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Irmãos de Jesus e cultura bíblica

Com alguma persistência, volta religiosamente à discussão na praça pública, para gáudio dos opinantes, a questão invencível: «a Bíblia diz que Jesus teve irmãos». Verdade insofismável. Bastará ler Mt 13,55-56: “Não é este o filho do carpinteiro? Não se chama a sua mãe Maria e os seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? E as suas irmãs não estão todas entre nós?” Este trecho tem a vantagem de inflamar mais os ânimos dos apoiantes da afirmação feita: apresenta Jesus como filho de Maria mas também como filho de José. Lança as premissas para uma dialética animada.

Sim, o Novo Testamento conta que Jesus teve irmãos. Mas essas declarações são suficientes para cantarem vitória os que apostariam que Jesus teve irmãos do mesmo pai e da mesma mãe? O evangelho também assegura que “quem tiver acreditado” na boa nova de Jesus “em seu nome… falará línguas novas, pegará em serpentes com as mãos e, se beber algum veneno mortal, não lhe causará nenhum mal” (Mc 16,18). No entanto, duvido se um fervoroso crente em Jesus, desafiando os incrédulos, quererá demonstrar a veracidade do evangelho ingerindo um bom copo de estricnina ou irá à Cambridge School mostrar que bem se fala inglês sem passar pelas suas aulas. Quanto aos que peremtoriamente dizem que Jesus teve irmãos biológicos, nem calculo o que pensarão de “Maria Madalena, da qual Jesus tinha expulsado sete demónios” (Mc 16,9 e Lc 8,2). – Claro que foi uma pecadora sensual, arrependida, penitente depois de perdoada por Jesus – clamarão. Na verdade, porém, que Jesus dela “tenha expulsado sete demónios” quer dizer, antes, que ela era muito doente e que ele a curou (demónio – diferente de diabo – é representação simbólica dos males físicos, psíquicos e psicofísicos). Devemos, portanto, um genuíno pedido de desculpas a Maria Madalena pelo facto de, desde muito cedo, no cristianismo e fora dele, termos feito dela uma debochada pervertida e perversora, confundindo-a porventura com a “pecadora pública” da cidade (Lc 7,36-50). Desculpa-nos, santa Maria Madalena!



O hebraico e o aramaico – para sugerir ou afirmar consanguinidade e afinidade – por razões antropológicas e não por pobreza da língua usavam um mesmo termo para vários graus de parentesco. De facto, essas duas línguas semíticas dizem “irmão” com a palavra “’āḥ” e não têm outra específica para dizer primo-irmão, parente, consanguíneo, em vários graus



Estes retoques já nos deixam alerta sobre a necessidade de assumir a responsabilidade de interpretar, quando confrontados com textos bíblicos. No tema «irmãos de Jesus» importa reter que os escritos do Novo Testamento não são documentos de historiografia mas catequeses da fé cristã que visavam ilustrar e promover a fé. E os dados por eles oferecidos pedem interpretação, que também depende da perspectiva hermenêutica e das preocupações epistemológicas do intérprete. A Bíblia diz que Jesus tinha irmãos. Mas uma coisa é o que a Bíblia diz; outra coisa é o que a Bíblia queria dizer. E no «queria dizer» é que está o decisivo; ficar só com o que a Bíblia diz pode desandar em literalismo ou desfigurar o significado das suas narrações.

Procuremos então interpretar, com os critérios de hermenêutica bíblica, as afirmações relativas aos irmãos de Jesus.

 

1. No seu contexto cultural e linguístico

Desde logo, exigem ser lidas no contexto da cultura hebraica em que foram escritas. Ora, o hebraico e o aramaico – para sugerir ou afirmar consanguinidade e afinidade – por razões antropológicas e não por pobreza da língua usavam um mesmo termo para vários graus de parentesco. De facto, essas duas línguas semíticas dizem irmão com a palavra ’āḥ e não têm outra específica para dizer primo-irmão, parente, consanguíneo, em vários graus: é ela que tem esse significado amplo. Mesmo nos textos de Qumrán, ’āḥ podia designar colega no sacerdócio e os membros da comunidade. Labão usa-a para chamar o seu sobrinho Jacob, com o significado de parente próximo (Gn 29,12.15). Lot é sobrinho de Abraão; mas este chama-o seu irmão (Gn 13,8 e 14,14.16).



