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Leitura: "Gnosis. O Conhecimento que Salva. Do gnosticismo antigo à neognose contemporânea"

No livro “Gnosis. O Conhecimento que Salva. Do gnosticismo antigo à neognose contemporânea” [Universidade Católica Editora, 2026] aborda-se o complexo fenómeno do gnosticismo, do mundo antigo à atualidade. Nesta obra recheada de informação histórica e documental, é abordado um fenómeno que nos está a influenciar, de novo, a todos, mas que poucos conhecem e se apercebem da sua presença marcante na sociedade e cultura contemporâneas. Os Papas têm advertido para esta presença “subtil” que está a afetar também os cristãos e a Igreja. Mais recentemente, o Papa Francisco reiterou o aviso: «Que o Senhor liberte a Igreja das novas formas de gnosticismo e pelagianismo que a complicam e detêm no seu caminho para a santidade! Estes desvios manifestam-se de formas diferentes, segundo o temperamento e as caraterísticas próprias. Por isso, exorto cada um a questionar-se e a discernir diante de Deus a maneira como possam estar a manifestar-se na sua vida» GE 62). Na última encíclica, "Dilexit nos, sobre o amor humano e divino do coração de Jesus", o bispo de Roma apresenta como um dos objetivos principais: «não esquecer que esta imagem do coração nos fala de carne humana, da terra, e por isso nos fala também de Deus que quis entrar na nossa condição histórica, fazer-se história e partilhar o nosso caminho terreno» (58). Ora, uma das características da gnose heterodoxa, antiga e atual, é o “esquecimento” da centralidade da carne na fé e espiritualidade cristãs. No nº 87 da mesma encíclica essa tendência é assim explicitada: «multiplicam-se na sociedade de várias formas de religiosidade sem referência a uma relação pessoal com um Deus de amor, que são novas manifestações de uma “espiritualidade sem carne”. Isto é real. No entanto, devo advertir que, no seio da própria Igreja, o nefasto dualismo jansenista renasceu com novos rostos. Ganhou força renovada nas últimas décadas, mas é uma manifestação daquele gnosticismo que já nos primeiros séculos da fé cristã causava dano à espiritualidade e ignorava a verdade da “salvação da carne”».

Não é de agora que o Magistério da Igreja se ocupa e preocupa com o assunto: Há anos, o alvo foi a "New Age", denunciada como uma das expressões mais popularizadas da neognose (a). A novidade dos Pontífices está em denunciar que esse “inimigo” não mora só fora, ou no mundo, mas invadiu a própria Igreja. Dentro desta, vai configurando movimentos, espiritualidades, atitudes, conceções de santidade e da própria cultura, caracterizadas pela “autorreferencialidade” e reafirmação do poder “sagrado” das elites que se autoconsideram mais sábias.

 

Gnosis: Sedução tão nova e tão antiga

Se no início deste século, o Santo Padre João Paulo II reconhecia, no livro-entrevista intitulado "Atravessar o limiar da Esperança", que «a gnose jamais se retirou do terreno do cristianismo, mas sempre conviveu com ele, por vezes sob a forma de correntes filosóficas, mais frequentemente sob formas religiosas e parareligiosas, em decisivo, ainda que não declarado contraste com o que é essencialmente cristão» (Ed. It. Milano 1994, 99), as primeiras décadas já vividas deste século confirmam o diagnóstico.

É conhecida a afirmação de H. Blumenberg segundo a qual o traumatismo gnóstico permaneceu na consciência cristã mais forte do que o sangue dos mártires. E, de facto, a gnose acompanhou o cristianismo oficial, pela história fora, como a sua sombra, ou consorte “interdita” (b) . Se no Oriente o gnosticismo foi reaparecendo, mormente sob as velhas roupagens do maniqueísmo, no Ocidente a sua sobrevivência manifestou-se em diferentes metamorfoses nas quais nem sempre é fácil perceber os contornos específicos.

O filósofo Joaquim Cerqueira Gonçalves fala de «um sobranceiro racionalismo, estruturalmente pessimista, polarizado na luta dualista mal/bem, os dois termos com igual dignidade ontológica, sendo, contudo, o primeiro termo o mais determinante […]. A vida é, por isso, uma cruzada redentora [e tudo é] consumado mediante exercícios automáticos de conhecimento, de que só beneficiarão os privilegiados, os espirituais» (c).

