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Guerra

A guerra, sob muitos modos, parece ter acompanhado a existência humana desde que há registos de algo a que se possa conferir – e somos nós, seres humanos quem confere – esta classificação específica, precisamente de «guerra». Ora, não há propriamente uma etiqueta objetiva aposta a tais realidades que as determinem como tais independentemente do nosso juízo: é o nosso juízo que ajuíza da nossa ação e lhe confere a designação de «guerra». É, pois, o nosso juízo esse que confere o sentido de «guerra» a um ato qualquer. Nenhum outro ser o faz, a menos que se entre no âmbito do mito ou do mítico-religioso. Nenhum gato ou vírus classificou algo como «guerra». A razão por que o não fizeram parece evidente.

Todavia, se se refletir um pouco, já não parece evidente o que seja isso de «guerra». Há, no entanto, “definições” variegadíssimas, dificilmente se encontrando alguma que não dependa do umbigo intelectual do definidor, ou, mais prosaicamente, de seus, mais ou menos mesquinhos, interesses, todos relativos ao seu poder e à sua impotência.

Há quem olhe primeiro para o manual de ciência política para, depois, verificar se o ato a que assiste é ou não é «guerra». Se isso a que assiste não corresponder com acribia epistemológica à definição do manual que usa, mesmo que seja, por isso a que assiste, estropiado através da mediação de uma granada de mão propositadamente lançada contra si, não considera tal sucesso «guerra». Será qualquer coisa, será tudo, mas «guerra» não é, pois não se enquadra na definição do manual que lhe conforma e limita a inteligência.



Não há guerras acidentais: «ups, invadi a Polónia…»; ou «a mina que pus debaixo do teu tapete explodiu sem eu querer…»: as armas por si sós não invadem Polónias»; as minas explosivas não só não se fabricam a si próprias como também não se vão enterrar debaixo do tapete do vizinho. Estes exemplos anedóticos são significativos e cobrem todas as possibilidades de imbecil desculpabilização ética da origem da guerra



Por seu turno, quem lançou a referida granada de mão, com a finalidade objetiva de matar tal alvo, de o aniquilar, não conhecendo o também referido manual que define isso que é «guerra», realizou, efetivamente, tal ato como «guerra», como um «ato de guerra». Para o estropiado intelectual do manual definidor de «guerra», se tal pessoa assim agiu, fê-lo iludida, pois o que fez não corresponde a um ato de guerra, pois o manual não autoriza a que se chame «guerra» a tal ato.

De notar que, mesmo sem sofisticado manual de ciência política, o supostamente iludido autor do ato de guerra aqui em questão já está objetivamente a ganhar, pois ainda está intacto e o seu «inimigo» já está estropiado. Há, assim, uma pessoa eventualmente iludida quanto à definição do seu ato e uma outra, estropiada pelo ato que talvez corresponda a uma ilusão quanto à sua definição. Esta caricatura é simbólica de muito do debate dito intelectual sobre «a guerra». Os efeitos da guerra, esses, não são caricaturais. Nunca.

Ora, a detonação da referida granada não corresponde a uma ilusão qualquer quanto ao seu efeito atual: o homem do manual de ciência política está mesmo realmente estropiado.



Os Estados não fazem guerra: são as pessoas que constituem os Estados que fazem guerra. Ora, cada pessoa é uma pessoa e pode decidir se quer fazer guerra ou não. Se não puder decidir, ainda é uma pessoa efetivamente ou já é só um vazio humano com forma externa humana? E este esvaziamento não correspondeu já a um ato de guerra de alguém, esse que assim esvaziou de humanidade a pessoa?



A triste narrativa que acabou de se escrever acima serve para mostrar a inanidade de certas posições teóricas relativas à guerra quando o que está em causa não é uma questão teórica, mais ou menos digna epistemologicamente, mas a substância concreta dos atos dos seres humanos, atos de não dependem de definições, atos que, muitas vezes, conseguem escapar mesmo ao que se considera ser suas condicionantes e se manifestam como dependentes apenas da vontade humana, movida pelo desejo humano, funcionando independentemente de qualquer e de toda a racionalidade, sobretudo da racionalidade frágil da epistemologia das realidades não principiais, racionalidade sem a grandeza e foça da lógica ou da matemática.

A guerra, como ato humano, não depende e não obedece a qualquer definição que pretenda limitar o seu possível campo de possibilidade.

A guerra é o que é, como é, na sua máxima latitude antropológica, ética e política, sem que possa haver qualquer definição que possa conter o que é a sua realidade virtual infinita, bem como o concreto de realização de tal infinita virtualidade.



É desculpabilizante culpar a pobre natureza pela humana guerra, fazendo da parte biológica do ser humano portadora da raiz da guerra: «somos com os outros animais»; se as formigas “fazem guerra”, os leões “fazem guerra”, etc., então, no nosso antropológico nicho evolutivo humano, a nosso modo animal, também “fazemos guerra”. Não



A guerra não é, assim, como queria um famoso teórico, algo como um prolongamento da política por outros meios. A guerra é sempre política, pois só se pode dar na relação entre dois ou mais seres humanos, relação que constitui a realidade a que corresponde a definição mais lata do que é o ato político (mesmo alguém que metaforicamente entrasse em guerra contra si próprio, teria de agir num ambiente tipicamente de divisão interna).

