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Luís Salgado de Matos: «Católico desde sempre», uma das «vozes mais originais e influentes» das ciências sociais

«É já com saudade que evoco Luís Salgado de Matos, que conheço desde os tempos da Faculdade. Com o seu desaparecimento, as ciências sociais portuguesas perdem uma das suas vozes mais originais e influentes, que se destacou no estudo das relações entre o Estado e a Igreja, na análise do papel das Forças Armadas na sociedade e na política nacionais e, bem assim, no escrutínio do papel das ordens na estruturação do nosso Estado.»

Começou com estas palavras a mensagem de condolências do presidente da República à família de Luís Filipe Salgado de Matos, licenciado em Direito e doutorado em Sociologia Política, investigador jubilado do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, que faleceu esta segunda-feira, de cancro.

De Marcelo Rebelo de Sousa para Miguel Esteves Cardoso, na edição de hoje do “Público”, o registo muda de tom, mas não deixa de revelar outros traços da personalidade: «Ria-se muito e estava sempre a rir: um sinal seguro que estava a fazer o que lhe apetecia. Era afetuoso e empático – eu diria até terno –, mas era, sobretudo, um provocador, no sentido mais nobre dessa missão».

A relação da Igreja católica com o Estado foi um dos temas desenvolvidos pelo académico nascido em 1946 que foi «jurista, investigador no domínio da ciência política, intelectual original e polémico, incontornável no pensamento português na transição dos séculos e da ditadura para a democracia», assinala a nota à imprensa subscrita por um grupo de amigos.



«Era uma pessoa que não tinha agenda própria, que sempre revelou uma grande sinceridade e honestidade pessoal. Intelectualmente era um pensador muito viçoso e de um brilho indiscutível»



Preso pela PIDE quando era dirigente estudantil ao tempo da ditadura, Luís Salgado de Matos foi redator da revista “O tempo e o modo” (anos 1960), ligada a correntes do pensamento católico.

«Eu não gosto de fazer esse tipo de classificação, mas se ela fosse possível eu diria que o Salgado de Matos era o homem mais inteligente da nossa geração, na medida em que a inteligência é a capacidade de contradição», declarou o chefe de redação da revista, Amadeu Lopes Sabino, em depoimento publicado hoje no “Expresso” pelo jornalista e investigador José Pedro Castanheira.

Após a revolução de 25 de abril de 1974, que instaurou a democracia e agilizou o processo de descolonização, foi secretário de Estado da Economia no Governo de Transição de Moçambique (1974-1975) e diretor do “Jornal do Comércio” (1975-1976).

Integrou um grupo de aconselhamento do candidato Otelo Saraiva de Carvalho às primeiras eleições presidenciais no regime democrático, vencidas por Ramalho Eanes.

Luís Salgado de Matos presidiu, depois, ao Instituto Português de Cinema e à Administração do Teatro São Carlos, foi vogal do Conselho de Administração do Porto de Lisboa, tendo também desempenhado o cargo de consultor do ministro da Defesa Nacional, o amigo Júlio Castro Caldas (2000), e de Jorge Sampaio, presidente da República (2001-2006), para quem escreveu discursos.

«Era uma pessoa que não tinha agenda própria, que sempre revelou uma grande sinceridade e honestidade pessoal. Intelectualmente era um pensador muito viçoso e de um brilho indiscutível», comentou Jorge Sampaio.



«Ainda tinha vários projetos em mente, como um livro – que estava quase pronto – sobre a análise dos conteúdos do ensino da moral e religião católica nas escolas públicas»



«Era a liberdade e a leitura e a reflexão em pessoa», complementadas por «um cavalheirismo católico de “gentleman scholar” que lhe permitia ser ainda mais brincalhão e irónico do que o bom senso aconselharia», observou Miguel Esteves Cardoso, numa memória que mantém vívida a recordação da última vez que falaram, há 30 anos.

José Pedro Castanheira lembra que Luís Salgado de Matos foi «católico desde sempre», não tendo sido «por acaso que os seus três últimos livros foram sobre a Igreja como instituição: “A separação do Estado e da Igreja” (2011), “O Patriarcado de Portugal” (2017) e “Cardeal Cerejeira” (2018). Alguns foram apresentados ou mesmo prefaciados pelo atual cardeal patriarca de Lisboa, Manuel Clemente».

Com um «perfil vincadamente heterodoxo e à margem das tendências dominantes», Luís Salgado de Matos, além de professor no ISCTE, exerceu a docência na Universidade Católica Portuguesa, colaborando regularmente na imprensa, nomeadamente com uma coluna semanal no “Público”, entre 1998 e 2006, e aos microfones da Renascença.

Entre 2014 e 2019 foi vice-presidente da Direção do Centro de Reflexão Cristã, e alimentou os blogues “O economista português” e “Estado e Igreja”.

O Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa agradeceu-lhe «o amplo contributo que deu nas iniciativas científicas que promoveu e apoiou, assim como no acompanhamento intelectual que prestou a vários dos seus investigadores», e louvou o «amplo labor científico com que enriqueceu a História Religiosa Contemporânea nas suas muitas obras e artigos».

Jorge Bacelar Gouveia, jurista e professor catedrático de Direito, revelou que Luís Salgado de Matos «ainda tinha vários projetos em mente, como um livro – que estava quase pronto e sobre o qual fiquei de lhe dar uma opinião – sobre a análise dos conteúdos do ensino da moral e religião católica nas escolas públicas».

O funeral realiza-se na próxima terça-feira, 23 de fevereiro, antecedido por missa presidida pelo cardeal-patriarca de Lisboa, às 12h00, na igreja de S. João de Deus.


 

Rui Jorge Martins
Fontes: Público, Expresso, Presidência da República, Centro de Estudos de História Religiosa, Jorge Bacelar Gouveia
Imagem: José António Rodrigues/Visão | D.R.
Publicado em 18.02.2021 | Atualizado em 19.02.2021

 

 
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