 

Um conhecimento auto-salvífico: o que é o gnosticismo?

Cientes de que não é tarefa fácil trocar por miúdos um dos fenómenos mais complexos que acompanha toda a nossa história, pelo menos desde o século I a.C., podemos resumir o gnosticismo como um “conhecimento” (do grego "gnôsis") sui generis, com estas características:

a) É um conhecimento que salva: não é a fé que nos salva, mas o conhecimento; como tal, foi classificado, desde o Novo Testamento, como “falsa ou pseudo-gnose” ("pseudonymos gnôsis" ,1Tim 6,20).

b) É um conhecimento que implica uma consubstancial identidade divina do “conhecedor”, do conhecido e do modo de conhecer. Lemos no Evangelho da Verdade. Conhecer é reconhecer esta conaturalidade divina entre o sujeito que conhece e o conhecido: a tal centelha (energia) divina que há em nós. Homem e Deus coincidem sem se confundirem: sou um Deus, nascido dos Deuses, brilhante, cintilante, irradiando luz», lemos numa fonte gnóstica antiga.

c) É um “conhecimento” autognóstico, em que a salvação passa pela “augo-gnose”. Conhecer significa, neste caso, ser conhecido. «Este, pois, o verdadeiro testemunho: quando o homem se conhecer a si mesmo e Deus que está para além da verdade, será salvo» (Evangelho da Verdade).

d) É um conhecimento em que o “conhecedor” e “o conhecido” se identificam. Tal teognose assenta no reconhecimento de uma consubstancialidade entre Deus e as almas: estas não são senão fragmentos da substância divina.

e) É um conhecimento supostamente libertador: Prisioneiro do corpo, do mundo e do tempo, o gnóstico distingue-se dos demais por dispor de meios para escapar a esta tríplice “prisão”. «A gnose é liberdade», lê-se no Evangelho de Filipe.

f)É um conhecimento fruto de uma “iluminação” ou “revelação”. Antes de receber a gnose ou iluminação o homem encontra se como que “adormecido”. A “iluminação” gnóstica consiste numa luz ou claridade intelectiva que faz cair o homem na conta da sua origem e destino divinos, despertando-o. Maria Madalena pergunta ao Senhor: «Senhor, agora, o que vê a visão vê a na alma ou no espírito? O Salvador respondeu dizendo: Não a vê em alma nem em espírito, mas sim no "nous" intelecto que se encontra no meio deles» (Evangelho de Maria Madalena, 10).

g) É um conhecimento que pressupõe uma comunicação direta com o divino, sem mediações. Enquanto conhecimento esotérico, a gnose assenta num subjetivismo generalizado. Não se chega a Deus através da carne, da Igreja, ou de qualquer mediação contingente, nem mediante um credo ou fé objetivada numa fórmula doutrinal, nem sequer através de textos considerados inspirados. Alcança-se deus a partir de si mesmo, e cada um por si, e não mediante outrem. «Recebem o ensinamento do Pai, cada um por si, recebem-no do Pai e voltam-se de novo para Ele», diz o Evangelho da Verdade (NHC I,3,21). Um mestre gnóstico exprime-se nestes termos: «Deixa de buscar Deus e a criação e demais questões do mesmo género. Busca-te a ti mesmo em ti mesmo, e aprende quem é que dentro de ti faz seu tudo quanto há, e diz: ‘meu Deus, minha mente, meu pensamento, minha alma, meu corpo’. Aprende donde vem a tristeza e a alegria, o amor e o ódio, o velar e o dormir sem o entender, o irar-se e o bem querer sem o pretender. Se investigares diligentemente tais coisas descobrirás Deus dentro de ti próprio» (HIPÓLITO, Refutatio, VIII,15,1 2).

