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Igreja: No mundo e na História, em diálogo, ao serviço da humanidade

Para onde vai a Igreja? De vez em quando, é bom parar e voltar aos fundamentos, perguntando-se: «Quem é a Igreja?». A Igreja, “ekklesía”, é uma assembleia de “ekkletoí”, uma realidade de homens e mulheres que Deus chama, distingue dos outros através da sua Palavra; uma realidade plasmada pelo Evangelho de Jesus Cristo; uma realidade constantemente edificada num corpo pelo Espírito Santo. Eis quem é a Igreja. E digo “quem”, não “que coisa”, porque a Igreja é um sujeito, uma criatura, uma pessoa mística.

Mas a Igreja, “creatura Verbi”, realidade que nasceu e nasce sempre da Palavra de Deus, vive no mundo, na História, e ao serviço de toda a humanidade. Não é um lugar marcado pelo privilégio do chamamento, mas antes pela responsabilidade para com todos os outros. Como o povo santo da antiga aliança é um povo escolhido por Deus em Abraão para que a bênção de Deus chegue a todos (cf. Génesis 12,2-3), assim a Igreja é chamada a levar a salvação a todo o mundo. Por isso, a Igreja é, constitutivamente, lugar de diálogo: lugar da palavra que se deixa atravessar por uma outra palavra; lugar em que se entretecem linguagens e caminhos de comunhão; lugar em que reina a comunicação.

Chamados ao diálogo com Deus, os cristãos têm a tarefa de tecer um diálogo também com todos os seres humanos. Esta é a sua função sacerdotal entre as gentes da Terra (cf. 1 Pedro 2,5.9; êxodo 19,6), a sua razão de ser: o ser instrumento de diálogo e reconciliação. Por isso, a Igreja nascida no Pentecostes é uma realidade que sabe exprimir a Boa Notícia das diferentes línguas da Terra (cf. Atos 2,1-11). Desde logo a Igreja, pela boca de Pedro e dos outros, proclama o Cristo ressuscitado e vivo, e cada um sente ressoar o anúncio na sua língua. Na manhã de Pentecostes, as pessoas presentes em Jerusalém não tem de assumir uma outra língua, mas é a Igreja que anuncia o Evangelho na sua língua, dá, antes de tudo, um passo de diálogo na linguagem delas.



Depois de três séculos em que a Igreja foi assustada pela modernidade, pelo iluminismo, pela revolução francesa, e, depois, pela laicidade e pela hostilidade dos grandes impérios e das ideologias totalitárias, eis que chega o papa João XXIII, o concílio Vaticano II, Paulo VI



Sim, a Igreja nasce dialógica, é, por sua natureza, capaz de um diálogo plural com as diferentes culturas e gentes da terra a que é enviada. «Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, até aos confins da Terra» (Atos 1,8), diz o Ressuscitado aos onze. Não é por acaso que a Igreja tenha desde logo sabido dialogar com o mundo, sobretudo com o mundo a ela hostil do Império Romano, numa época em que, em fases alternadas, sofreu perseguição por vezes cruenta. Também naqueles três primeiros séculos os cristãos dialogaram com os cidadãos do Império, com a cultura filosófica pagã, com os diferentes povos do Mediterrâneo. Os escritos dos apologistas como Justino, e de padres como Clemente Alexandrino e Basílio, disso dão amplo testemunho.

Os cristãos mostravam-se cidadãos leais para com a autoridade política romana, rezavam por ela, submetiam-se às leis (cf. Romanos 13,1-7), e procuravam viver em paz com todos. Mas temos de confessar, com humildade, que, a partir do século IV, por vezes este comportamento foi desmentido pelos próprios cristãos, e a Igreja sem sempre foi lugar de diálogo. Sobretudo na defesa da verdade – como afirmou, com coragem, João Paulo II durante o jubileu do ano 2000 –, os cristãos assumiram métodos em contradição com a verdade de Cristo e com o seu Espírito. Em vez do diálogo, praticámos a exclusão; em vez da escuta das diferenças, a condenação; em vez da compreensão ou da tolerância, a perseguição de quem era “outro”: os judeus, os “heréticos” e, mais em geral, quem quer que mostrasse uma diversidade de opiniões, de ética, de fé.

