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Cem anos da “História de Cristo”

A faixa que acompanhava uma das últimas edições internacionais de “A história de Cristo”, de Giovanni Papini (publicada em Portugal pela editora Livros do Brasil, outubro 2006, 424 páginas, e ainda disponível), chamava assim a atenção: «Papa Ratzinger: um texto entusiasmante».

O livro, lançado com extraordinário sucesso há exatamente cem anos, em 1921, teve um amplo eco não só por causa da fama do autor, sempre excessivo, personagem bombástico, provocador, polemista, escritor que adorava a ênfase e a retórica, mas também porque uma dezena de anos antes tinha editado um libelo (“Le memorie d’Iddio”, de 1911), e, na revista “L’Acerba”, um artigo (“Cristo pecador”, 1913), com um ataque violentamente injurioso precisamente contra o Nazareno, de tal maneira que lhe foi movido um processo por ultraje à religião de Estado (do qual foi, no entanto, absolvido).

O apelo que então dirigia aos seus leitores não admitia réplicas: «Homens, tornai-vos todos ateus! Fazei-vos ateus já! O próprio Deus, o vosso Deus, Deus vosso filho suplica-vos com toda a sua alma!». Pode, por isso, compreender-se a surpresa quando Papini, com uma das suas reviravoltas radicais, enveredou pelo caminho da conversão, testemunhando-a com as quase 500 páginas e os 96 capítulos desta “História de Cristo”, confessando que na realidade «o ódio, por vezes, não é senão amor imperfeito». Assim o rancor de antes transformou-se em desdém por ver «Cristo traído e, mais grave do que qualquer ofensa, esquecido… Daí o impulso de o recordar e defender».



«Todos precisam de ti, mesmo aqueles que não o sabem, e aqueles que não o sabem bastante mais do que aqueles que o sabem… Quanto é grande, incomensuravelmente grande a necessidade que há dele»



Para se ter uma ideia do estilo papiniano com indignação incorporada, bastaria apenas abrir uma página e ler: «Esta escumalha lamacenta de humanidade imunda e ladra respira da latrina do coração o seu desprezo por quem a salva, encarniça-se contra aquele que perdoa, arremessa o seu vitupério sobre Cristo que morre por ela». Não se trata de uma biografia de Jesus, mas de uma espécie de meditação proclamada e declamada sobre a vida e o ensinamento do Homem-Deus, uma expiação bradada da blasfémia precedente, um fresco de cores intensa da vida daquele que é «o sempre vivente». Com efeito, «César fez, nos seus tempos, mais rumor que Jesus, e Platão ensinava mais ciências do que Cristo. Do primeiro e do segundo, ainda se pensa, mas quem se afervora por César ou Platão? Cristo, ao contrário, está sempre vivo em nós. Ainda há quem o ama e quem o odeia… E o encarniçamento de muitos contra Ele diz que ainda não está morto».

Deste retrato literário façamos agora emergir apenas duas orientações gerais, ainda que seja preciso reconhecer que, quem começa a ler o texto, apesar da tonalidade inflamada e do estilo paradoxal (ou talvez precisamente por isso), já não consegue despegar-se dele.

O primeiro traço está na essência mesma de Cristo: «O maior Inversor é Jesus. O supremo “Paradoxista”, o Perturbador radical e sem medo. A sua grandeza está aqui. A sua eterna novidade e juventude». E, efetivamente, é suficiente percorrer o Discurso da Montanha, apenas no seu início com as Bem-aventuranças (Mateus 5, 1-12), para compreender esta subversão radical operado pela mensagem evangélica não só na escala dos alores codificados da sociedade, mas também na religiosidade de uma observância formalista («foi dito aos antigos… mas Eu digo-vos», declara Cristo seis vezes naquele Discurso).



A conversão de Papini não foi o aportar a um porto seguro, onde, com o seu temperamento, nunca teria atracado a barca da sua vida. Foi, ao contrário, um relançamento em alto mar, à descoberta insone de outras ilhas e terras ignotas, uma escalada ao longo de paredes escarpadas em busca de horizontes mais vastos



Ora, a viragem mais desconcertante Jesus operou-a na sua conceção do amor. É este o segundo elemento que extraímos do fluxo incessante dos temas e das palavras de Papini, que, entre outros recursos, adota todas as potencialidades de um arco-íris lexical imenso. Um amor que perdoa, redime, dá-se, envolve inclusive o inimigo e que não é só pregado mas vivido por Cristo, sobretudo na sua paixão e morte. Mesmo os atos menores desse acontecimento, que tem no cimo do Calvário o seu ápice paroxístico, são lidos nesta chave. Por exemplo, a traição de Judas, com «aquele beijo, que é o mais horrível emporcalhamento daquela boca que disse, no inferno da terra, as palavras mais paradisíacas», tem como reação da parte de Jesus apenas o terno apelativo de «amigo». A Pedro, que também o traiu, Cristo, com o seu olhar silencioso, sussurra-lhe: Perdoo quem me faz morrer e perdoo também a ti, e amo-te como sempre te amei.