Uma vez que a palavra “adelfós” aplicada aos ditos “irmãos” de Jesus tem também o sentido de primo-irmão ou de parente próximo, por muito que alguém a queira entender aí com o possível significado de irmão carnal do mesmo pai e da mesma mãe, nunca o poderá asseverar como doutrina definitiva



É verdade que os autores do Novo Testamento não escrevem em hebraico/aramaico mas em grego. Mesmo assim, sendo todos judeus (excepto Lucas), ao usarem a palavra grega adelfós para designarem os “irmãos” de Jesus, tinham como pano de fundo a cultura, a forma de pensar, a mentalidade e o suporte das línguas hebraica e aramaica no Antigo Testamento. Por conseguinte, usavam adelfós para verterem os conteúdos e as conotações do conceito correspondente na língua-mãe deles, que era ’āḥ. Embora no seu sentido primeiro signifique irmão de sangue, adelfós também conotava qualquer parentesco próximo; ainda podia significar companheiro de tribo, companheiro étnico e próximo. Mais amplamente, os cristãos dirigiam-se aos judeus chamando-os irmãos (Act 2,29.37; 3,17…). Mesmo na literatura grega e no âmbito exterior ao cristianismo, tanto em sentido religioso como em sentido profano, adelfós podia significar essas relações de parentesco mais amplas e, em sentido figurado, o companheiro, o sócio, o amigo, o próximo. De facto, os primeiros tradutores gregos – também judeus – do livro do Génesis qualificam Lot, sobrinho de Abraão, e Jacob, sobrinho de Labão, como adelfós deles (Gn 13,8 e 14,14.16 e 29,12.15). Os primos que se casam com primas são chamados “irmãos delas”, também na tradução grega (adelfói: 1Cr 23,22). E se é verdade que a língua grega tem outra palavra para significar primo (anepsios), o livro de Tobias (7,2) prova que se pode referir a mesma pessoa indistintamente com adelfós e (outros manuscritos) com anepsios.

Uma vez que – sem nenhuma pretensão apologética – a palavra adelfós aplicada aos ditos “irmãos” de Jesus tem também o sentido de primo-irmão ou de parente próximo, por muito que alguém a queira entender aí com o possível significado de irmão carnal do mesmo pai e da mesma mãe, nunca o poderá asseverar como doutrina definitiva, porque sempre será possível, e bem fundamentada do ponto de vista linguístico, a interpretação alternativa exposta.



O renovado interesse mediático pelo tema dos «irmãos de Jesus» tem o mérito de reforçar a sua humanidade e o realismo histórico da Encarnação do filho de Deus na pessoa dele, que viveu no seio de uma família estruturada



2. Irmãos de Jesus e virgindade de Maria

Tendo-a em consideração, a existência de irmãos de Jesus não belisca a virgindade de Maria, mãe de Jesus, pois ele pode ter tido irmãos e irmãs legais (logo, reais) que não fossem irmãos biológicos, podendo ser todos irmãos por parte do pai, por exemplo, filhos de José em matrimónio anterior aos esponsais com Maria. De facto, no contexto de uma cultura patriarcal baseada na descendência definida através dos varões, quando se fala de pessoas «irmãs» o que se afirma é que têm o mesmo pai. Certo é que a ligação de Jesus a David, estampada logo no primeiro versículo de Mateus (“Livro da origem de Jesus Messias, filho de David, filho de Abraão”), é feita por meio de José, que, na genealogia assume a paternidade legal de Jesus: é dito, também ele, “filho de David” (Mt 1,20), com o encargo de “dar ao menino o nome de Jesus” (Mt 1,25). A José é atribuída a função capital de fazer do menino um ser social, com uma tradição, com linhagem e raízes na história do povo de Israel; apesar de não aparecer a intervir na geração de Jesus, acolhendo o filho de Maria na sua linhagem (de David) tornava-o membro legal da família de David. Até por isso, ao mencionar Jesus como “o filho de Maria”, Mc 6,3 parece querer sublinhar que ele é o filho único dela.

Quanto à designação de Jesus como “filho primogénito” de Maria (Lc 2,7), ela não implica que a mãe tivesse tido posteriormente outros filhos. A expressão era, na cultura hebraica, a designação técnica/legal do primeiro filho, ao qual se associavam direitos e deveres: mesmo que fosse único, dizia-se «primogénito» e não «unigénito». Portanto, não serve de muito citar Mt 1,25 para reafirmar que os “irmãos” de Jesus eram do mesmo sangue dele, gerados de Maria e de José depois do nascimento dele: “José tomou consigo a sua esposa, mas não a conheceu [não teve relações conjugais com ela] até ela dar à luz um filho, ao qual pôs o nome de Jesus”. Realmente, este versículo não contempla o período posterior ao nascimento de Jesus. Queria claramente afirmar o seu nascimento virginal e que ele era filho de Deus. Por si só, não afirma a virgindade perpétua de Maria, mas também não a nega. Nem se pode deduzir mais dele: não foi escrito para responder a questões alheias a ele; foi concebido para apresentar Jesus como filho de Deus. Da mesma forma que as regras hermenêuticas impedem entender como reacções (científicas) físico-químicas as metamorfoses da primavera cantadas por uma tirada poética, também desaconselham procurar biologia nas expressões da fé pascal neotestamentária, que supõem a virgindade de Maria.



