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João Batista ensina a redigir o currículo do cristão: Curto, autêntico, humilde

O “curriculum vitae” é um dos principais instrumentos para poder encontrar um trabalho. O seu propósito é o de apresentar a pessoa da melhor maneira possível àqueles dos quais queremos ser contratados ou, pelo menos, tomados em consideração para o cargo. Esta apresentação deve conter não só os dados pessoais (quem somos), mas sobretudo os estudos feitos, as competências e, eventualmente, experiências laborais passadas (o que conhecemos e sabemos fazer). Quanto mais rico e bem compilado for o currículo, mais eficaz se torna.

Ao ler e meditar com um grupo de pessoas o trecho do Evangelho deste terceiro domingo do Advento (João 1,6-8.19-28), alguém referiu que a forma com a qual João Batista fala de si parece «um currículo ao contrário». Interrogado pelos responsáveis religiosos sobre a sua ação de pregador no deserto, está mais preocupado em diminuir-se do que exaltar a sua identidade e aquilo que faz. Interrogado sobre o que diz de si próprio, começa por insistir em afirmar quem não é, ainda que pudesse fazer passar-se por tal. Não é «o Cristo», não é «Elias», não é «o profeta».

Ao tempo de Jesus era esperada a vinda do Messias, ou seja, o enviado de Deus, que iria restabelecer a vontade divina. Pensava-se que seria precedido pelo regresso do maior dos profetas, Elias, ou de outro. João, que através da forte pregação e o gesto purificador do batismo no Jordão tem um grande séquito e fama, no fim não se aproveita disso para assumir ainda mais fama e aspirar a algo de maior. No seu currículo só inclui uma coisa, quando lhe é perguntado, insistentemente, quem é: «Eu sou voz de alguém que grita no deserto: endireitai os caminhos do Senhor…».



O terceiro domingo do Advento é, liturgicamente, dito «da alegria», para recordar-nos que ser alegres é um aspeto fundamental que, isto sim, não pode estar ausente no nosso currículo de bom cristão



Eis o currículo de João, aquilo que sabe e quer fazer: é uma voz que grita. A sua tarefa é dar voz a uma mensagem que não é a sua, não lhe pertence nem é sua criação. Daquela mensagem, ele é só a voz, comunicação através de palavras e opções concretas de vida.

Desde sempre o ser humano procura apresentar-se a si mesmo aumentando a sua força, as suas qualidades, os títulos… Ainda hoje nenhum de nós escapa a esta tentação de aparentar mais do que é e que é capaz de fazer, escondendo o mais possível defeitos e erros. Nenhum de nós apresentaria a um futuro dador de trabalho um currículo com «não sou… não sou capaz de…», e, seguramente, faríamos de tudo para dar a melhor imagem possível de si, impecável.

Se esta é uma atitude sensata no mundo laboral, já não o é no mundo das relações sociais, e muito menos dentro da comunidade cristã. Temos medo de mostrar os nossos limites e fragilidades, e procuramos mostrar-nos como não somos, por vezes mascarando-nos e mentindo. Julgamo-nos reciprocamente, amplificando os defeitos do outro, enquanto nos exaltamos, numa ânsia que nos faz estar sempre em competição.

Que currículo poderemos dar de nós próprios a Deus, para o impressionar positivamente? Um longo elenco de méritos, orações, liturgia participadas, pecados não cometidos?

O currículo de João tem uma só linha, «sou voz que grita». Isto é o que me é pedido por Deus: «ser voz», «dar voz» à mensagem do Evangelho, que precisa das minhas palavras e dos meus gestos para ser comunicado. Não possuo o Evangelho, não fui eu que criei os ensinamentos da fé, mas posso ser a sua voz se autenticamente nele acredito e o vivo. O terceiro domingo do Advento é, liturgicamente, dito «da alegria», para recordar-nos que ser alegres é um aspeto fundamental que, isto sim, não pode estar ausente no nosso currículo de bom cristão.



Imagem D.R.

 

Texto e desenho: P. Giovanni Berti
In Gioba
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem de topo: "S. João Batista no deserto" (det.) | Guido Reni | 1636/7
Publicado em 12.12.2020

 

 
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