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John Lennon: Visionário e frágil

Passam a oito de dezembro quarenta anos da morte de John Lennon. Uma morte inesperada e perturbadora, como todas as mortes violentas. Porém, ainda hoje o recordamos com nostalgia. A nostalgia que acomete quando se pensa em alguém que nos fez companhia durante um troço de estrada, com quem se partilhou momentos belos ou difíceis da vida. Ele fê-lo através das canções, primeiro com os Beatles – com os quais revolucionou a música e os costumes de uma época – e depois a solo, colocando a fantasia ao serviço das ideias, até identificar a arte com a vida. Uma sobreposição total, através da qual exprimia o seu temperamento irrequieto, mais anárquico que subversivo.

John Lennon foi um dos Beatles, como tudo o que isso comportava no bem e no mal, e a determinado ponto decidiu aproveitar o sucesso para dizer algo de diferente, gastando-se por causas que considerava justas e que, ao tempo, envolveram toda uma geração. Decidiu dar a cara, e não só, com seriedade, consciente de que a música, as palavras e os gestos têm um peso, mas sempre sem se levar demasiado a sério. Fê-lo através de maneiras inéditas, por vezes extravagantes, com Yoko Ono, como os famosos “bed-in”, conferências de imprensa feitas na cama de um quarto de hotel. No entanto, a sua música e as suas mensagens tornaram-no um ícone do seu tempo. Um ícone que ainda hoje consegue fascinar.

Há quem o veja como um revolucionário, ainda se a sua “Revolution” não coincidia com o sentimento de muitos prontos para a violência. Apoiou campanhas com a guerra, cantando em favor de dar uma oportunidade à paz, mas também poder ao povo (com punho fechado e capacete), sem esquecer de advertir a classe operária para os truques da burguesia. Alguém de esquerda para alguns, um comunista subversivo para o FBI, um utopista provocador, um niilista com muitas contradições para outros. Foi, com efeito, iconoclasta de “God”, em quem não se salva nenhum dos mitos da década, nem sequer os Beatles. Mas foi também o de “Imagine”, a sua canção mais famosa e representativa, que se tornou, a gosto ou a desgosto, num hino geracional universal, com os seus versos perfeitos para aqueles anos na sua visionária ingenuidade, mas que hoje pagam o preço do tempo.



Nascido sob um bombardeamento alemão, cresceu sem pai e com uma mãe pouco presente, perdida demasiado cedo, confiado aos cuidados da tia Mimi, John buscou na música uma válvula de saída



Sim, John Lennon foi tudo isto. Mas nós gostamos de o recordar sobretudo pelo seu talento imenso. Um artista capaz de criar beleza através da música, algo que tocou milhões de corações, oferecendo emoções. Porque isto faz a boa música. E na sua é impossível não reconhecer os traços do génio. Dos “Fab Four” era o de espírito mais inquieto. E a inquietação, quando encontra uma inteligência aguçada, pode gerar coisas surpreendentes. A ele se devem as mais brilhantes invenções linguísticas na poética dos Beatles – quem mais escreveria “I am the Walrus?” – e a criação de sonoridades desconhecidas e impensáveis. Sonoridades que não se colhiam até que ele as transformasse em algo de novo e de interessante, como, por exemplo, em “Tomorrow never knows”.

Mas por trás do talento ocultava-se o homem, com a sua história, as suas experiências, as suas fragilidades. Alguém para quem a arte, vivida com paixão até à sobreposição homem-artista, se tornou ocasião de resgate. «A coisa mais difícil é enfrentar-se a si próprio», confiou numa das suas últimas entrevistas, em que parecia pacificado com o seu passado turbulento, a partir de uma infância difícil.

Nascido sob um bombardeamento alemão, cresceu sem pai e com uma mãe pouco presente, perdida demasiado cedo, confiado aos cuidados da tia Mimi, John buscou na música uma válvula de saída. E quando se cumpre o prodígio do encontro que lhe mudaria a vida – a sua e a dos seus três amigos de Liverpool, influenciando milhões de outros no mundo –, cavalgou a onda do sucesso, entre fama e excessos, até lhe sentir a asfixiantes opressão. E a querer libertar-se, longe da histeria dos concertos, para dar livre desafogo à criatividade, a criatividade dos discos memoráveis dos Beatles. Até ao clamoroso adeus.



Também ele se descobriu frágil, pronto a interrogar-se se foi tudo acertado e tudo verdadeiro por trás daquela atitude anticonvencional, revolucionária, que incarnou. A perguntar-se se não teria renunciado a demasiadas coisas mais importantes



Mas se Yoko Ono carregou durante anos o peso da culpa de uma separação que deixou no desconsolo milhões de fãs, a história narrou, no fim, uma verdade diferente. A alquimia da dupla Lennon-McCartney, como a amizade, tinha-se dissolvido há tempo. John queria encontrar outro caminho, para seguir a sua veia artística. Já se tinha entrevisto desde as últimas composições com os Beatles, e a confirmação chegou com os primeiros trabalhos como solista e das primeiras performances que os acompanharam.

Quarenta anos depois já não nos perguntamos o que perdemos, quantas outras pérolas imortais nos teria oferecido, vista a reencontrada criatividade revelada em “Double fantsy”, álbum publicado após seis anos de silêncio. Ainda que permaneça uma pitada de pesar. Como também a sensação de que aos setenta ou oitenta anos – muitos o festejaram no passado 9 de outubro – não se prestaria a subir a um palco abraçado a uma guitarra. Demasiado autoirónico para tanto. Talvez tivesse voltado a cultivar a sua verve de escritor surreal amante do “non-sense”, ou dando-se ao desejo, com aqueles esboços essenciais que os fãs conhecem bem. Em todo o caso, o destino, um infausto destino, entregou-o ao mito, preservando-o para sempre na memória como um homem de quarenta anos de aspeto juvenil, o olhar sempre  descontraído, mas menos provocador, sinal de maior maturidade e consciência de si no mundo.

Porque no fim também ele se descobriu frágil, pronto a interrogar-se se foi tudo acertado e tudo verdadeiro por trás daquela atitude anticonvencional, revolucionária, que incarnou. A perguntar-se se não teria renunciado a demasiadas coisas mais importantes, vistos os últimos cinco anos passados em família, a educar o pequeno Sean, descobrindo que «a vida é aquilo que te acontece enquanto estás ocupado a fazer outros projetos», como lhe confia na terna canção “Beautiful boy (Darling boy)”, no último álbum. E naquele dia oito de dezembro de há quarenta anos John Lennon estava seguramente empenhado noutros projetos. Uma mão homicida impediu que se realizassem. Mas muito já tinha dado como artista. De outra forma, não estaríamos aqui a escrever sobre ele, continuando a escutar as suas maravilhosas canções.


 

Gaetano Vallini
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: John Lennon | ROLLS PRESS/POPPERFOTO/GETTY IMAGES
Publicado em 08.12.2020

 

 
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