h) É um conhecimento negador da história. Para a mente gnóstica o tempo e a história, longe de serem lugar de salvação ("historia salutis"), são obstáculos ao conhecimento salvífico. «Algumas correntes gnósticas – lembra o Papa - desprezaram a simplicidade tão concreta do Evangelho e tentaram substituir o Deus trinitário e encarnado por uma Unidade superior onde desaparecia a rica multiplicidade da nossa história» (GE 43).

i) É um conhecimento imanentista. O gnosticismo começa por exagerar a “transcendência” (d), entendida como inacessibilidade e “estraneidade” total de Deus em relação ao mundo criado e à vida do comum dos homens, para, em consequência, identificar a “perfeição divina” com a dimensão pneumática (desencarnada) do homem. Essa Suma divindade acaba, afinal, por identificar-se com o “pensamento, intelecto, razão”, "nôus" que se autocompreende na sua própria transcendência. Neste sentido, o Papa diz que o gnosticismo «quer domesticar o mistério» (GE 40). Embora fale muito de “mistérios” e “segredos”, elimina o mistério, «exaltando indevidamente o conhecimento ou uma determinada experiência, considera que a sua própria visão da realidade seja a perfeição». Desta forma «esta ideologia autoalimenta-se e torna-se ainda mais cega… e enganadora, quando se disfarça de espiritualidade desencarnada» (GE 40). Desta forma, a “falsa gnose” acaba por negar a transcendência, nomeadamente quem julga ter respostas para tudo e quer «tudo claro e seguro, pretendendo dominar a transcendência de Deus» (GE 41).

j) É um conhecimento que absolutiza a experiência. Segundo um dos estudiosos da gnose, Leisengan, a atitude gnóstica perante o mundo pode ser assim descrita: «Aversão pelo amor e suas sequelas, justificação de uma contranatura promovida à posição de natureza, eliminação do esforço, sentimento de só ser compreendido por um entre mil, megalomania, comportamento associal, traços característicos do decadente» (em J. LACARRIÈRE, Os Gnósticos, Lisboa 2001, 87). Efetivamente, a "mens gnostica" desvaloriza a experiência no sentido existencial ou incarnacional do «nosso povo» com «suas angústias, batalhas, os seus sonhos e as suas preocupações» que, segundo o Papa Francisco, «possuem um valor hermenêutico que não podemos ignorar» (GE 44), para sobrevalorizar as experiências intensas, iniciáticas, desligadas das “alegrias e esperanças” do mundo.

l) É um conhecimento iniciático e esotérico. Segundo o gnosticismo antigo, «poucos são os que podem possuir esse conhecimento; um entre mil, dois entre dois mil», lembra S. Ireneu referindo-se a Basílides, fundador de uma das mais afamadas escolas gnósticas (Adv. Haer. II,24,16). Por isso, quase todos os “Evangelhos gnósticos” começam nestes termos: «Eis as palavras secretas (apokrypha) que Jesus, o Vivo, revelou» (NHC II,3,32,1) (e). Ao contrário do Jesus dos Evangelhos que fala sempre aos discípulos e em público, o Salvador gnóstico só revela e fala em privado. «Segundo os Carpocracianos, Jesus teria comunicado os segredos, à parte, aos seus discípulos, e ter-lhes-ia pedido que os transmitissem à parte aos que fossem dignos deles e tivessem fé» (IRENEU, Adv. Haer. I,25,5).

 

Neognose: o gnosticismo hoje

Não obstante o seu carácter sincrético à maneira de bricolage religioso (combinação livre de todas as tradições espirituais), a nova gnose reassume significativos traços do antigo gnosticismo e da “gnose eterna”, nomeadamente nos seguintes aspetos:

- É uma “espiritualidade sedutora” (GE 35) que atrai sem polémica nem discussão, exercendo um «fascínio enganador», porque «supostamente asséptico» (GE 38).

- Busca a salvação por conta própria; entenda-se: busca de uma resposta eficaz para a angústia existencial a partir do sujeito humano.

- É uma religiosidade ou espiritualidade de pessoas “orientadas para dentro”, convictas de que é no interior que se encontra o “potencial” e recursos para a salvação.

- Pressupõe uma antropologia psicanalítica, que não distingue o mundo divino (transcendente) do humano fragmento ("imago Dei").

