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Lamentação e lágrimas: Martha Graham e Senhora das Dores

[Praenotanda: O presente texto pode ser interpretado tanto como um Requiem por todos os mortos que a pandemia está a causar, como um excerto de Livro da Consolação por todos aqueles que choram a partida dos seus, ou lamentam as dores e os danos ‘covidianos’. Nele há, propositadamente, dança, coreografia, música, poesia, escultura… Se com tempo e desejo, seria aconselhável seguir a leitura abrindo os links em nota de rodapé. Que relação poderá estabelecer-se entre a dança Lamentation, da bailarina Martha Graham, com a escultura de Nossa Senhora das Dores? Como esta, outras perguntas se podem levantar. Os leitores estarão nelas e nas respostas.]

Cidades e aldeias choram. Como nuvem invisível, a epidemia corre cobrindo o mundo de morte e luto. Humilhada, a humanidade lamenta-se de penosos danos e de irmãos que partiram. É tempo de chorar com quem chora (cf. Rom 12,15), de comungar lágrimas. Por certo, a alegria regressará, e então nos alegraremos. Assim o recorda o Eclesiastes: «há tempo para todo o propósito debaixo do céu» (Ecl 3,1). E, como tal, há «tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar» (Ecl 3,4). Mas também, como de seguida veremos, tempo para lágrimas que nascem da dança, quando esta interpreta a dramática expressão da existência humana.

Na passagem do séc. XIX para o séc. XX, duas bailarinas e coreógrafas, Isadora Duncan e Martha Graham, contribuíram decisivamente para a renovação da dança, sendo, por isso, consideradas precursoras da sua expressão moderna. Liberta dos modelos do ballet clássico, Isadora dançava descalça, de cabelos soltos, à imagem das dançarinas que figuravam na cerâmica helénica, improvisando movimentos do vento, de animais e plantas, ao som de Chopin, Beethoven e Wagner (1). Com tal ousadia, não foi preciso esperar muito para se ver confrontada com juízos desfavoráveis, manifestos logo nas primeiras audições que apresentou em San Francisco, sua terra natal. É caso para recordar: «Um profeta não fica sem honra senão na sua terra, entre os seus parentes, e na sua própria casa» (Mc 6,4). Porém, a forma como dançava, comentara um diretor, «era mais apropriada para uma igreja do que para um teatro» (2). Ela própria tinha consciência dessa adequação, gerada na «ligação entre a forma e o sagrado, entre a beleza e o divino; (…) na base deste vínculo está o corpo humano, vértice da beleza e do divino» (3).



Imagem PeiJu Chien-Pott in Martha Graham’s “Lamentation” | © Brigid Pierce


Por sua vez, Martha Graham desenvolveu uma longa carreira, por mais de setenta anos, tendo falecido a 1 de abril de 1991, aos 97 anos. Também sensível à beleza do corpo, nas suas articulações com o divino, saltou os cânones clássicos da dança, através da invenção de inéditas linguagens do movimento, não tanto ligadas à natureza, para revelar os sentimentos mais profundos da experiência humana: paixão, raiva, êxtase, dor. Sentimentos que ela experimentou, ao longo da sua vida. Em 1994, no documentário The Dancer Revealed, disse: «Passei toda a minha vida com a dança e sendo bailarina. A vida permitindo usar-te de forma muito intensa. Às vezes não é agradável. Às vezes é terrível. Mesmo assim, é inevitável».

Decorria o ano de 1930, quando Martha apresentou, em Brooklyn, a dança Lamentation. Ainda não a tinha dançado muitas vezes. Segundo ela, era uma dança de tempos imemoriais, antiquíssima, portanto, tal como o tema; era «a tragédia que obsidia o corpo» (4). Esse obsidiar, em cerco total do corpo, depreendia-se imediatamente no desenho do seu vestido, que ela qualifica como um ‘tubo’. Dentro desse ‘tubo’, o corpo debatia-se, como alguém que «estivesse esticando-se dentro da própria pele».



