagens.

Mas a morte do campeão, assim como revela o vazio representado por uma falsa religião, evidencia também o carácter ilusório de uma ideologia reduzida a mera proclamação de veleidades. Maradona não era Che Guevara. Não tinha, como ele, deixado tudo – o sucesso, os bens, o poder, a família – para arriscar a vida lutando contra governos ditatoriais e corruptos. E o seu único compromisso político parece ter consistido no apoio a uma personagem discutível e discutida – precisamente do ponto de vista democrático – como a presidente argentina Kirchner.

 

Um verdadeiro campeão

Maradona, portanto, não era o messias – muito menos um deus –, nem um modelo de compromisso político e social. Mas, negando-lhe uma aureola que não era a sua, não é aviltado. Era um verdadeiro, um grande campeão, e a sua bravura regozijou muitos que exultaram com os seus feitos desportivos. Se não se transforma numa religião e num sucedâneo da fé, o afeto dos seus adeptos é plenamente legítimo. E as suas fragilidades não precisam de ser escondidas, se se o considera aquilo que simplesmente era: um homem. Em relação ao qual, como em relação a qualquer ser humano, vale a interdição evangélica de julgar o íntimo do coração.

Resta o problema de uma sociedade que precisa de ter ídolos porque já não consegue encontrar Deus, e que tem de agarrar-se à paródia das ideologias, porque também já não consegue ter ideias. Mas isso não é culpa de Maradona: é nossa.


 

Giuseppe Savagnone
Pastoral da Cultura da diocese de Palermo, Itália
In Tuttavvia
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Antonio | CC BY-SA 2.0, https://bit.ly/3gxB27Y
Publicado em 10.12.2020

 

 
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