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Rumo ao amor, dia 24: João Batista

João está no Jordão com os seus discípulos, entre a terra da escravidão e a terra da libertação, entre o Egito e a Palestina. Um dia fixa o olhar em Jesus que passa.

Seguir Deus é desde sempre um jogo de olhares, não de teoria, nem de palavras ou raciocínios. Um fixar o olhar, um deter-se, um escutar, um ver onde habita e, à distância de anos, recordar-se que horas eram quando te chamou.

Um cristianismo concreto, feito de olhares e de caminho, de busca e de confidências, de pernas e de mãos, de coração e de olhos.

Há um momento na vida de cada um de nós, um momento simples e oculto, mas também grande e evidente, no qual Deus, que antes não se conhece, se torna reconhecido, e no qual, como João, dizemos: «Ei-lo, encontrei-o».

Uma busca contínua e constante a de João, desde o nascimento; mas precisamente quando pensava que o tinha encontrado, Jesus, o inapreensível, confunde-lhe as ideias.

João pensava que ninguém lhe poderia tirar a alergia de ver crescer a fama de Jesus e ele diminuir, mas num instante dá-se conta de que é Ele, na realidade, que diminui.

Um dia já não percebe mais nada, a tal ponto que manda perguntar: «És Tu aquele que deve vir, ou devemos esperar um outro?».

João tinha falado às pessoas de ceifa, Jesus agora fala de sementeira, João tinha falado de machado para abater a árvore à sua raiz, Jesus, ao contrário, fala de paciência e de perdão.

A Deus não basta acolhê-lo, é preciso saber acolher um Deus diferente daquele que esperavas.



O Batista ajudou-me a unir a dupla alma que há dentro de mim: a de monge e a de peregrino: a luta, o empenho e a justiça, que se abraçam com o silêncio e o recolhimento



É o Deus doas subversões, que diz: «Quem pensa que é o primeiro, tornar-se-á o último». É o omnipotente que se faz simples e humilde.

João, homem austero, fora de todas as modas, que não concentra a atenção sobre si, mas reenvia para um outro, que não prega nas praças, mas no deserto, que não vai procurar as pessoas, mas são as pessoas que vão até ele.

Grita e vive no deserto e no silêncio, no lugar onde cada um volta a ser limpo da rotina e reencontra o seu esplendor e a sua força originária, onde há palavras que te transformam.

João diz «convertei-vos», apelando a uma exigência fundamental para cada um: a exigência de reordenar a existência.

João, com a sua austera coerência e a sua distância de qualquer ambição pessoal, parece lançar-nos à cara a pergunta: «Quem és?».

As pessoas iam até João para lhe perguntar: «O que devemos fazer?».

A sua resposta foi sempre prática e dizia respeito à justiça: «Não exijais nada a mais do que o fixado»; a caridade: «Quem tem duas túnicas, dê uma a quem não tem»; o respeito: «Não maltrateis nem extorquis nada a ninguém».

O Batista ajudou-me a unir a dupla alma que há dentro de mim: a de monge e a de peregrino: a luta, o empenho e a justiça, que se abraçam com o silêncio e o recolhimento.

«Deus concederá a chuva para a semente, dará o pão produzido pela terra… sobre cada monte e colinas escorrerão canais e torrentes de água fresca… O Senhor curará as chagas do seu povo», isto diz Isaías, pedindo-nos para gritar sobre os telhados as injustiças de hoje, encontrando no deserto a fonte da delicadeza e da compaixão.

João é filho de Zacarias, e Zacarias em hebraico significa: Deus tem um pensamento. Eis o pensamento e o sonho de Deus: encontrar pessoas como João, que não precisam de protagonismo, nem de procurar prosélitos, e muito menos de ruído.

Antes de dar à luz João, Isabel, sua mãe, permanece fechada cinco meses em casa, por vergonha de estar grávida naquela idade, e o seu pai, Zacarias, fica mudo durante três meses pela sua falta de confiança.

É preciso silêncio e humildade quando Deus se faz tão próximo.


Imagem "S. João Batista no deserto" | Bartolomé Esteban Murillo

 

Luigi Verdi
In La realtà sa di pane, ed. Romena
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "S. João Batista no deserto" (det.) | Bartolomé Esteban Murillo
Publicado em 20.03.2020

 

 
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