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O jesuíta que amava os jardins do Sol Nascente

É considerado o «primeiro cronista europeu do Japão», tendo redigido quatro mil páginas num «português denso e arcaico», mas foram as descrições dos jardins que cativaram Cristina Castel-Branco e Guida Carvalho, coautoras do livro “Luis Fróis: First western accounts of Japan’s gardens, cities and landscapes”.

Nascido no ano de 1532, em Lisboa, Luis Fróis foi educado na corte do rei D. João III. Em 1548 juntou-se aos Jesuítas, no Colégio de Santo Antão, igualmente na capital. No mesmo ano terá partido para Goa, onde conheceu o padre Francisco Xavier, que preparava a viagem rumo ao Japão.

De Goa, Fróis foi enviado para o norte da Índia, regressando ao ponto de partida em 1551. No ano seguinte o reitor do Colégio de S. Paulo, em Goa, encarregou-o de escrever as “notícias” sobre o território.

Em 1554, Fróis testemunha a chegada a Goa do corpo incorrupto de S. Francisco Xavier. Parte, então para o Japão, como secretário do vice-provincial, mas fica retido em Malaca. No ano de 1557 regressa a Goa, onde, em 1561, é ordenado padre.

A partida, desta vez definitiva, para o Japão ocorre em 1562, onde chega no ano seguinte, depois de estada em Macau, começando de imediato a aprender japonês. Morrerá em 1597, depois de 34 anos na “Terra do Sol Nascente”.

As autoras explicam à edição do “Expresso” de 4 de janeiro que algumas das cartas enviadas pelo religioso iam para Macau, importante centro religioso, outras eram endereçadas ao papa, e também há missivas remetidas para os reis de Portugal.

«O valor histórico destas cartas é inestimável e são os documentos que encerram mais detalhes sobre a vida quotidiana dos missionários no Japão. A análise de alguns desses textos permitirá reconstituir as principais atitudes que o jesuíta tomou face à cultura japonesa, clarificando, de passagem, aspetos do diálogo civilizacional que portugueses e asiáticos travaram na segunda metade do séc. XVI», acentua a página da embaixada de Portugal no Japão.

A par destes documentos, Luís Fróis apontou as suas impressões sobre cidades, rituais, tradições, a cultura do chá. Foi aquilo que hoje se poderia chamar um “repórter”, e que mais tarde se transformou, também em termos contemporâneos, num “antropólogo”.

Em 1587 o líder do Japão emite o decreto de expulsão de todos os missionários, por considerar que a sua ação era um entrave à reunificação política do país. Ainda assim, Luís Fróis continua a sua missão, agora na clandestinidade, dedicando a maior parte do tempo a redigir a sua “História do Japão”.

Em 1597, o religioso concluirá aquela que é considerada a sua melhor obra, “O relato da morte dos 26 Mártires de Nagasaki”, cidade que o homenageou com um monumento.

 

Jardins, inspiração para a criação artística ou para o encontro com o divino

«Os encantatórios jardins que fascinaram Fróis resistiram à erosão do tempo, e 16 permanecem visitáveis, estando 11 classificados pela UNESCO como Património Mundial», destaca o jornalista André Manuel Correia.

Ao longo de uma década, a partir de 2007, Cristina Castel-Branco realizou sucessivas expedições ao Japão com o propósito de estudar os lugares descritos por Luís Fróis, nomeadamente nove cidades e 23 jardins – 17 em Quioto, seis em Nara, «reportados detalhadamente».

«Os jardins são locais que proporcionam uma inspiração transcendental, que tanto pode servir para a criação artística como para o encontro com o divino», observou o missionário, que depressa relacionou as belíssimas paisagens com uma filosofia, um estilo de vida.

A obra, em inglês (ed. Springer, 103,99 €) reúne as descrições dos jardins feitas há mais de 450 anos, comparando-os com o seu estado atual, refere igualmente as narrativas sobre cidades e paisagens, e destaca o encontro de culturas entre Oriente e Ocidente, que numa primeira fase foi pacífico, permitindo, além da troca de conhecimentos e de interesses, uma rápida absorção do catolicismo num território predominantemente budista e feudal.

O volume enquadra a presença portuguesa no território, de 1543 a 1600, salientando «os primeiros esforços de globalização do mundo, que resultaram em comércio lucrativo, a introdução de armas de fogo portuguesas, que mudaram a história do Japão, os avanços científicos, a expansão religiosa e muitas trocas artísticas que duraram ao longo de séculos», refere a sinopse.

Cristina Castel-Branco publicou, em 2007, “Félix de Avelar Brotero – Uma história natural”, investigação sobre o cientista que veio a ser homenageado pelos Jesuítas com o título da sua revista, “Brotéria”.


 

Rui Jorge Martins
Fonte: Expresso
Imagem: Crisfotolux/Bigstock.com
Publicado em 10.01.2020

 

 

 
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