Imagem "Lamentation", Martha Graham Dance Company | © Sergieff, Mike


No final dessa apresentação em Brooklyn, uma jovem procurou-a, para lhe dizer: «A senhora nunca saberá o que, esta noite, fez por mim. Obrigado». E, depois destas palavras, saiu.  Martha precisava de mais informação para entender o agradecimento. Na sua memória ficou impresso o seu rosto; segundo ela, calmo, mas duma serenidade que sucede no rasto das lágrimas. Interessada, procurou saber algo mais sobre aquela jovem. Disseram-lhe, entretanto, que ela teria visto o seu filho morrer à sua frente, atropelado por um camião. Todavia, perante a dramaticidade do infortúnio, ela não conseguiu chorar. O choque terá sido tal, que se lhe fechara o próprio corpo. Fizeram esforços para que ela chorasse, mas em vão; definitivamente, não vertera uma lágrima.


Imagem Martha Graham in Lamentation, No. 1 | © Moselsio, Herta

Imagem Martha Graham in Lamentation, No. 3 | © Moselsio, Herta


Este tipo de comportamento não pode ser lido na perspetiva da ‘insensibilidade’; para mais, de uma mãe. A psicologia consegue identificar possíveis causas de tais reações, aparentemente ‘incomuns’. E pode, como é desejável, ajudar as pessoas a superar tais experiências traumáticas.  Sucedeu que, no caso desta jovem mãe, foi a dança Lamentation que ‘desbloqueou’ o seu choro. Martha Graham acabaria por revelar a sua confidência: «Mas quando viu Lamentation, ela disse que a dor era digna de honra e que era universal. E que ela não precisava de ter vergonha de chorar pelo seu filho». Naquela dança, ela experimentara o corpo cercado a debater-se, a estremecer à vibração das cordas do piano à força de martelos. Corpo que, às vezes, era todo cálice levantado, poço onde se cai fundamente, súplica e grito em vastos ecos, carícia de mão para mão, rosto derrubado até ao chão e sob a máscara da dor…, vinculado e suportado por um largo banco. E, então, ela chorou.


Imagem Martha Graham in Lamentation, No. 18 | © Moselsio, Herta


O dom das lágrimas

Há danças que rebentam os diques do corpo. Não temos de ter vergonha de chorar. Nem perante a morte dos outros, multiplicada neste tempo, nem mesmo no escuro silêncio de um filme. José Tolentino Mendonça, na introdução ao livro que traduzimos, O dom das lágrimas, chama a atenção para a vergonha que nos pode atingir: «Talvez a nossa civilização repita incessantemente o gesto de Ulisses, que preferiu cobrir a face, com um largo manto de púrpura, quando, ao escutar o canto do aedo, se envergonhava que lágrimas lhe caíssem dos olhos» (5). Mais do que ao toque da lira, numa viagem de regresso definitivo, também nos são oferecidas as lágrimas, como um dom. Não o recusemos nem o escondamos. A vergonha não pode tornar-se máscara de nossos flumíneos rebentamentos. Como recorda José Tolentino, as lágrimas tornaram-se a ‘marca flúmen’ de outros navegadores do espírito (nos Padres e Madres do deserto e da Igreja, nos místicos, etc.), bem expressa na tradição cristã, que se hidrata na tradição bíblica, desde logo nas lágrimas de Cristo.


Imagem D.R.


Na sequência da expressão «pelas minhas lágrimas, conto uma história», de Roland Barthes, José Tolentino apresenta-as assim: «As lágrimas são um mapa pleno de significação e de leituras. Temos muitas maneiras de chorar e o modo como o fazemos revela não só a temperatura dos sentimentos, mas a natureza da própria sensibilidade. Ao chorar, mesmo na solidão mais estrita, dirigimo-nos a alguém: esforçamo-nos para que ninguém veja que choramos, mas choramos sempre para um outro ver. As lágrimas emprestam um realismo único, irresistível à dramática expressão de nós próprios. São um traço tão pessoal como o olhar ou o mover-se ou o amar» (6). E, no final da introdução, após a colação de registos patrísticos, acrescenta: «as lágrimas são uma fala estimada, uma chuva de ouro, um alagado lençol de piedade que dança sobre o mundo. Elas soletram, à imensa escuta de Deus, o segredo da compunção. E a compunção é o ordálio da alma, um trânsito que nos reconcilia com a inapagável saudade de Deus» (7).

