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Jornal do Vaticano destaca “Bucha & Estica”: «A pureza das crianças num mundo de grandes»

Noventa e dois anos do início da feliz amizade entre Stan Laurel e Oliver Hardy, e por ocasião da estreia em muitos países europeus do filme biográfico “Bucha & Estica” (em Portugal ocorreu há cerca de um mês), de Jon S. Baird, volta a falar-se da dupla cómica mais famosa do cinema.

Se o público tributou sempre aos dois um enorme sucesso, a crítica foi muitas vezes morna. É verdade que não se pode dizer que o seu sentido de tempo os tenha ajudado. Basta pensar que o seu primeiro filme em conjunto, “Duck soup” (Fred Guiol), emque interpretam personagens ligeiramente diferentes daqueles que os tornarão famosos, é de 1927, ou seja, o mesmo ano de “The jazz singer”, primeiro filme sonoro da história.

Ao enfrentar a revolucionária, mas também traumática, inovação técnica, aliás, os dois sair-se-ão muito melhor que outros. Mas o serem figuras de fronteira, todavia, tê-los-á provavelmente penalizado, privando-os, em particular, de uma marca imediatamente reconhecível. A sua comicidade, com efeito, é essencialmente física, mas já não é o “slapstick” puro dos anos anteriores, não tem o mesmo potencial disruptivo e quase apocalíptico daquele copioso forjado pelo realizador, produtor, ator e argumentista Mack Sennett.

No contexto da geração dos grandes cómicos nascidos na época do cinema mudo, pareciam, de facto, partir em desvantagem. Não têm a poética de Chaplin, não têm a perfeição mecânica de Keaton. Não possuem a carga anárquica, lunar, surreal de Langdon, Lloyd, Arbuckle.



A qualidade que talvez mais tenha contribuído para o sucesso das duas personagens é a extraordinária alquimia dos seus caracteres, nascidos em parte dos dotes dramatúrgicos de Laurel, mas também um pouco das características reais dos atores



Quando o cinema sonoro se torna uma realidade incontornável, depois, o cinema ligeiro será invadido, no espaço de pouquíssimas temporadas, pelos diálogos fulminantes de Hawks, da languidez centro-europeia de Lubitsch, pelas apuradas catedrais dramatúrgicas de Cukor, pelas parábolas cristãs de Capra. Poucos anos após o início da sua colaboração, em síntese, Stan e Ollie arriscavam-se já a ser algo de avulso da história do cinema.

No entanto, foi precisamente esta uma das suas características vencedoras. Este seu aspeto quase metafísico de objeto estranho que atravessa as décadas e as várias fases do grande ecrã, adapta-se a vários géneros e registos, sem se preocupar com a sucessão de modas e tecnologias.

Com um efeito subtilmente invulgar, bem sintetizado pelo frequentíssima “camera-look” (ou o olhar para a câmara de filmar) de Ollie, tabu violado com que o anafado ator arruína os esquemas do cinema narrativo partindo do interior.

Igualmente subtil é o modo como os dois rompem os equilíbrios do mundo burguês que faz muitas vezes de fundo às suas histórias. As cenas catastróficas queridas aos cómicos do passado não faltam, mas são, na realidade, raras.



É um facto que a parceria do insociável e do ingénuo, aparentemente opostos mas muitas vezes iguais na derrota, ou em serem “outsiders” da sociedade, será modelo para outras dezenas e dezenas de pares cinematográficos



A elas substitui-se um sentido bem mais ténue de inadequação dos dois indivíduos no interior de um enquadramento que lhes delimita o essencial habitat. Inadequação que para Ollie é antes de tudo física, para Stan intelectual. Salvo para inverter muitas vezes os prognósticos, ostentando para o primeiro uma insuspeita agilidade, para o segundo um inesperado engenho, com resultados paradoxais de efeito seguro.

Mas a qualidade que talvez mais tenha contribuído para o sucesso das duas personagens é a extraordinária alquimia dos seus caracteres, nascidos em parte dos dotes dramatúrgicos de Laurel, mas também um pouco das características reais dos atores.

É um facto que a parceria do insociável e do ingénuo, aparentemente opostos mas muitas vezes iguais na derrota, ou em serem “outsiders” da sociedade, será modelo para outras dezenas e dezenas de pares cinematográficos.

O legado é por exemplo declarado pela dupla Spencer-Hill, com o início de “Chamavam-no Trinitá”, significativamente similar a uma cena inicial de “Way out West” (James W. Horne, 1937). Mas a herança não se esgota dentro do género cómico. Basta pensar na atitude dos pares dos “buddy-movies” de ação às “48 horas”. A muitos anos de distância, a alquimia a buscar permanecerá, nas suas grandes linhas, sempre aquela.

São múltiplas as qualidades que caracterizam a comicidade de Stan e Oliver. Mas sempre sem qualquer maldade. Antes, com a atitude pura de crianças num mundo de grandes.


 

Emilio Ranzato
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 27.03.2019

 

 
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