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Mais do que mãos limpas, Deus quere-as repletas de vindima

Jesus comunica-nos Deus através do espelho das criaturas mais simples: Cristo videira, eu sarmento, eu e Ele a mesma planta, mesma vida, única raiz, uma só linfa (João 15, 1-8).

E depois a maravilhosa metáfora do Deus camponês, um vinhateiro perfumado de sol e de terra, que cuida de mim e aplica toda a sua inteligência para que eu dê muito fruto; que não empunha o cetro do alto do trono, mas lavra e olha o mundo dobrado sobre mim, como rebento, sarmento, cacho, com olhos belos de esperança.

Entre todos os campos, a vinha era o preferido do meu pai, no qual investia mais tempo e paixão, até poesia. E acredito que é assim para todos os camponeses. Narrar a vinha é desvelar um amor de preferência da parte do nosso Deus camponês.

Tu, eu, nós somos o campo preferido de Deus. A metáfora da videira cresce para um cume já antecipado nas palavras: Eu sou a vida, vós os sarmentos. Estamos diante de uma afirmação inédita, nunca escutada antes nas Escrituras: as criaturas (sarmentos) são parte do Criador (a videira).

O que trouxe Jesus ao mundo? Talvez uma moral mais nobre ou o perdão dos pecados? Demasiado escasso; veio trazer muito mais, trouxe-se a si próprio, a sua vida em nós, o cromossoma divino dentro do nosso ADN. O grande oleiro que plasmava Adão com o pó do solo fez-se argila deste solo, linfa deste cacho.



Ao anoitecer da vida terrena, a interrogação última, a dizer a verdade última da existência, não dirá respeito a mandamentos ou interditos, sacrifícios e renúncias



E se o sarmento para viver tem de permanecer enxertado na videira, acontece que também a videira vide dos seus sarmentos, sem eles não há fruto, nem propósito, nem história. Sem os seus filhos, Deus seria pai de ninguém.

A metáfora do trabalho em torno à videira tem o seu sentido último no “dar fruto”. O fio dourado que atravessa e cose todo o excerto, a palavra repetida que ilumina todas as outras palavras de Jesus é “fruto”: que deis muito fruto, nisto é glorificado o meu Pai.

O peso da imagem camponesa do Evangelho aporta às mãos repletas da vindima, muito mais que às mãos limpas, talvez, mas vazias, de quem não se quis sujar com a matéria incandescente e cheia de nódoas da vida.

A moral evangélica consiste na fecundidade, e não na observância de normas, traz consigo felizes canções de vindima. Ao anoitecer da vida terrena, a interrogação última, a dizer a verdade última da existência, não dirá respeito a mandamentos ou interditos, sacrifícios e renúncias.

Antes, é uma pergunta que apontará toda a sua dulcíssima luz para o fruto: depois daquilo que passaste no mundo, na família, no trabalho, na Igreja, das tuas videiras amadureceram cachos de bondade ou uma vindima de lágrimas? Atrás de ti ficou mais vida ou menos vida?


 

Ermes Ronchi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Magryt/Bigstock.com
Publicado em 30.04.2021

 

 
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