Pena é que este pequeno livro, que contém orações aparecidas desde os séculos VIII-IX, e conhecidas sobretudo a partir das ‘Missas de Alcuíno’, esteja há muito tempo esgotado. Num gesto de atenção, João Bénard da Costa escreveu sobre ele uma crónica, publicada no jornal Público, onde resumia: «O livrinho que, agora, Manuel Rosa me pôs nas mãos e que daqui tanto lhe agradeço - é uma antologia de orações da antiga liturgia cristã, escolhidas e traduzidas por José Tolentino Mendonça e Joaquim Félix de Carvalho. Tem na capa (cabeça, busto e braço) da Madalena de Artemisia Gentileschi que está no Pitti (o que eu gosto desse quadro!) e chama-se O Dom das Lágrimas» (8). Se reeditado, muitos poderiam continuar a suplicar nestes termos: «digna-te dar abundância / luz da inteligência verdadeira a estes submissos servos / lágrimas aos olhos / contrição ao coração / até que purificados do atual luto e da tristeza espiritual / da morte eterna nos afastemos como de uma ruína» (9).

A estas orações, o Papa Francisco dedicou-lhe um apontamento na catequese que fez no dia 12 de fevereiro do presente ano. A partir dos dois significados, que explora nas Escrituras, ele disse o seguinte, a propósito do sofrimento pela morte ou dor de alguém: «Trata-se, portanto, de amar o outro de modo a vincularmos a ele ou a ela, a fim de compartilhar a sua dor. Há pessoas que permanecem distantes, um passo atrás; por vezes é importante que os outros abram uma brecha no nosso coração. Falo sempre do dom das lágrimas, e de como isso é precioso. Pode amar-se de maneira fria? Podemos amar por dever? Certamente que não. Há pessoas aflitas para consolar, mas às vezes também há consolados para afligir, despertar, que têm um coração de pedra e se esqueceram de chorar. Também é necessário despertar as pessoas que não podem ser movidas pela dor dos outros. O luto, por exemplo, é um caminho amargo, mas pode ser útil para abrir os olhos à vida e ao valor sagrado e insubstituível de cada pessoa, e neste momento apercebermo-nos o quão breve é o tempo» (10).

Oh, como é difícil o luto! Abundantes são as lágrimas! Sim, em tantos que choram seus familiares e amigos, que sucumbem no afogamento da pandemia. À semelhança de tantas pessoas, também tenho participado em funerais de amigos (o último foi do Professor António de Oliveira Fernandes). É-me difícil abrir o choro. É raro que me vejam chorar! Porquê? Porque não choro? Não. Por vergonha do brilho das lágrimas? Talvez. Sim, mas são-me sonoras como noturnos.

Em todos os funerais recordo-me de uma passagem das Confissões de Santo Agostinho. Gostaria de transcrevê-la, pelo bem que proporcionará aos leitores. No capítulo IV, Agostinho refere a morte de um amigo de infância, com quem tinha brincado, se deslocou à escola e cresceu. E, no capítulo sucessivo, medita sobre o conforto das lágrimas, neste modo cheio de perguntas: «E agora, Senhor, que essas coisas já passaram, agora que o tempo sarou minha ferida, poderei ouvir de ti, que és a própria verdade, aproximando o ouvido de meu coração de tua boca, o motivo por que o pranto é doce aos desgraçados? Acaso, mesmo presente em toda parte, repeliste para longe de ti nossa miséria, permanecendo imutável em ti, enquanto deixas que nos envolvamos em nossas provações? E, contudo, se nossos lamentos não chegarem a teus ouvidos, não haverá para nós esperança alguma. Mas, por que motivo dos gemidos, do choro, dos suspiros e das queixas colhe-se como fruto doce do amargor da vida? Esperamos que nos ouça? Virá daí a doçura? Isso acontece na oração que leva em si o desejo de chegar a ti; porém, poder-se-á dizer o mesmo da dor da perda ou do pranto que então me avassalavam? Eu não esperava ressuscitar meu amigo com minhas lágrimas, mas limitava-me a me condoer e a chorar minha miséria, pois eu havia perdido minha alegria. Ou será que o pranto, que é amargo em si mesmo, se torna um deleite quando, pelo fastio, aborrecemos os prazeres que antes nos eram gratos?» (11).

Abundantes são as páginas escritas por Padres da Igreja sobre as lágrimas pelos defuntos, em contexto de luto. Entre outras, podemos ressaltar as que Santo Ambrósio escreveu numa elegia (12) dedicada à morte de seu irmão, Sátiro. Proponho, todavia, que passemos a outras lágrimas, no caso, de Maria, mãe de Jesus, que nos podem libertar mais do que ressuscitar mortos.