A convicção é constante: o «doce irmão quotidiano» Jesus é-nos absolutamente necessário porque a inteligência, só por si, não nos salva, o progresso técnico não significa automaticamente civilização e humanidade, um vago teísmo ignora o fogo do Evangelho: «Todos precisam de ti, mesmo aqueles que não o sabem, e aqueles que não o sabem bastante mais do que aqueles que o sabem… Quanto é grande, incomensuravelmente grande a necessidade que há dele». O Jesus de Papini, no entanto, também é capaz de empunhar o chicote contra os mercadores do templo, é «o Homem que oculta Deus na sua casca de carne, o Deus que envolveu a sua divindade na lama de Adão»: «Tu atormentas-nos com toda a potência do teu implacável amor», apertando os corações daqueles que o seguem.



É possível compor um texto teológico de cristologia, assim como aprestar uma joeira crítica de muitos dados sobre o Jesus histórico presentes nos Evangelhos. Menos fácil é o caminho para quem gostaria de propor uma acabada biografia de Jesus Cristo em sentido tradicional



Para além do impulso temerário do carácter do escritor florentino, capaz de invencível ódio e de indomado amor, deve sublinhar-se que a sua conversão não aconteceu num caminho fulgurante de Damasco. Foi, com efeito, elaborada através de uma robusta reflexão que durou de 1919 a 1921, depois da tragédia da guerra que ele tinha invocado e celebrado. Entraram em cena os mais dissemelhantes acontecimentos, como a primeira Comunhão das filhas, a fé serena da mulher, os diálogos como crente fervoroso Domenico Giuliotti, e, sobretudo, um percurso ramificado de leituras: de Agostinho a Pascal, de Inácio de Loyola a Francisco de Sales, dos místicos espanhóis e alemães até à “Imitação de Cristo”, e, naturalmente, aos Evangelhos. A conversão não foi, porém, para ele o aportar a um porto seguro, onde, com o seu temperamento, nunca teria atracado a barca da sua vida. Foi, ao contrário, um relançamento em alto mar, à descoberta insone de outras ilhas e terras ignotas, uma escalada ao longo de paredes escarpadas em busca de horizontes mais vastos, como comprova a sua produção sucessiva, que prossegue até à sua morte, em 1956, aos 75 anos.

Uma observação à margem. Afirmamos que o livro de Papini não é uma biografia de Cristo. Não o são, obviamente, também a “Vida de Jesus”, elaborada por Hegel em 1795 (editada apenas em 1907), nem a de Ernest Renan (1863), curiosa miscelânea de racionalismo e mística, de filologia e fantasia poética, como também não o é a aquela apaixonada de François de Mauriac (1935), nem o “Quereis também vós ir embora?”, de Luigi Santucci (1969), nem, nos antípodas negativos, “O evangelho segundo Jesus Cristo”, de José Saramago (1991). Todas estas e muitas outras obras, a partir da “Vita Jesu Christi”, de Ludolfo da Saxónia (1474), reeditada nda menos que 88 vezes, até àquela de um conhecido biblista como Giuseppe Ricciotti, em 1941, não conseguem respeitar os cânones da biografia histórica em sentido estrito, por causa da particular qualidade das indispensáveis e quase únicas fontes evangélicas que unem incindivelmente história e fé.

É, todavia, possível compor um texto teológico de cristologia, assim como aprestar uma joeira crítica de muitos dados sobre o Jesus histórico presentes nos Evangelhos (veja-se, por exemplo, a colossal investigação do americano John Meier, “Um judeu marginal”, até agora em cinco espessos volumes). Menos fácil é o caminho para quem gostaria de propor uma acabada biografia de Jesus Cristo em sentido tradicional. A esses é-se tentado a indicar esta confissão de um dos mestres da exegese católica do século passado, o dominicano francês Marie-Joseph Lagrange: «Renunciei a propor ao público uma vida de Jesus no sentido comum da expressão, para deixar falar mais os Evangelhos, só por eles insuficientes como documentos históricos para redigir uma história de Jesus Cristo… Os Evangelhos são a única vida de Jesus Cristo que é possível escrever, desde que se consiga compreendê-los bem».


 

Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Conselho Pontifício da Cultura
In Pontificio Consiglio della Cultura
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 15.02.2021

 

 

 
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