- O neognosticismo manifesta-se em múltiplas formas de “mundanismo” ou secularismo, que resultam no auto-fechamento da pessoa sobre si (GE 36; EG 94).

- Assenta no primado do imanentismo (monismo): eu e Deus não somos realidades diversas. “Eu sou deus”: sendo “divinos”, nada nos é dado que já não possuamos.

- A via de salvação não se encontra a partir de um Deus que vem salvar-nos assumindo a condição humana, mas a partir do Homem que assume a sua própria condição divina.

- É um sincretismo religioso baseado no esoterismo: A combinação criativa de uma série de correntes espirituais e de saberes “secretos” práticos: mitologia, cultos arcaicos, grandes tradições religiosas, astrologia, psicologia, regime alimentar, terapias, hermetismo, kabbala, hipnose.

- Nesse lago sincrético há uma clara preferência pelas tradições arcaicas e esotéricas pré-cristãs, mormente de proveniência oriental e de teor místico.

- Afirma o primado do misticismo sobre o dogmatismo. Sem dogmas, sem religião nem igrejas, falamos de “espiritualidades” que dispensam mediações e a graça do Espírito; “espiritualidades”, onde a experiência substitui a doutrina.

- A identificação do divino com o “eu profundo” onde a neognose descobre a máxima “energia crística”, também chamada “consciência”.

- Demanda de uma experiência espiritual livre e ecuménica, no sentido de acolher sincreticamente o que importa de todas as religiões.

- Busca de uma abordagem holística da realidade, em reação contra o materialismo e racionalidade fragmentária: Assume o «aspeto de uma certa harmonia ou de uma ordem que tudo abrange» (GE 38). O gnóstico abomina o “escândalo” da Cruz e do “combate” dos mártires.

- Na teosofia gnóstica, Deus deixa de ser uma Pessoa, para se transformar na grande Energia que anima o universo e está em tudo, como “parte” do Todo.

- Daqui resulta uma espiritualidade “sem carne” (GE 37): «Ao desencarnar o mistério… preferem um Deus sem Cristo, um Cristo sem Igreja, uma Igreja sem povo» (GE 37).

- Jesus deixa de ser o Filho de Deus, para ser visto como uma das numerosas encarnações do Cristo cósmico. Tanto o gnosticismo antigo como o moderno estabelecem uma clara distinção entre o Jesus de Nazaré e Cristo; entre o Jesus histórico e o Cristo Cósmico ou a “Energia Crística”. O fundador do cristianismo deixa de se identificar com uma pessoa histórica, para se diluir no horizonte mítico, à maneira dos avatares hindus, dotados de um “corpo” imaterial.

- A matéria e o corpo são “obstáculos” ao itinerário espiritual da alma. Consequentemente, a matéria e o corpo pouco importam, já que só o pneuma ou a “energia espiritual” interessam. A neognose proclama o primado absoluto do espírito sobre a matéria e reduz esta a energia diluída no universo (f).

- O homem é um pequeno deus adormecido, ou um anjo caído que se lembra do paraíso donde proveio; a ânsia de alcançar o amor e a felicidade definitiva na neognose não é senão uma outra forma de expressão da nostalgia do mundo divino (Pleroma) que já foi o nosso reino, esse mundo Uno com o qual o homem anela por fundir-se.

 

Uma espiritualidade sem carne nem Espírito

Os novos movimentos espirituais e religiosos de tipo gnóstico procuram uma experiência direta e imediata da Consciência divina e cósmica. Uma experiência que é interior e regenerante, e que coincide com a tomada de consciência de Si, isto é, da própria natureza e origem autênticas. Esta iluminação permite reconhecer-se em Deus e como deus: uma emanação divina e, portanto, estrangeiro neste mundo.

Este narcisismo não está isento de novas formas de ceticismo: “o céu sou eu!” e é perfeitamente compaginável com uma visão holonímica e planetária, ao promover a ideia de que nos aproximamos de um mundo novo e de um pensamento único.