 

Senhora das Dores


Imagem "Nossa Senhora das Dores" | iIgreja de S. Paulo, Braga | © Joaquim Félix


É frequente encontrar representações de Maria em lágrimas. Há inclusive a invocação da Senhora das Lágrimas, como em Siracusa (Sicília). Destas Senhoras, visitei uma muito discreta no modo como tristemente chora, sem recorrer ao milagre. Grande parte de suas lágrimas acompanharam a pele (tinta) que se desprendeu da face. Encontra-se numa igreja românica, em Sundre, na Gotlândia. Sozinha, detém-se no ângulo da nave junto do arco cruzeiro, com o rosto em rasto de pranto. Seus olhos ditam uma imensa dor. E suas mãos contorcem-se em afago recíproco. Recordo como, à sua sombra, a jarra estava vazia, melhor, cheia de luz; e, à frente, a lâmpada apagada. Terá pertencido a um antigo calvário do séc. XIII. Certo é que os iconoclastas, vendo Maria lacrimante, não tiveram coragem de a destruir. Terão tido compaixão dela?


Imagem "Nossa Senhora das Lágrimas" | Igreja de Sundre, Gotlândia | © Joaquim Félix

Imagem "Nossa Senhora das Lágrimas" | Igreja de Sundre, Gotlândia | © Joaquim Félix


Também a Senhora das Dores, que se encontra num altar lateral na igreja de S. Paulo, em Braga, cedeu parte das lágrimas. Só um olhar atento as pode imaginar enxugadas na toalha de linho, colocada sobre a mesa do altar. Como todas as esculturas desta invocação, Maria sustenta o seu coração cravado de sete espadas. Na sua direita, ela segura uma fita com um ‘escapulário’. Sentada, ali se encontra, vestida com um véu azul, sobre um vestido de cor violácea. Uma coroa de estrelas acende-lhe o pensamento. E, por toda a talha dourada, os anjos dançam Lamentos.

Do séc. XIII é a sequência Stabat Mater, cuja autoria é atribuída a Jacopone da Todi ou ao papa Inocêncio III. Neste hino, que o Concílio de Trento aboliu do missal romano, mas que acabaria reintroduzido, em 1727, pelo papa Bento XIII, na festa de Nossa Senhora das Dores, cantamos as dores de Maria, inclusive as suas lágrimas e, por elas, imploramos o nosso pranto: «Quem é que não choraria, / Ao ver a Virgem Maria, / Rasgada em seu coração // Maria, fonte de amor, / Fazei que na vossa dor / Convosco eu chore também. // Cada lágrima chorada / Lembra uma estrela tombada / Do fundo do vosso olhar» (13). Teremos já ouvido esta sequência, na liturgia ou em concertos, e atestamos a sua pungência, sobretudo quando acompanhada de música.


Imagem "Nossa Senhora das Dores" / Detalhe do pé direito | Igreja de S. Paulo, Braga | © Joaquim Félix


Antiga é, ainda, a tradição de colocar na boca da Senhora das Dores palavras do livro de Lamentações. Ei-la, em dor sem par, a pedir detenção, um voltar-se: «Todos vós que passais no caminho! / Virai-vos e vede se existe dor / Como a minha dor, que aconteceu» (Lm 1,12). Ei-la, como Jerusalém, humilhada e lutuosa, em solitário pranto: «O meu olho fez descer água» (Lm 1,16). Ei-la, no silêncio da noite, em noturnos lacrimejos. «Chorando chorou de noite; / E as lágrimas dela estavam na sua face» (Lm 1,2). A poeticidade não é lenitiva, não suaviza as dores. Seguramente a música ajudará a compadecermo-nos, a comungar sua dolência. Escutemos, por exemplo, as Lamentationes, segundo Emílio de’ Cavalieri, e sentiremos Jerusalém na Dolorosa.

