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Rumo ao amor, dia 40: Liberdade

Olho-te quando passas a porta da casa, quando te sentas ao domingo nos tapetes da igreja, e um desejo de proteção me toma por todas as sementes de mudança, de ternura, de perdão e de amor que trazes no coração. Não chegas cheio de orgulho ou de desespero, mas como buscador humilde de esperança, aberto àquele momento raro e mudo da vida em que não mentes mais, não finges o que não és, não foges, não te escondes.

Como Jesus, desejo defender-te das presunções dos depositários da verdade, das liturgias pesadas, das regras que não respeitam a tua história e as tuas feridas.

Escapaste de mestres que não te olham na cara, que pesam os gestos, que organizam a santidade como um itinerário.

É a liberdade de Jesus que fascinou o teu coração, uma liberdade que pede para que não te refugies em ninhos ou covis seguros, mas para permaneceres sempre a caminho, que te tira da massa para te permitir viver a tua unicidade.

É hipocrisia a observância exterior que não liberta, que não discute as atitudes profundas, não torna capaz de superar os preconceitos e faz sentir bem porque se observam todas as regras. A verdadeira liberdade entra no coração com uma lâmina de dois gumes, incide em profundidade, perturba e faz optar, torna-te independente da vontade dos outros e das tuas paixões, dos excessos da mente, do corpo e da alma.

Ser-se livre exige a coragem de percorrer caminhos que ainda ninguém percorreu, de pensar ideias que ninguém ainda pensou.

A liberdade é um espaço que chama, que nos obriga a redefinir a nossa finitude, a traçar novos limites.



O fanatismo começa em casa com o querer mudar uma pessoa amada por vias furtivas e ínvias, tomando pela mão, corrigindo, maltratando, enquanto só se as portas do coração se abrem como as pétalas de uma flor é que ficamos seguros de que é obra de Deus.



As pessoas religiosas são sempre tentadas, como Jonas e como o irmão maior da parábola do filho pródigo, a não aceitar a liberdade e a lamentar-se. Em vez de nos lamentarmos de Nínive, a grande cidade, ou de não aceitar a liberdade do irmão, seria melhor perguntar-nos se é a grande cidade ou o irmão pródigo que estão distantes dos homens religiosos, ou se são os homens religiosos que estão distantes da grande cidade e de quem se afasta.

Vivemos fechados no cenáculo como quem ainda não viu o Cristo ressuscitado e não acolheram o Espírito. Vivemos de medos que aos poucos nos tornam indiferentes, e depois mornos, até tornar a vida uma série de ritos.

Produzimos coisas opressoras e penosas de cada vez que quisemos deter Jesus, que está sempre a caminho, quando em vez de libertar as pessoas as tornámos escravas, quando tentamos simplificar a realidade complexa e contraditória do caminho, dizendo “ou estás dentro ou estás fora”.

Quando João e Tiago pedem a Jesus para usar ferro e fogo para com quem é diferente, Ele diz “deixai-os”: o Evangelho não se impõe, mas dá-se com a criatividade, a beleza, o amor e a liberdade.

O fanatismo é mais antigo do que o islão, do que o cristianismo, do que o judaísmo, mais antigo do que todas as ideologias, está presente à nossa volta e dentro de nós, é ver um traidor em cada mudança. Esconde-se na retidão inflexível e no desejo de que todos os outros pertençam a uma única forma.

O fanatismo começa em casa com o querer mudar uma pessoa amada por vias furtivas e ínvias, tomando pela mão, corrigindo, maltratando, enquanto só se as portas do coração se abrem como as pétalas de uma flor é que ficamos seguros de que é obra de Deus.

O ser humano faz a experiência de Deus na necessidade, na desorientação, na fome e em cada espaço sonhado de liberdade. Voltemos à liberdade de um Deus que se faz criança e que não concede repouso, que não se adapta a nenhuma habituação, não se faz encontrar, deixa apenas pegadas para nos manter a caminho.


 

Luigi Verdi
In Il domani avrà i tuoi occhi, ed. Romena
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Tonktiti/Bigstock.com
Publicado em 07.04.2020

 

 
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