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Liliam, uma vida de escrava: Explico-vos porque é que isto não é um trabalho

Dos seus 41 anos, Liliam viveu 23 como escrava. Presa aos abusos e às violências desde criança, quando num pardieiro no Recife, Brasil, os homens da família usavam o seu corpo para tudo: satisfação pessoal, fazer as compras, comprar droga, prestar favor aos amigos. Ela sorria sempre, por causa daquele defeito – parece zombaria – que a mãe natureza lhe colou ao rosto desde que nasceu: os lábios puxados à imagem do esgar do Joker no lugar do terror e do sofrimento.

Por isso, ninguém tinha piedade dela, nem quando, no fim, a venderam: carne de matadouro para o tráfico de órgãos na longínqua Europa, fazendo-a chegar primeiro à França, depois à Alemanha, corpos de crianças desnudadas e estendidas no chão de um apartamento de Dortmund, para selecionar os “pacotes” destinados ao mercado do horror. «Pensava que finalmente seria morta, que seria libertada». Mas não, permanecia aquele sorriso, e o “gringo” que decide quem vive e quem morre escolhe-a para o seu bordel: «Agradas-me, porque não choras. Levo-te comigo».

Na Alemanha da lei sobre a prostituição – que desde 2002 é considerada um texto de civilização, regulamentando o “ofício” e tutelando as mulheres do ponto de vista sanitário –, as crianças são, então como hoje, vítimas de um circuito invisível e ilegal que produz lucros em permanência. Como se a diferença entre a violência e o trabalho fosse decidida por um registo civil. «Levavam-nos todos os dias para uma casa diferente, por homens diferentes, de manhã a cocaína para sermos colaborativas, dóceis», recorda Liliam.

Todos os dias durante quatro intermináveis anos, até aos 18, quando a jovem decide que não podia mais, e lançou-se do sétimo piso. Sobrevive, desperta do coma, volta ao seu “dono” alemão, que lhe diz: «Liliam, podes fazer tudo aquilo que quiseres, basta que me pagues a dívida que tens comigo».

E a dívida nunca mais acabava: as visitas, as compras, os vestidos, os medicamentos, a droga. Liliam pensa que a única maneira de sair do pesadelo é encontrar um homem que a ame e que se case com ela. E encontra-o, só que é violento. Bate-lhe, humilha-a, e ela, às escondidas, continua a pagar as suas dívidas prostituindo-se, até que, quando fica grávida, decide fugir de tudo, inclusive dele. Destino: Turim. É ali que em 2006 consegue reconstruir a vida longe de tudo e de todos.

Coroa o seu sonho, começa a trabalhar numa loja e torna-se pasteleira, conhece um outro homem que se casa com ela, dá-lhe mais duas filhas, depois as coisas acabam mal, de novo: «Nunca compreendeu quem eu era, o que tinha vivido, como mudei. Sai-se da prostituição, mas só com o corpo. Cada homem, cada estupro é como uma bomba atómica que devastou primeiro a alma com o seu impacto, depois com as radiações. Sobrevive-se, mas continua-se a morrer. E esta devastação não pode ser chamada trabalho, não pode ser pedida ou regulamentada por um país e por um governo».

Hoje, Liliam está num grupo de referência pela luta contra a prostituição. Ajuda as jovens que, como ela, tentam libertar-se da escravidão, enquanto a política debate o tema nos salões, distante da realidade que vivem as vítimas. «A única razão que tenho para continuar a viver da maneira que descrevi, com as minhas radiações, é a de impedir que a outras aconteça aquilo que me aconteceu. Tentar salvá-las, tentar que elas vivam. O meu sentido, hoje, é este.»


 

Viviana Daloiso
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: structuresxx/Bigstock.com
Publicado em 13.07.2021

 

 
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