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Hölderlin: «O que fica é fundado pelos poetas»

«O mar/ tanto dá como recebe lembranças,/ e o amor também se pega aos olhos// mas o que fica,/ é fundado pelos poetas»: são os versos com que se conclui “Andenken”, um dos poemas mais intensos de Friedrick Hölderlin, nascido a 20 de março, há exatamente 250 anos, na Alemanha. Um poeta de quem não é fácil extrair citações, deduzir poéticas ou intentos programáticos.

Höldelin viveu quase setenta anos, mas dos quais pelo menos a metade na noite da loucura, sozinho, no topo de uma terra a escrever à pautar fragmentos de versos assinados como extravagante pseudónimo de Scardanelli, é, por assim dizer, órgão, caixa de ressonância da poesia, um elemento primordial da paisagem eterna dos sentimentos humanos.

Crescido nos anos férteis do primeiro romanticismo, contemporâneo e amigo de Hegel, Sclegel e Novalis, foi, porém, um homem à parte, ligado ao destino pessoal do fazer poesia. Que, para ele, é antes de tudo um instinto vital, numa tensão contínua entre a palavra e a vida, à procura de símbolos que radiquem nos versos a substância do real, para fazer permanecer a poesia em companhia da carne e do sangue dos homens, como escreviam nos mesmos anos os poetas ingleses Wordsworth e Coleridge, nas “Lyrical ballads” de 1798.

E, no entanto, como escrevia Romano Guardini num amplo ensaio a ele dedicado em 1939, os símbolos da poesia em Hölderlin nunca são alguma coisa, mas alguém. A sua poesia não significa, mas é, existe, tal como os seus rios, as suas montanhas, os bosques, o esplendor do trigo são criaturas que o poeta convoca para viver ao seu lado.



Para Hölderlin e Beethoven, a arte não é só contemplação estética, mas sobretudo uma tarefa moral, uma atividade de que se tem necessidade, melhor, mendiga a presenta de um “tu”



Nada deve ser descuidado: talvez nenhum outro poeta tenha ilustrado com palavras tão autênticas a necessidade de um todo orgânico em que cada parte depende das outras, precisamente como na vida humana, como testemunha a esplêndida lírica dedicada à avó, na qual a anciã e as crianças vivem juntos na reevocação de uma continuidade de vida, a que nada deve ser subtraído. O amor, o sentimento, o vínculo de uma reciprocidade incarnada, a fim de que «o adulto mantenha aquilo que a criança promete».

Esta dedicação à substância da vida, ao seu tecido íntimo no qual espírito e carne se tocam, no fim pede contas à imaginação do ser humano.

Estar na essência das coisas da vida não significa deixar-se ir agilmente no fluxo da existência, no seu inevitável quotidiano. Esse coágulo de interioridade do qual germina a visão do poeta esmorece ao contacto do ser humano com o exterior prosaico e negligente.

Eis o motivo de uma vida vivida a metade entre desejos e cumprimento, uma carreira eclesiástica iniciada e depois interrompida, a seguir retomada e novamente abandonada. A universidade e os enamoramentos infelizes até ao exílio voluntário dos seres humanos e da sua mente.

Já em 1798, nem sequer com 30 anos, Hölderlin redige numa carta estas palavras pressagiadoras de um inevitável fracasso existencial: «Gostaria de viver pela arte à qual pertence o meu coração, e em vez disso tenho de exaurir entre os homens, de tal maneira que muitas vezes fico cansado de viver (…). Não serei o primeiro que naufraga; muitos, nascidos para ser poetas, são disso peritos. Não vivemos no clima da poesia».



Nenhuma gota do rio, nem aquela que brota da fonte, nem a última que se abandona ao estuário, pode ser descurada, porque em cada coisa do mundo existe a mesma substância e o idêntico desejo



Palavras que se assemelham de maneira impressionante àquelas escritas apenas quatro anos depois por um homem nascido no seu mesmo ano, Ludwing van Beethoven, que perante o inexorável pioramento da escuta, compõe o famoso testamento de Heiligenstadt: «Obrigado a viver completamente só, só posso entrar furtivamente na sociedade quando o exigem as necessidades mais imperiosas; tenho de viver como um proscrito. (…) Tais experiências conduziram-me à beira do desespero, e pouco faltou para pôr fim à minha vida – A minha arte, só ela, me conteve».

Para estas duas almas febris, imaginativas, mas profundamente convictas de uma missão superior, a arte não é só contemplação estética, mas sobretudo uma tarefa moral, uma atividade de que se tem necessidade, melhor, mendiga a presenta de um “tu”.

Se em Beethoven a música se torna narrativa da humanidade, em Hölderlin as palavras estão ao serviço da profundidade da vida, «na medida em que – escreve Guardini – se imprimiram nos estratos primordiais do mundo interior, de maneira a fazer penetrar o seu efeito, mesmo inconscientemente, em toda a vida futura. Esta relação simbólica emerge por todo o lado, na vida individual como na comunitária».

Não é por acaso que o símbolo-chave da poesia de Hölderlin é o rio, primeiramente regato plácido que aquela vida propaga e abençoa para se abrir, por fim, ao abraço do mar. Mas nenhuma gota, nem aquela que brota da fonte, nem a última que se abandona ao estuário, pode ser descurada, porque em cada coisa do mundo existe a mesma substância e o idêntico desejo que pede para durar, ter um sentido e prosseguir rumo a outro lugar ao qual está destinada.


 

Saverio Simonelli
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Hölderlin
Publicado em 19.03.2020

 

 
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