Por fim, depois de três séculos em que a Igreja foi assustada pela modernidade, pelo iluminismo, pela revolução francesa, e, depois, pela laicidade e pela hostilidade dos grandes impérios e das ideologias totalitárias, eis que chega o papa João XXIII, o concílio Vaticano II, Paulo VI. O papa João fez novamente do diálogo a atitude da Igreja: diálogo com os «irmãos separados», dizia-se então dos cristãos não católicos; diálogo com os judeus após séculos de hostilidade; diálogo com os seres humanos não cristãos e não crentes… E aqui impele-me a obrigação de recordar, a par da constituição conciliar “Gaudium et spes”, uma encíclica de Paulo VI hoje, infelizmente, esquecida: a “Ecclesiam suam” (6 de agosto de 1964). A sua terceira parte é dedicada, precisamente, ao diálogo que a Igreja, pela sua própria natureza, deve manter. Deste esplendido texto cito algumas palavras que acenderam o coração de muitos de nós, que o fizeram arder de alegria e de comoção, porque víamos nessa atitude a reforma querida pelo papa João e pelo concílio, confirmada e indicada por Paulo VI:

«Daremos a este interior impulso de caridade, que se torna dom exterior de caridade, o nome de diálogo. A Igreja deve dialogar com o mundo no qual se encontra a viver. A Igreja faz-se palavra; a Igreja faz-se mensagem; a Igreja faz-se colóquio … Ainda antes de converter o mundo, é preciso estar junto dele e falar-lhe … A origem do diálogo encontra-se na própria intenção de Deus. O diálogo deve recomeçar todos os dias; e por nós, antes que daqueles a quem é dirigido» (nn. 66-67.70.72.79 – versão italiana).



«Os cristãos não se distinguem dos outros homens nem pelo território, nem pela língua, nem pelos hábitos. Também não habitam cidades próprias, nem usam uma língua particular, … mas testemunham um estilo de vida admirável e, no dizer de todos, paradoxal»



Estas palavras de Paulo VI são corajosas, firmes, convictas e repletas do Evangelho e dos sentimentos de Cristo. A partir desta intuição central, o papa traçava, na encíclica, alguns círculos, de atualidade constante:

- Diálogo com tudo o que é humano e com toda a humanidade. Isto em vista da humanização, tarefa comum a cristãos e não-cristãos; em vista da paz, dom supremo para a humanidade;
- Diálogo com todos os crentes em Deus, os buscadores de Deus nas outras religiões;
- Diálogo com os irmãos cristãos não católicos;
- Diálogo no interior da Igreja entre pastores e fiéis, entre dons diferentes, entre os diferentes componentes da Igreja.

Nesta ótica, podemos ficar com as palavras de um admirável texto das origens cristãs, endereçado a um anónimo crente em Cristo, um certo Diogneto:

«Os cristãos não se distinguem dos outros homens nem pelo território, nem pela língua, nem pelos hábitos. Também não habitam cidades próprias, nem usam uma língua particular, … mas testemunham um estilo de vida admirável e, no dizer de todos, paradoxal … Residem na sua pátria como estrangeiros domiciliados (“pároikoi”); em tudo participam como cidadãos e a tudo estão sujeitos como estrangeiros (“xénoi”); toda a terra estrangeira é para eles pátria, e toda a pátria é terra estrangeira. Casam-se como todos e geram filhos, mas não expõem os seus nascidos. Põem a mesa em comum, mas não o leito … Deus designou-lhes uma missão tão importante, que eles não podem desertar» (“A Diogneto” V,1-2.4-7; VI,10).


 

Enzo Bianchi
In Monastero di Bose
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: banset/Bigstock.com
Publicado em 13.07.2020

 

 
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