Observa-se ainda a espiritualização da ressurreição e salvação: os gnósticos negam a ressurreição em sentido literal, tal como é narrada nos Evangelhos canónicos. Consideram tal compreensão própria da “fé dos ignorantes” (E. PAGELS, Os Evangelhos Gnósticos). Para eles, a ressurreição assume um significado simbólico, acabando por coincidir com a auto-gnose ou reconhecimento da nossa condição espiritual. Também Cristo, não ressuscitou num corpo verdadeiramente, mas num corpo psíquico e espiritual. E foi este corpo psíquico que os Apóstolos viram nas aparições narradas nos Evangelhos.

A via de salvação continua a ser o “conhecimento” religioso e espiritual (e psicológico) pelo qual se opera a transformação da consciência profunda, cerne do nosso ser. No caso da neognose o efeito salvífico opera-se através de uma terapêutica holista. É a Consciência ou Energia que me habita que transformará o homem. Só para despertar e passar do seu ego superficial à Consciência universal o homem necessita de um guru ou mestre exterior que o guie ao encontro do mestre interior (Espírito/Consciência/Energia) que se identifica com o próprio Deus.

Os novos gnósticos retomam as ideias antigas da reencarnação, em conformidade com a centralidade do eu interior, eu superior, eu maior, eu crístico ou eu divino. Sob esta convicção comum, há, contudo, entendimentos diversos da mesma crença: enquanto o gnosticismo histórico crê na possibilidade de a alma retroceder, encarnando em corpos de categoria inferior (IRENEU, Adv. Haer. I,25,4; II,33), a teosofia moderna e a Nova Era não admitem tal retrocesso. A alma progride num continuum de consciência ao longo das inúmeras existências.

Esta crença na reencarnação está fortemente associada à psicologia do potencial humano ou transpessoal que se desenvolveu sobretudo a partir dos anos 60 do século passado. O vetustíssimo preceito “conhece-te a ti mesmo” converte-se num vincado narcisismo, fruto da exaltação da liberdade e do individuo, onde valem sobretudo as experiências e utopias pessoais.

O traço comum mais forte que o gnosticismo tem com a New Age é, outra vez, a profunda rebelião face ao mal. Esta atitude traduz-se sobretudo na rejeição das instituições e da cultura dominante, que para os gnósticos do mundo antigo era representada pelas escolas e sistemas filosóficos e religiosos da época helenística, enquanto no ambiente New Age é associada à cultura científica e racionalista, bem como às religiões tradicionais, com seus credos e instituições.

 

Um novo paradigma: terapias da alma

A neognose anuncia há décadas o advento de um novo paradigma, que se traduz no insistente apelo à necessidade de uma profunda mutação de paradigma mental, como condição incontornável para o advento de uma nova era de paz e prosperidade universal; significa sentenciar, frente à cultura “moderna”, um juízo explícito de condenação sem apelo tanto da metafísica como da física, o que acaba por resultar na moderna cultura anti-cósmica.

Novas terapias da alma: «a grande enfermidade do século XX, ligada a todos os nossos problemas e afetando-nos individual e socialmente, é a “perda da alma”. Quando é ignorada a alma assinala a sua presença, sintomaticamente, através de obsessões, dependências, violência e perda de significado» (g). Estas palavras de um dos grandes divulgadores contemporâneos da “alquimia da alma” remetem-nos naturalmente para o antigo gnosticismo, que partia da denúncia da situação de “esquecimento” em que se encontra o homem verdadeiro ("self") neste mundo (h).

Outro traço genuinamente gnóstico é a promessa de uma autorredenção através do recurso a “técnicas” espirituais específicas. Deste modo, o sujeito (ou o seu guru) gere ele próprio os vários estádios do caminho de crescimento interior, a partir da autoconsciência de que em si moram todas as possibilidades deste e de outro(s) mundo(s). Neste caminho de autorredenção, cada experiência é compreendida e acolhida sem necessidade de formas particulares de autocrítica e, sobretudo, sem os maçadores conceitos de culpa e pecado.

