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Luis Miguel Cintra, ano novo, livro novo: «A vida artística é sinónimo de vida de relação com os outros»

«Ser artista é relacionar-se com os outros». «Vale a pena fazer arte se for uma maneira de comunicar verdadeiramente com os outros.» «Vale a pena estar no cinema como se é, sem bagagem de técnica específica nenhuma, oferecendo a minha própria pessoa.» «No cinema sentia-me à vontade, sentia-me muito contente por poder conhecer as pessoas, por poder contribuir para a obra de Deus, e isso levou-me a acreditar na minha total exposição e não ter medo de coisa nenhuma; foi o que aconteceu também em relação a este livro.»

Os 72 anos de Luis Miguel Cintra foram celebrados esta quinta-feira, 29 de abril, junto de uma plateia que se reuniu na Cinemateca Portuguesa, em Lisboa, para assistir ao lançamento do livro resultante de uma conversa com José Manuel Costa, diretor da instituição e coordenador do volume, João Pedro Bénard e Manuel Mozos.

«É de novo ocasião de dizer alto e em bom som que o agradecimento ao Luis por toda a ajuda que deu para este livro é uma gota de água do agradecimento que queremos dirigir-lhe sempre, por tudo aquilo que ele nos deu até hoje, não só na obra de teatro e cinema que fez, em tudo em que interveio, mas também na grandeza, integridade, postura moral que pôs em tudo o que fez», afirmou José Manuel Costa.



«Eu disse que gostava muito do Evangelho de S. João e que gostaria de ler o Evangelho de S. João inteiro. Então ficou combinado que íamos fazer a gravação do Evangelho de S. João. Mas, segundo o Joaquim tinha de ser ao ar livre, porque um texto daquela natureza não admite o som fechado numa sala»



Distinguido em 2017 com o prémio Árvore da Vida-Padre Manuel Antunes, Luis Miguel Cintra «é uma referência de vida, de trabalho, moral», prosseguiu o historiador e professor de cinema na apresentação.

«A sua postura face ao trabalho, face à criação é algo que atravessa toda esta conversa, e que, em última análise, é o lado mais importante dela. Neste aspeto, é uma grande lição do que é ser ator, do que é fazer teatro, uma grande lição do que é fazer cinema, e, insisto, uma grande lição moral sobre a maneira como estamos na vida quando queremos fazer essas coisas, e, porque não dizê-lo, como estar na vida em geral», declarou.

Para o diretor da Cinemateca, a conversa revela «uma pessoa que está com uma enorme verdade a falar», ao mesmo tempo que concede «uma imensa lição» extraída «de toda a sua experiência» no teatro e cinema, entretecida, «recorrentemente», com a «relação entre o trabalho e a vida», num todo em que Luis Miguel Cintra «diz coisas profundíssimas sem parar».

Trata-se, para José Manuel Costa, de uma obra «importante sobre o cinema português e alguns dos seus maiores autores», com Manoel Oliveira, igualmente distinguido pela Igreja católica, «à cabeça de todos»: «Só por essa abordagem da relação de trabalho com Manoel de Oliveira este já seria um livro importantíssimo».



«Ficou um testemunho sobre mim, acho que muito grande. Além de ser o filme da minha relação com um texto que eles também consideram sagrado. Acho que isso é uma coisa interessante. Gosto imensíssimo do que ali está»



“Luis Miguel Cintra: O cinema” (Edições da Cinemateca, 18 €) inclui testemunhos dos realizadores Joaquim Pinto, Christine Laurent (e João Mário Grilo, antes da conversa que, ao longo de mais de 200 páginas, se divide em duas partes – “Cinema e Teatro”, “Os filmes”. Segue-se o «Álbum na primeira pessoa”, com dezenas de fotografias comentadas por Luis Miguel Cintra, e, por fim, a filmografia.

Da conversa extraímos o excerto que a conclui, respeitante ao filme “O Novo Testamento de Jesus Cristo segundo João”, de Joaquim Pinto e Nuno Leonel (2013), que o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura distinguiu com o prémio Árvore da Vida no festival de cinema IndieLisboa.

«Tudo empurra as pessoas para integrarem as artes do espetáculo como processo de vencer o isolamento e de humanizar a vida. Acho que as pessoas deviam deixar-se usar democraticvmente nesse sentido, em vez de estarem sempre a querer fazer obras-primas. O que só acontece quando há muitos Oliveiras e Paulos Rochas a nascerem. Mas não é preciso que seja sempre assim.

Há um caso nesta onda, que é um caso que prezo acima de tudo, que é a história daquele filme que fiz com o Joaquim Pinto e o Nuno Leonel que é a leitura do Evangelho. As pessoas têm dificuldade em considerar aquilo um filme. Pois eu acho que aquilo é mais filme que qualquer outro filme, porque não tem alibis de espécie nenhuma.



«Quando o filme passou no Festival de Roma, para um público de críticos de cinema e cinéfilos, a sessão acabou com a sala toda a chorar. É um filme que ajuda a perceber qual é a diferença entre o cinema e um ecrã de televisão»



Como é que foi? Vou contar, porque as pessoas não sabem. Foi assim: eles apareceram quando se anunciou que eu ia ler o Apocalipse na Capela do Rato [Lisboa]. Apareceram no próprio dia e perguntaram se podiam filmar. Claro que dissemos que sim, que podiam filmar à vontade e gravar. Depois, claro, teve que se refazer, porque havia erros e gravámos outra vez. E depois isso foi acontecendo com diferentes textos.

