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Igreja «nunca tem nada a temer» de documentos históricos autênticos, diz D. Tolentino Mendonça ao papa

«Estamos convictos de que da verdade dos documentos rigorosamente e imparcialmente examinados, a Igreja nunca tem nada a temer, porque neles se refletirá sempre o seu anseio, o seu trabalho, o seu esforço para responder, com maior ou menor sucesso, entre luzes e sombras, ao chamamento do seu Senhor», afirmou hoje D. José Tolentino Mendonça ao papa.

As palavras do prelado, que desde há seis meses dirige o Arquivo Secreto do Vaticano, foram proferidas no início da audiência que Francisco concedeu aos responsáveis pela instituição, durante a qual anunciou a abertura aos investigadores, a 2 de março de 2020, da documentação relativa ao papa Pio XII, que tanto é acusado por ter sido conivente com a perseguição movida pelos nazis aos judeus, como é louvado por os ter protegido do regime de Hitler.

«No Arquivo Vaticano estão conservados os traços do caminho da Igreja na história, recolhe-se o eco da passagem do Senhor Jesus no tempo.» Por isso, «ter o culto destas cartas, dos documentos dos arquivos, quer dizer, refletivamente, ter o culto de Cristo, ter o sentido da Igreja», afirmou o arcebispo.

E se é verdade que a Igreja caminha na história na expetativa do regresso de Cristo, também é certo que ela «cultiva a memória porque deseja frequentar o futuro», vincou.



«Nos investigadores de todo o mundo que diariamente acolhemos no Arquivo do Vaticano, reconhecemos buscadores de verdade»



A função da memória, acentuou o também bibliotecário da Santa Sé, «pode ter múltiplos efeitos: pode paralisar, mumificar e travar o caminho se nos voltamos para trás para contemplar a história com nostalgia estéril».

Mas a memória, prosseguiu, pode também tornar o caminho «mais seguro, se se interroga o passado para compreender e trabalhar mais conscientemente no presente, pode torná-lo mais seguro se se considera o passado possibilidade de diálogo e de frequentação do futuro».

Os traços do percurso da Igreja na história «são muitas vezes luminosos, por vezes opacos e até obscuros, mas testemunham sempre o esforço da Esposa [Igreja] para seguir o seu Senhor. Por esse motivo são preciosos e devem ser recolhidos, conservados e estudados», assinalou.

O gesto «de coragem» do papa Leão XIII, que em 1881 abriu aos estudiosos, sem filtros religiosos, confessionais ou ideológicos, a consulta dos documentos do Arquivo do Vaticano, teve «consequências profundamente positivas», porque o organismo, tal como a Biblioteca, foram envolvidas «num processo de abertura ao exterior e de modernização, que em poucas décadas transformou as duas antigas instituições em centros de estudo atualizados e apreciadíssimos», destacou D. Tolentino Mendonça.



«Estou seguro de que a investigação histórica séria e objetiva saberá valorizar na sua justa luz, com apropriada crítica, momentos de exaltação do pontífice, e, sem dúvida, também momentos de graves dificuldades, de atormentadas decisões, de humana e cristã prudência»



Mas o mais importante da decisão de Leão XIII foi o facto de ter exprimido a «confiança, verdadeiramente católica e humanista, na inteligência do ser humano»:
«Nos investigadores de todo o mundo que diariamente acolhemos no Arquivo do Vaticano, reconhecemos buscadores de verdade».

«[Com] esta abertura à verdade, com confiança na inteligência dos homens de a procurar e perseguir também nas investigações históricas, o Arquivo Secreto do Vaticano pretende continuar o seu secular serviço ao Santo Padre, à Santa Sé, à Igreja universal, à cultura e à pessoa humana», salientou. D. Tolentino Mendonça.

A data da audiência, passados apenas três meses do último encontro do papa com o arcebispo, então enquanto responsável pela Biblioteca, foi escolhida para assinalar os 80 anos da eleição do papa Pio XII, a 2 de março de 1939.

O papa recordou que, por desejo do seu antecessor, Bento XVI, vários serviços da Santa Sé e da Cidade-Estado do Vaticano têm estado a trabalhar, desde 2006, num «projeto de inventariação e preparação da abundante documentação produzida durante o pontificado de Pio XII», que atravessou «um dos momentos mais tristes e escuros do século XX».



«A Igreja não tem medo da história, aliás, ama-a, e deseja amá-la mais e melhor, como Deus a ama. Por isso, com a mesma confiança dos meus predecessores, abro e confio aos investigadores este património documental»



Ao anunciar a abertura aos investigadores da documentação relativa ao papa italiano Eugenio Pacelli, falecido em 1958, Francisco comunicou que a decisão foi tomada «com ânimo sereno e confiante», depois de consultados os seus «mais estreitos colaboradores».

«Estou seguro de que a investigação histórica séria e objetiva saberá valorizar na sua justa luz, com apropriada crítica, momentos de exaltação do pontífice, e, sem dúvida, também momentos de graves dificuldades, de atormentadas decisões, de humana e cristã prudência», disse o papa.

A alguns, os gestos de Pio XII poderão ser interpretados «como reticências», mas, «pelo contrário, foram tentativas, humanamente também muito combatidas, para manter acesa, nos períodos de escuridão mais negra e de crueldade, a chama das iniciativas humanitárias, da oculta mas ativa diplomacia da esperança em possíveis boas aberturas dos corações».

«A Igreja não tem medo da história, aliás, ama-a, e deseja amá-la mais e melhor, como Deus a ama. Por isso, com a mesma confiança dos meus predecessores, abro e confio aos investigadores este património documental», declarou Francisco.


 

Rui Jorge Martins
Fonte: L'Osservatore Romano
Imagem: D.R.
Publicado em 04.03.2019

 

 
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