Vendo-a, não podem falhar nossos olhos, devido às lágrimas (cf. Lm 2,11). Sim, nesta vida, repito, nossos olhos não podem falhar (cf. Lm 4,17). O lacrimário pode humedecer-se como roupa no lavadouro ou no tambor, mas não podemos parar nossos salmos (cf. Lm5,14). Para os seletos de Jerusalém, a sua dança converteu-se em sofrimento; para nós, porém, o sofrimento presente há de transformar-se em dança. Jerusalém «está mais perdida do que numa encruzilhada / E venda os olhos porque qualquer luz / Ou a mínima palavra (ou a noite) / Lhe ferem os olhos rompidos de saudade» (14). Ainda que erodidos os olhos, jamais nos vejamos sós, com um coração tão solitário que nem os perdidos. Há quem dance para nós, e neles nos solte em tépido lavacro.


Imagem "Nossa Senhora das Dores" / Detalhe da mão que segura o coração | Igreja de S. Paulo, Braga | © Joaquim Félix


Martha Graham e Nossa Senhora das Dores interpretam Lamentação. Ambas sentadas, como Jerusalém (cf. Lm 1,1). Até na cor do vestido, violeta-primaveril (15), comungam. É a cor da tristeza. Contida por um tempo no recluso da vertigem, também ela se revela na tensão do adventício, na demanda da luz. Oh!, e aquele longo banco, de igual para igual, será resignação? Não será antes o sinal da espera? De um atender suportado? A ferida escultura da Dolorosa, em madeira, pode à primeira vista não sugerir os movimentos de Martha, em expressivos gestos icónicos (16). Porém, não vislumbraremos, nas mãos abertas da Dolorosa, semelhanças de expressão à dramática de Martha? Quem não sentirá, em seus rostos, o clímax das dores? O pesante véu do luto? A immixtio de sangue e lágrimas? Nos seus pés, descalços ou em abertas sandálias, a trepidação do terramoto que abala o corpo?

Com os seus gestos, a escultura de Nossa Senhora das Dores intensifica a linguagem do espaço ritual. E, no seu movimento cinético, aparentemente suspenso, como num grito sufocado, transforma o contexto, abrindo-nos a um espaço outro, a relações. Lugares de hospitalidade do coração e da oferta da fita (dores), suas mãos revelam o movimento do seu corpo. E, no dinamismo ritual, abrem-nos ao êxodo, ao encontro de quem nos antecipa. É precisamente neste movimento que interpretaremos a nossa mímica. No obscuro do espaço, a luz aparece em nossos gestos, em ritual. Sirva-nos isto, assim sem aprofundamentos, para a nossa linguagem no espaço assumir o valor de ‘raconto’ no tempo presente. Esta é a trama arqueológica que, desde agora, legaremos ao futuro. Não nos demos ao agravo de perder os gestos, tão-pouco os não verbais. À tensão do movimento, neles nos exprimimos para comunicar. Ainda assim, além de semiótica, a nossa ritualidade é ergonómica. Sem alegorismos ou consumações visivas, é na profunda e alargada relação que nos abriremos à imaginação.


Imagem "Nossa Senhora das Dores" / Detalhe das mãos | Igreja de S. Paulo, Braga | © Joaquim Félix


Na Lamentação de Martha Graham e da Dolorosa descobriremos que, por seus gestos de dança, não estamos sós, humilhados e inconsolados. Em seus movimentos, havemos de gerar gestos de compassionalidade. Haverá sempre uma pessoa, pelo menos uma, com quem nos relacionaremos. Foi a aprendizagem que, em Brooklyn, Martha fez com aquela jovem mãe, na potencialidade da relação, criada na fonte de sentido da Lamentation: «E eu me lembrarei disso como uma história muito profunda na minha vida. Isto me fez perceber que há sempre pelo menos uma pessoa com quem se pode comunicar na plateia. Uma». E, nós, não nos lembraremos? Ah! Até podemos vir a sofrer de Alzheimer, mas algo vai permanecer da nossa dança e da dança delas. Não foi isso que sucedeu, por exemplo, com Marta González, primeira bailarina principal de ballet em Nova Iorque? Porque se emocionou ao recordar o ‘Lago dos Cisnes’ (17)? Também nós temos de «arranjar as pontas»? Ou vamos entrar no coro?