Tal como na antiga gnose, o homem da "New Age" sente-se “sem culpa” dos seus erros, porque estes dependeriam de uma falta de “consciência” do que deveria ter sido o comportamento correto e, de qualquer modo, todas as experiências, inclusive as negativas, ajudam a crescer num determinado caminho. Mais que o elogio da virtude ou a busca de uma ética, revaloriza-se o “erro” (ovelha tresmalhada ou “negra") como condição de superior autorrealização. Mais do que dizer o que se pensa e pensar o que se diz, deve dizer-se o que se sente e agir como tal: vai onde te leva o coração. Ama e faz o que o coração te diz. Não se pode falar de mal ou de bem moral, uma vez que o homem é medida de todas as coisas e basta-se a si mesmo. A “nova era” abomina as “tábuas da lei” e tende a fazer "tabula rasa" das normas e valores pregados pelas religiões ou outras instituições.

 

Se eu não tiver caridade…

«Graças a Deus, ao longo da história da Igreja ficou bem claro que aquilo que mede a perfeição das pessoas é o seu grau de caridade e não o conhecimento» (GE 37). Esta constatação do Papa Francisco vem já desde os tempos de S. Paulo. De nada vale, como ensina o Apóstolo, potencializar todas as faculdades humanas, “se eu não tiver caridade”. De nada vale «uma mente [iluminada] sem incarnação, incapaz de tocar a carne sofredora de Cristo nos outros» (GE 37). Como afirmou no século II S. Ireneu, «o conhecimento/gnose verdadeiro é o ensinamento dos Apóstolos; e o organismo original da Igreja dispersa por todo o mundo; e a marca distintiva do corpo de Cristo, segundo a sucessão dos bispos aos quais os Apóstolos confiaram cada Igreja local; os ensinamentos das Escrituras, não manipuladas, mas interpretadas no respeito integral, sem adições nem subtrações, numa leitura isenta de fraude ou de blasfémia; finalmente, o dom elevadíssimo do amor, mais precioso que o conhecimento/gnose, mais glorioso que a profecia, superior a todos os outros carismas» (Adv. Haer. IV,33,8).

Nesta definição da “verdadeira gnose” que o cristianismo nunca repudiou - pelo contrário! - reside também a resposta ao que os Padres da Igreja combateram como “falsa gnose” e que nunca morreu totalmente. Caracterizada por uma infinita capacidade de se adaptar e metamorfosear, emerge sempre, com particular vigor, em tempos de grande crise e ansiedade social. Não admira, pois, que esteja de volta.

Este livro visa sobretudo ajudar a perceber onde e como.

 

(a) Cf. CONSELHO PONTIFÍCIO DA CULTURA – CONSELHO PONTIFÍCIO PARA O DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO, Jesus Cristo, portador da Água viva. Uma reflexão cristã sobre a Nova Era, Città del Vaticano 2003.
(b) H. BLUMENBERG, Säkularisierung und Selbstbehauptung, Frankfurt a. M. 1974, 146-157.
(c) JOAQUIM CERQUEIRA GONÇALVES, São Francisco de Assis e a Ecologia, in Itinerâncias de Escrita, III, 451-452.
(d) Cf. ALDO MAGRIS, La logica del pensiero gnostico (e) A mesma expressão se encontra no Evangelho de Judas e no Evangelho de Tomé o Atleta (NHC II,7,238).
(f) Um dos pioneiros da New Age, Gerorge Trevelyan, garante que a “Nova Era” «é o domínio do Espírito sobre a matéria e os fenómenos do mundo material. Numa perceção espiritual do mundo, compreender é olhar a face interior das coisas e mover-se na esfera da Consciência que se expande sem cessar» (A Vision of the Aquarian Age. The emerging spiritual world view, 1977, 5).
(g) THOMAS MOORE, O sentido da alma. Como desenvolver a dimensão profunda e sagrada da vida quotidiana, 1996, 9.
(h) THOMAS MOORE, O Self Original. Meditações, 2003.



 

Fr. Isidro Pereira Lamelas, OFM
Professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa
Imagem: Capa do livro | D.R. | Imagem de fundo: Foto de Will van Wingerden na Unsplash
Publicado em 17.02.2026

 

Título: Gnosis. O conhecimento que salva. Do gnosticismo antigo à neognose contemporânea
Autor: Isidro Pereira Lamelas
Editora: UCP Editora
Páginas: 380
ISBN: 9789725411872

 

 
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