Jesus apelou à construção de uma fraternidade universal, assente na elevada dignidade do ser humano, inteiramente compartilhada e mais elevada por ele. Propôs dilatar o sentido da família, deixando entender que o novo que ele preconiza não cabe na biologia, na física e nos laços de sangue mas se alarga na adesão aos valores da sua boa nova



Em conformidade com essa visão Espiritual, perde interesse a questão das consequências de admitir que Jesus tenha tido irmãos biológicos. Ela assentaria numa hipótese, entrando para o campo da especulação. Mas as verdades da fé bíblica lidam com dados reais do mundo que procuravam interpretar. Os textos que as referem estão pensados dentro de uma narrativa coerente com o conjunto dos elementos e com a articulação das personagens que a constituíam historicamente, em que Jesus, visto como filho de Deus e de Maria virgem, ocupa a principal centralidade. Há uma verdade nessa narrativa que não é a da historiografia mas a da história interpretada pelo prisma da fé. Para assumir a hipótese posta, a fé pascal teria de estar expressa num enquadramento diferente, deixando de lado, por exemplo, algumas conceções teológicas ou culturais; e nós precisaríamos de excogitar explicações arrebicadas para certas afirmações dos evangelhos.

 

3. A favor e contra

Alguns dos intérpretes extrabíblicos que querem dar irmãos biológicos a Jesus escrevem em contexto de controvérsia ideológica e teológica, por exemplo, para responder aos que negavam que Jesus fosse verdadeiro homem. Com argumentos de conveniência, estranham que os evangelistas chamem sempre irmãos aos primos ou familiares próximos de Jesus. Mas o Antigo Testamento também chama sempre irmãos aos consanguíneos na linha horizontal! Outro argumento de conveniência que agora costuma ser esgrimido é o do achado arqueológico – em Jerusalém – de uma pequena urna, tornado público em 2002. A inscrição aramaica gravada na parte externa da urna de pedra calcária reza assim, numa transliteração adaptada: Ya‛akov bar-Yosef akhui diYeshua. Traduzida, diz: Tiago filho de José irmão de Jesus. A sua autenticidade é debatida entre os arqueólogos. De qualquer maneira, esse ossário inclui a palavra-chave aramaica ’āḥ [akhui]. Mas isso não faz com que a afirmação de Tiago como irmão biológico de Jesus se tenha tornado mais plausível, pois continua a depender da interpretação de irmão, até porque a inscrição diz que Tiago é filho de José mas não diz que é filho de Maria.



A visão do ser humano em relação fraterna com ele é ao mesmo tempo dom e tarefa, enquanto põe exigências à vida, ao amor, à atenção, e põe questões sobre o conteúdo último da existência



4. “Irmãos” para além da biologia

Havendo na Bíblia grandes linhas com uma poderosa mensagem humana, social e espiritual – o humanismo da mensagem de Jesus, o perfume da sua palavra, a sua preocupação pela felicidade humana, o cuidado pelos pobres, doentes e aflitos, a influência da sua mensagem na transformação da sociedade para o bem, etc. –, o renovado interesse mediático pelo tema dos «irmãos de Jesus» tem o mérito de reforçar a sua humanidade e o realismo histórico da Encarnação do filho de Deus na pessoa dele, que viveu no seio de uma família estruturada. Interessante é notar que o autor da carta aos Hebreus – com a intenção de mostrar à fé que o filho de Deus, para dar o sentido último à vida humana, assumiu todas as suas limitações (porque só salvaria aquilo que assumisse) – escreveu: Jesus “teve de assemelhar-se em tudo aos seus irmãos, para se tornar sumo-sacerdote misericordioso, ao mesmo tempo que acreditado junto de Deus para apagar os pecados do povo” (2,17). Esta relação com «os seus irmãos» exprime a solidariedade de Jesus com eles e a transformação qualitativa e essencial deles perante os outros e perante Deus. Jesus apelou à construção de uma fraternidade universal (veja-se Fratelli tutti, do Papa Francisco), assente na elevada dignidade do ser humano, inteiramente compartilhada e mais elevada por ele. Propôs dilatar o sentido da família, deixando entender que o novo que ele preconiza não cabe na biologia, na física e nos laços de sangue mas se alarga na adesão aos valores da sua boa nova: “Disseram-lhe: «A tua mãe, os teus irmãos e as tuas irmãs estão lá fora à tua procura». Mas ele, em resposta, disse-lhes: «Quem é a minha mãe e os meus irmãos?». E, olhando em redor para os que estavam sentados em círculo à sua volta, disse: «Eis a minha mãe e os meus irmãos! Pois aquele que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe»” (Mc 3,32-35). A visão do ser humano em relação fraterna com ele é ao mesmo tempo dom e tarefa, enquanto põe exigências à vida, ao amor, à atenção, e põe questões sobre o conteúdo último da existência.


 

Armindo dos Santos Vaz
Biblista, professor catedrático emérito da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa
Imagem: James Tissot
Publicado em 30.04.2021

 

 
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