A certa altura, eles tiveram a ideia de fazer uma editora online, sem distribuição, completamente independente. E eu embarquei com eles. Aquelas gravações deviam fazer parte dessa editora. Com eles houve essa espécie de desejo de criar uma forma de produção desligada dos circuitos normais. Podia falhar, porque depois é muito difícil uma pessoa dedicar-se àquilo. O dinheiro aparece só de vez em quando, muito raramente. Mas eles estavam muito apostados naquilo. Isso coincidiu com a época em que o Joaquim Pinto estava muito doente e fez aquele tratamento, e portanto com a feitura do outro filme [“E agora, lembra-me?”, 2013]. Portanto, havia aquele círculo de pessoas amigas deles, pessoas que estão com eles quando eles estão a fazer cinema e que quando não fazem filmes tratam dos cães, das terras e daquilo tudo. Portanto, eu entrei dentro disso.

A seguir vieram outras conversas sobre os textos religiosos, porque naquela altura eles estavam interessados nisso. Eu disse que gostava muito do Evangelho de S. João e que gostaria de ler o Evangelho de S. João inteiro. Então ficou combinado que íamos fazer a gravação do Evangelho de S. João. Mas, segundo o Joaquim tinha de ser ao ar livre, porque um texto daquela natureza não admite o som fechado numa sala. Precisa de espaço sonoro, e portanto a gravação tinha de ser ao livre.

Ficou decidido gravar na quinta deles. Aproveitei para fazer umas férias em Peniche com o António, e marcámos um dia de filmagens. Tinha estudado aquilo e fui lá fazer a gravação. Quando cheguei lá, tinham pendurado uma tenda mosquiteiro e explicaram-me que aquilo era para se poder gravar ao ar livre, para quebrar o sopro do vento. Achei aquilo normal. Mas eu tinha que ir para uma casinha no campo, que eles tinham para guardar alfaias agrícolas. Foi lá que eles montaram uma espécie de igrejinha, com a tal tenda. E eu tinha de estar lá dentro com o livro. Não se podia abrir o mosquiteiro porque senão entravam as moscas que ficavam lá dentro a fazer zzz-zzz…



«Fico mesmo muito contente por o filme existir, gosto muito que eles tenham tido a coragem de fazê-lo e que tenham tido os meios para poder fazer coisas daquelas com o mínimo de dinheiro»



Experimentámos aquele aparato, mas aquilo demorou tanto tempo a montar que entretanto já era muito tarde. Já não podíamos gravar naquele dia, porque não dava tempo, ia fazer-se noite e não havia maneira de termos luz elétrica, e não sei mais o quê… Suspeitei que aquilo não era só a história da luz elétrica e que eles tinham prolongado o dia propositadamente…

Marcámos para o dia seguinte (o Joaquim queria era fazer tudo do princípio até ao fim sem parar, para incluir os cansaços, digamos, da leitura). Nessa altura, o Joaquim já tinha a ideia de filmar com a imagem (inicialmente tinha sido previsto apenas gravar som). Então pediram licença para que o Nuno, que não era preciso para nada e que detesta estar sem fazer nada, pudesse filmar enquanto eu estivesse a ler. E fizemos tudo de seguida, do princípio até ao fim.

O filme tem poucas ideias em relação à maneira de filmar, mas muito importantes. Por exemplo, o facto de a minha cara nunca ser vista de frente. Nunca se veem os olhos, sou sempre filmado de lado. Umas vezes há imagem, outras vezes não. São jogos sucessivos com isso, o que acaba por provocar um efeito de testemunho. Não sei explicar, uma espécie de sensibilização por processos…, pelas mínimas coisas que ocorrem em frente à câmara e que, no entanto, normalmente as pessoas não reparam. Portanto, ficou um testemunho sobre mim, acho que muito grande. Além de ser o filme da minha relação com um texto que eles também consideram sagrado. Acho que isso é uma coisa interessante. Gosto imensíssimo do que ali está.

Outro facto curioso que notei é que, quando se vê o filme na televisão, não se nota que exista isso e as pessoas chateiam-se, não conseguem ver tudo o que lá está… Quando o filme passou no Festival de Roma, para um público de críticos de cinema e cinéfilos, a sessão acabou com a sala toda a chorar. É um filme que ajuda a perceber qual é a diferença entre o cinema e um ecrã de televisão.

Fico mesmo muito contente por o filme existir, gosto muito que eles tenham tido a coragem de fazê-lo e que tenham tido os meios para poder fazer coisas daquelas com o mínimo de dinheiro. No fundo, é tendo uma câmara, e no fundo o que sai caro, depois, é a edição daquilo. A mim interessam-me todos esses processos para fugir ao mercado normal. Eu próprio não percebo como se consegue continuar a fazer cinema… Não percebo como é que é possível. Vendo-se online está bem, mas quantos e quantos filmes… como é que se sabe que existem? É preciso muita pesquisa. E, além disso, de onde é que vem o dinheiro? Não, não têm que me explicar porque eu também não estou muito interessado.»















 

Rui Jorge Martins
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 30.04.2021

 

Título: Luis Miguel Cintra: O Cinema
Autores: Luis Miguel Cintra entrevistado por João Pedro Bénard, José Manuel Costa (coord.), Manuel Mozos
Editora: Edições da Cinemateca
Páginas: 336
Preço: 18,00 €
ISBN: 978-972-619-292-3

 

 
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