A guerra é sempre um ato político, de maior ou menor dimensão, em vários aspetos, sobejamente conhecidos. Todavia, a origem da guerra não é política – ou económica, sendo a economia a parte basilar da política –, mas ética, pois todo o ato de guerra se origina no seio da interioridade puramente ética de cada ser humano. É também nesta mesma interioridade que define o âmbito ético que o ato de guerra, quando não é realizado, não se origina, porque tal interioridade ética, tal pessoa, assim o quer, isto é, quer não querer a guerra.

Nenhum ato de guerra pode originar-se se não for fruto de tal interioridade.

Uma pessoa que caia de um avião e se venha a esmagar sobre outra, assim também a esmagando, não está a cometer sobre a segunda um ato de guerra, mas a ser vítima de um acidente e, sendo-o, a ser objetualmente mediação da morte do outro. Não há, neste exemplo, qualquer dimensão ética, embora a acidentalidade tenha provocado uma relação política, precisamente acidental.



Que uma parte imensa dos seres humanos efetivamente aja como se fosse sujeito e objeto de instintos não invalida que não possa agir de modo diverso. Tem de o querer, o que, muitas vezes, é dificílimo. Todavia, dificílimo não é o mesmo que impossível



Não há guerras acidentais: «ups, invadi a Polónia…»; ou «a mina que pus debaixo do teu tapete explodiu sem eu querer…»: as armas por si sós não invadem Polónias»; as minas explosivas não só não se fabricam a si próprias como também não se vão enterrar debaixo do tapete do vizinho. Estes exemplos anedóticos são significativos e cobrem todas as possibilidades de imbecil desculpabilização ética da origem da guerra: a origem da guerra é ética e é sempre da minha responsabilidade.

Como? Através do ato em que eu – não é vaidade, é assunção de que esta possibilidade carrego-a sempre (e tu também) –, de algum modo, te violento.

A afirmação anterior não corresponde a uma definição de guerra, a mais uma para o manual de ciência política. Antes, manifesta a intuição do que constitui o ato que corresponde ao modo mais lato de, precisamente, «ato de guerra». Note-se que tal entendimento pode ser perfeitamente usado para aplicação a essa coisa impalpável, mas eficaz, que é o «Estado». Todavia, este, sem qualquer pessoa, talvez não consiga “fazer guerra”. Com uma única pessoa, Midas, por exemplo, através do mecanismo de desdobramento nosológico, pelo menos consegue “fazer guerra” contra si próprio.

Percebe-se assim, que os Estados não fazem guerra: são as pessoas que constituem os Estados que fazem guerra. Ora, cada pessoa é uma pessoa e pode decidir se quer fazer guerra ou não. Se não puder decidir, ainda é uma pessoa efetivamente ou já é só um vazio humano com forma externa humana? E este esvaziamento não correspondeu já a um ato de guerra de alguém, esse que assim esvaziou de humanidade a pessoa? Que dizer dos SS e seus inúmeros pares de sempre da humana história da guerra?



A guerra não são os tiranos. É todo o ato em que cada pessoa literalmente rouba possibilidade de ser a um outro, assim o impedindo de ser o melhor possível. Toda a violência, por mais singular que seja. Por mais coletiva que seja



Ainda assim, cada um destes SS e todos os que simbolizam, sendo humanos – e, como não somos SS, não pomos a sua humanidade em causa, aconselhando certas formulações psicológicas a que também o não façam ou tornam-se indistintas de SS –, têm a possibilidade ética de dizer «não» ao desencadear do ato de guerra.

Dirá o “vulgar cobarde de Lineu” que tal ato pode ter um “preço terrível”. Diz bem. Todavia, para que a grandeza propriamente humana se mantenha, para que se não caia em ser-se SS, por vezes, há que querer pagar tal preço, que pode ser a própria vida. Lembremo-nos de Aristides de Sousa Mendes, condenado a um resto de vida miserável por miseráveis outros, mais próximos dos SS.

A guerra é um ato antropológico e antropológico apenas.

Nenhum outro ente “faz guerra”. É desculpabilizante culpar a pobre natureza pela humana guerra, fazendo da parte biológica do ser humano portadora da raiz da guerra: «somos com os outros animais»; se as formigas “fazem guerra”, os leões “fazem guerra”, etc., então, no nosso antropológico nicho evolutivo humano, a nosso modo animal, também “fazemos guerra”.

Não. Nós “fazemos guerra”, sem dúvida. Todavia, a blasfémia natural – antinatural – sobre os demais entes não pega: os animais não fazem guerra: limitam-se a lutar uns contra os outros por razões próprias e irredutíveis a qualquer projeção humana. Se o leão – são mais as leoas que o fazem – caça uma gazela, fá-lo para satisfazer a sua fome. Nada mais o move. Assim para tudo. Quando há nele fome, se puder matar para comer, mata. É assim e não há qualquer alternativa: o leão não pode refletir sobre a possibilidade de matar ou não matar a gazela. Mata-a, sem mais. Sacia a fome. Mais nada.



