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Liturgia: Celebrar como corpo total

Atualização existencial e imaginativa

1. Liturgia é uma ação cultual, comunitária e pessoal, em consonância com os ritos e gestos apropriados a Deus; pensamento e sentimento de comunhão participativa em alegria diante do mistério pascal, imersão de fé na anamnese da história da salvação; atualização existencial e imaginativa do acontecimento salvífico na comunidade e no rito celebrativo. O sentido da liturgia implica a presença real de Cristo, tornado carne, no modo de a comunidade celebrativa experimentar, espiritualmente, o evento glorioso e verdadeiro: “Splendor veritatis”, que é “Splendor Dei”. Liturgia implica um espaço de liberdade interior para inovar e criar, mas com ordo, pois trata-se de assumir, contemplar na presença do mistério de Deus, sentir, em ambiente descontraído e livre, o espaço da ternura de Deus, sentir, com a cultura verdadeira, o conforto do seu acolhimento e responder-Lhe com gestos de louvor, imergir no mistério da salvação, gozar e experimentar espiritualmente o amor de Deus, acolher a presença do Espírito Santo, graça em nós, tornada experiência de louvor espiritual, abrir espaço à liberdade de Deus em nós. A liturgia é sempre da Igreja e para a Igreja, pois respeitando os ritos próprios, propicia-se a realização de todo o corpo eclesial, que em união, partilha os mistérios divinos, quer quando, por exemplo, o ministro celebra só a eucaristia todo o corpo eclesial está presente e, ainda, toda a celebração eclesial de um determinado lugar, é celebrada como corpo total de Cristo e mistério sagrado de toda a Igreja.



Imagem "'Velamen' do sol" | © Joaquim Félix


Jesus vem com as nuvens

2. Na liturgia experimentamos, espiritualmente, a presença de Deus em nós, não culto particular, mas, em comunhão eclesial, descobrimos a alegria do evangelho e, liturgicamente, alimentamo-nos na fonte da fraternidade, oração ecuménica, espaço sinodal universal de crentes e não crentes. Em todo o momento celebrativo da missa, paradigma da presença de Deus que, desde o momento da abertura, com a saudação do ministro da celebração, somos convidados à conversão, peregrinos em viagem, inacabados, mas crentes e confiantes na eficácia do rito, antecipamos já, em momento prolético, a presença escatológica de Deus em nós; união, diálogo e tom dramático, pelas respostas uníssonas na assembleia em participação. Viver a liturgia é estar sempre disposto a acolher o sacramento crístico, história da salvação em nós, tornado presente no rito, nos gestos, nas palavras e deixar o Espírito Santo agir em nós, como corpo eclesial e sentir-se transformado, convertido. A própria formação nos ritos litúrgicos ajuda a viver o verdadeiro significado da liturgia, acolhendo os dons de Deus a tornarem-se efeito de transformação, uma ação em progressão para Deus. Neste sentido, a formação teológica, a catequese, são pedras de toque mobilizadoras, sobretudo na celebração da missa: guiados pelo celebrante principal (ministro), abrimo-nos à vivência da experiência de Deus em nós, saboreamos, na ação dialogada, já, Deus nos ritos em hinos de louvor e ação de graças. E, quando escutamos a palavra da escritura, palavra de sentido teológico, Deus torna-se carne, a palavra recebida e compreendida, torna-se palavra de ação transformadora; através da experiência litúrgica, o fiel em rito celebrativo, faz a experiência sacramental de Cristo. É neste ponto da palavra teológica que, em meu entender, poderá ser mais valorizada, porque o fiel, pela escuta e acolhimento que faz da palavra, sente-se destinatário de uma mensagem de transformação pessoal e comunitária, ao partilhar em comunidade a palavra que se torna atualizada e frutuosa na liturgia da celebração: resposta cristã, oferenda em gestos de louvor e caridade aos irmãos. Sobretudo, ler a bíblia à luz dos acontecimentos e os acontecimentos à luz da interpretação bíblica, como disse Bento Domingues no passado dia 28 de novembro, no jornal Público. O Papa Francisco, na homilia da celebração de Cristo Rei, dirigindo-se aos jovens e, explorando a leitura do apocalipse de S. João – que “Jesus vem com as nuvens”, uma linguagem carregada de significado e simbologia. Porém, Papa Francisco encetou uma desmontagem imaginativa e poética da palavra e aplicou-a à vida dos jovens, alimentando-os com metáforas de luz, rasgou véus, abriu horizontes de esperança. Celebrou, através de uma leitura que poderia ser ritualista e descarnada, a palavra ativa e transformadora, restaurando a mensagem “gasta” e abrindo-a em virtualidades positivas, atuais e transformadoras de vida, criando e adequando sentidos novos, onde, aparentemente, parecia não haver sentido nenhum, abriu pistas de interpretação para a vida transformadora dos jovens. “O Senhor que vem do alto e nunca desaparecerá, é aquele que resiste a tudo o que passa, é a nossa confiança inabalável e eterna”, disse Francisco. Significa que o Senhor “vem com as nuvens” para trazer a tranquilidade e abrir caminhos de luz, mesmo sendo escuros para quem os vive, na realidade da sua vida concreta. Ele é o verdadeiro Senhor. A palavra é liturgia, espaço de formação e catequese, pela hermenêutica do sentido poético “Deus continua a falar e anunciar-se na sua palavra” (SC 33), ou a assunção de uma “simplicidade, clareza e adequação à compreensão dos fiéis” (SC 34). Na homilia do ministro celebrante, com ligação ao contexto existencial e histórico-cultural, o fiel atualiza e renova na vida eclesial celebrativa, o mistério sacramental de Cristo que, por motivação recebida, produz os frutos da caridade, constrói fraternidade comunitária e operosa. Na homilia, a palavra funda sentido litúrgico, na procura do verbo conquistado, que se abre ao acolhimento da revelação, e do mistério do sagrado; desvendar a palavra criativa é permitir que a força do Espírito Santo se nomeie, desvende o segredo no ordo e na alegria, em corpo eclesial em cantos de louvor e ação de graças.