Imagem "Nossa Senhora das Dores" / Detalhe da mão com a fita do escapulário | Igreja de S. Paulo, Braga | © Joaquim Félix


Podemos sentir-nos sob a proteção de Deus e, até libertos na improvisação ao órgão pelas mãos e aos pés de Sietze de Vries (18), continuar a fruir o Salmo 90: «Não temerás o pavor da noite,* / nem a seta que voa de dia; / nem a epidemia que se propaga nas trevas,* / nem a peste que alastra em pleno dia. / Podem cair mil à tua esquerda e dez mil à tua direita,* / que tu não serás atingido» (19). Contudo, não temos garantias que a presente pandemia tenha ‘exclusivos’. Há que chorar, lamentar mesmo, os milhares que, à direita e à esquerda, à nossa volta, todos os dias caem. E compadecermo-nos dos milhões que são afetados e permanecerão com sequelas. Não estamos sós! Temos inclusivamente quem nos dance as dores, a ponto de nos abrir o corpo obsidiado. Com Martha Graham ou a Senhora das Dores, navegaremos em nossas lágrimas até à estação da alegria. Em Deus, e sob o signo da esperança, não entrará em crise o futuro. E, em seu Filho, Jesus de Nazaré, haveremos de cantar o cumprimento da profecia: «A morte, prevalecendo, engoliu. / E de Novo Deus removeu / Toda a lágrima de todo o rosto» (Is 25,8).


Imagem "Nossa Senhora das Dores" | Igreja de S. Paulo, Braga | © Joaquim Félix

Imagem "Nossa Senhora das Dores" | Igreja de S. Paulo, Braga | © Joaquim Félix


(1) Para ter noção da forma como Isadora dançava, cf. https://bit.ly/37FFfCC.
(2) A. Daly, «Isadora Duncan e la ‘distinzione’ della danza», in Teatro e storia 12 (1997), 12.
(3) G. Bonaccorso, L’estetica del rito. Sentire Dio nell’arte (Cinisello Balsamo - Milano: Torino, 2013), 220.
(4) Para esta e outras declarações: https://bit.ly/39TnouO.
(5) Joaquim Félix de Carvalho, José Tolentino Mendonça (tr.), O dom das lágrimas. Orações da antiga liturgia cristã (Lisboa: Assírio & Alvim, 2002), 11.
(6) Ibidem, 12.
(7) Ibidem, 14.
(8) João Bérnad da Costa, «O dom das lágrimas», in Público (4 de outubro de 2002):
https://bit.ly/33VTcLw.
(9) O texto transcrito corresponde a um fragmento de Prefácio, n. VII, na ordenação das orações.
(10) Para visualizar a audiência geral: https://bit.ly/3mZGbYQ; ou, para quem a desejar ler: https://bit.ly/3gqcgXm.
(11) Agostinho, Confissões, V.
(12) Cf. Ambrósio de Milão, De excessu fratris sui Satyri: PL 16, 1289-1354; CSEL 73.
(13) Estrofes da sequência, na Memória de Nossa Senhora das Dores: Igreja Católica, Leccionário Santoral (Coimbra: Gráfica de Coimbra, 1996), 285-286.
(14) Daniel Faria, Poesia (Lisboa: Assírio & Alvim, 2012), 161-162.
(15) Cf. Martha Graham Dance Company. Film of Martha Graham dancing in her iconic solo Lamentation (1930). Premiere of Lamentation: January 8, 1930 – Maxine Elliot's Theatre, New York City:
shorturl.at/cirCP. Cf. Lamentation - Martha Graham: shorturl.at/krsvK.
(16)Para uma ‘mistagogia’ de Lamentation, e, assim, entrar no sentido dos seus movimentos: cf.: Los Angeles Arts Education at The Music Center. Martha Graham - video excerpts from Lamentation and Satyric Festival Song: shorturl.at/lxDGU.
(17) Cf. Ex-bailarina com Alzheimer emociona a internet ao recordar "O Lago dos Cisnes": shorturl.at/qsBMR.
(18) Cf. Sietze de Vries - Harderwijk, Improvisation Psalm 90: shorturl.at/cdmK2; ou, então, para compreender a sua técnica de dança, escutemo-la: Martha Graham Dance Company. Martha Graham on Technique: shorturl.at/ezIX3.
(19) Igreja Católica, Liturgia das Horas. I. Advento - Natal (Coimbra: Gráfica de Coimbra, 2010), 996-997.


 

Joaquim Félix
Imagem de topo: "Nossa Senhora das Dores" | Igreja de S. Paulo, Braga | © Joaquim Félix
Publicado em 08.12.2020

 

 

 
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