Quem escreve estas linhas é um mero ente humano comum, tão medíocre em bem quanto o restante comum. Todavia, ainda assim, sabe que há, em Cristo – mas também na humaníssima Maria –, um modelo de Homem sem violência, de um «Homem sem ato de guerra»



O ser humano, que pode também agir como o leão – tal está fora de dúvida – pode, se assim o quiser, agir de modo diverso do do leão: mesmo a morrer de fome, pode decidir não matar a gazela para saciar a sua fome e, assim, morrer de fome. O leão é sujeito e objeto de instinto, a que não pode eximir-se. O ser humano não é sujeito de instintos, pois pode sempre, se assim o quiser, não agir no sentido a que um instinto o obrigaria, como obriga o leão.

Que uma parte imensa dos seres humanos efetivamente aja como se fosse sujeito e objeto de instintos não invalida que não possa agir de modo diverso. Tem de o querer, o que, muitas vezes, é dificílimo. Todavia, dificílimo não é o mesmo que impossível.

Pode, assim, o ser humano, se o quiser, não realizar «ato de guerra», isto é, não violentar o outro ou, no limite, a si próprio.

O mesmo é afirmar que, de cada vez que há guerra – deixamos de escrever com aspas –, tal ocorrência é da responsabilidade exclusiva de um ser humano ou de mais do que um ser humano. Não foi certamente a simpática cadela de Hitler a responsável pelo que aconteceu em boa parte do mundo seu contemporâneo. Todavia, também não foi só o próprio Hitler, pois, sozinho, dificilmente teria derrotado a Polónia, a Holanda, a Bélgica, a França, etc.



Confrontados que estamos com a perspetiva – não com a possibilidade, porque esta existe sempre, perceba-se ou não – de uma guerra em larga escala, que escolha estamos preparados para fazer, a da força ou a da violência?



Houve milhões de pessoas que colaboraram com o ato de guerra de Hitler. Cada uma destas pessoas foi, na medida da grandeza dos seus próprios atos de guerra, corresponsável com Hitler. No entanto, nem só os “próprios de Hitler” foram responsáveis.

Então, todos os que, nos incoativos anos de crescimento de Hitler como Chanceler da Alemanha, quando era quase pueril removê-lo do seu posto, tal não fizeram, deixando que o homem, que anunciou a todos os ventos que ia recosmicizar o mundo, ganhasse poder político e militar a um ponto tal que foi necessária uma guerra já nada pueril para o travar? Não são estes os principais responsáveis, pois, de facto, Hitler fez apenas o que lhe deixaram fazer?

Ora a guerra não é “Hitler” ou todos os tiranos que simboliza. É todo o ato em que cada pessoa literalmente rouba possibilidade de ser a um outro, assim o impedindo de ser o melhor possível. Toda a violência, por mais singular que seja. Por mais coletiva que seja.

Será muito difícil encontrar alguém que nunca tenha cometido um ato de guerra. Certamente não se encontra tal maravilhoso ser em quem escreve estas linhas.

Ora, quem escreve estas linhas é um mero ente humano comum, tão medíocre em bem quanto o restante comum. Todavia, ainda assim, sabe que há, em Cristo – mas também na humaníssima Maria –, um modelo de Homem sem violência, de um «Homem sem ato de guerra».



O tempo é para temperança, coragem e sabedoria; justiça, sem o que a fé e a esperança são vãs. Como sempre, salva-se a caridade, que nunca é vã, porque é a única realidade em si mesma plena. Todavia, não há caridade sem coragem



Mesmo quando Cristo expulsa os vendilhões do Templo, não usa violência, usa apenas a força necessária, sem mais um desnecessário Newton, para que aqueles que não saíram pela persuasão das palavras saíssem pela força do gesto.

Ora, força e violência não são sinónimos: a violência é perversão do uso da força, por excesso, mas também por defeito (o caso dos que não retiraram Hitler do poder antes de ser impossível fazê-lo sem violência). Como excesso, temos, por exemplo, o infame bombardeamento de Dresden, ato de uma violência inenarrável.

Confrontados que estamos com a perspetiva – não com a possibilidade, porque esta existe sempre, perceba-se ou não – de uma guerra em larga escala, que escolha estamos preparados para fazer, a da força ou a da violência?

De nada serve dizer que não se quer a guerra, pois há sempre quem queira a guerra por nós e no-la faça chegar.

O tempo é para temperança, coragem e sabedoria; justiça, sem o que a fé e a esperança são vãs.

Como sempre, salva-se a caridade, que nunca é vã, porque é a única realidade em si mesma plena.

Todavia, não há caridade sem coragem: só se age mediante o motor que a coragem é.

Coragem, então.

Deus ajuda, mas não cava trincheiras e não cura dos feridos. Deixa tal divina honra para nós.

Coragem e misericórdia.

Ainda em tempo de paz.


 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Imagem: Yulia Petrova/Bigstock.com
Publicado em 22.02.2022 | Atualizado em 25.02.2022

 

 
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