Imagem Senhora da Humildade revestida de outono | © Joaquim Félix


Maior qualidade da participação

3. Outro sentido que me apraz destacar é a explicação e significado dos ritos celebrativos, formação para a liturgia, tentativa de aproximação às fontes, por exemplo, renovação batismal, em plena celebração eucarística, partindo do sinal água e renovar a identidade da fé cristã em pleno ato litúrgico e celebrativo. Assim, também, através da própria explicação pedagógica do próprio rito litúrgico celebrativo, ajuda o fiel a uma maior consciência na qualidade da participação do rito, a saber, a valorização dos ritos, maior aproximação do rito à vida, que eleve a uma ação favorável, por parte de quem participa e se dispõe a sentir os efeitos da sua transformação, sobretudo na dimensão epifânica da liturgia eucarística, à vivência do mistério sacramental de Cristo; experimentar a profundidade do mistério do sacrifício de Cristo e sentir-se provocado a uma intervenção ativa e cooperante, decorrente do acontecimento litúrgico vivenciado. A liturgia não é ritualismo e tibieza, expressão monótona e solitária dos ritos, “pietismo popular particular”, mas movimento eclesial de epifania e fruição em presença de Deus, sentir-se em festa e sintonia, fazendo-se resposta e gesto cariológico. Pela formação litúrgica, o fiel caminha à procura da fonte da “água viva”, que frutifica em obras concretas: ação missionária da palavra, sinal de fé e cura, prestação de serviços.


Imagem "Sacrifício", escultura de Mircea Roman (exposição em Vila Nova de Cerveira | © Joaquim Félix


Firmeza nos ritos a manter e simplificação ponderada na inovação

4. A dimensão e valorização histórica é essencial para a apreensão, por parte do fiel, do significado e simbologia da liturgia; notar o movimento diacrónico da evolução dos ritos litúrgicos e a sua realização sincrónica, forma atualizada na história, ajuda-nos a melhor compreender os ritos atuais. Na palavra de Romano Guardini, a liturgia é como um “jogo,” uma brincadeira (séria e fiel às regras) de criança, estar diante de Deus, filho diante do Pai, momento criativo, em ritmo de liberdade, o canto, uma dança de confiança, de querer saborear Deus com cantos e alegria, face ao esplendor de luz que Ele oferece. Nesta linha, valorizamos a história da liturgia, como forma atualizada e comunitária do fiel celebrar e experimentar a vida de Deus nos ritos celebrativos.

Os Padres da Igreja identificaram a liturgia como culto em honra do Senhor, a eucaristia, entendida como sacerdócio de Cristo, o culto da Igreja.  Se, de facto, a liturgia celebra o Mistério Pascal, a obra salvífica de Cristo, como levar à prática, na comunidade, os sinais que manifestem a obra divina da redenção? Como viver, atualmente, a presença de Cristo, Mistério Pascal, nos ritos? Segundo a Mediator Dei (Pio XII) 1947, a liturgia é a realização do culto próprio de Cristo, e se torna culto da Igreja; como culto sacerdotal de Cristo, implica a santidade do próprio homem que, pelo rito, se realiza a imagem de Cristo santificador. Valoriza-se o efeito positivo do símbolo, através do sinal e imagem sacramental de Cristo; assim, o fiel, ao acolher esse sinal, põe-se em contacto com Cristo. Com a implementação da Constituição Sacrosanctum Concilium, o Vaticano II propiciou uma renovação e um maior sentido de vivência da liturgia, firmeza nos ritos a manter e simplificação ponderada na inovação. Sobretudo a valorização da Missa – a presença de Cristo nas ações litúrgicas, no ministro e nas espécies eucarísticas, na prática dos outros sacramentos; na palavra, da leitura da Escritura, na oração da Igreja, “que invoca o seu Senhor e por meio dele rende culto ao Eterno Pai.” (SC 7).


Imagem "Da fonte do orvalho" | © Joaquim Félix

 

Ismael Malhadas Vigário
Aluno de Mestrado Integrado em Teologia (UCP)
Imagem de topo: "Calix Mundi", obra de Asbjørn Andresen | © Joaquim Félix
Publicado em 16.12.2021

 

 
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