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Fides quaerens intellectum

Santo Anselmo de Cantuária tem uma obra, mais conhecida como Proslogion, mas que também recebe o nome de Fides quaerens intellectum.

Trata-se, como o título longo manifesta claramente, de tratar da fé em busca da inteligência, entenda-se da inteligência de «o ato que é» enquanto ato de fé. Não se trata, neste nosso textinho, da obra Proslogion, trata-se, outrossim, da relação fundamental que «Fides quaerens intellectum» implica.

Ora, «Fides quaerens intellectum» é o melhor lema, e também programa genérico e universal, para a Teologia. A Teologia é, precisamente, «Fides quaerens intellectum» em ato ou não é coisa alguma. Se não corresponder a sua atividade a este lema, trai o sentido fundamental, lógico, isto é, segundo o «logos», da sua missão, mas, também, da sua essência e substância.

Qualquer atividade que se reclame como «teologia», mas que não cumpra o desiderato, o fim e o modo geral da expressão de Anselmo, não é Teologia, é outra coisa qualquer.

O que distingue, sobretudo contemporaneamente, a actividade da Igreja Católica e de outras confissões cristãs, também de outras religiões, é o facto de trabalhar alicerçada numa Teologia. Sem esta – e todo o religioso que a não possui, variegadamente, não passa de actividade propriamente irracional, porque não submetida à inteligência para que remete a expressão de Anselmo –, isto é, sem Teologia, não temos mais do que seitas e actividade sectária, com todas as repercussões éticas, políticas, antropológicas, que tal modo de se ser religião acarreta. Para constatar tal, basta contemporaneamente olhar em nosso redor e talvez não muito longe.



Grande parte do religioso e das suas concretizações – que são as religiões – é mito. Um mito em si mesmo não respeita o lema de Anselmo



A crescente ascensão de movimentos de tipo sectário no seio das Igrejas, também da Católica, releva fundamentalmente de um falhanço teológico, isto é, de inteligência do acto de fé.

Este ato não é único, não é uniforme, não é algo que se prolongue no tempo imodificado. Não é paradigmatizável de forma mecânica, não é, de facto, politicamente controlável – se bem que se tente –, não é massificável, não é protocolarizável.

Não é tudo isto por uma simples razão: o ato de fé é pessoal. O ato de fé é simplesmente pessoal, sendo que a pessoa é relação, ontologicamente e fundamentalmente com Deus: não há fés de povos, fés de grupos, mesmo falar de ‘fé da Igreja’ é apenas um modo prosopopaico, em metáfora significativa, mas a que nada de concreto corresponde na realidade, precisamente porque o acto de fé é pessoal e nunca é colectivo.

Da metáfora à mentira vai uma grande distância lógica. Todavia, uma e a outra, ambas poéticas, ainda que não necessariamente perversa a primeira, não dizem a realidade. Dizem «da realidade», mas não dizem «a realidade», substituindo-a por «outra coisa». Ora, a realidade é o que é, não o que se deseja que seja, não o que se quer que seja, por exemplo, a capricho.



O crente mítico vive o que vive miticamente (não é mitologicamente, porque tal é já do âmbito do reflexivo), realiza os rituais que realiza e que mantêm vivos os preceitos míticos, acredita no que acredita, mas não se questiona sobre o sentido disso em que acredita



Se a grande poética da metáfora que acrescenta positivo sentido ontológico é bela e boa, como toda a verdadeira criação ontológica – onto-poiética –, já o uso da metáfora – em sentido lato – de qualquer modo, por ser de qualquer modo, mente.

Não é difícil perceber que a mentira também cria realidade: basta olhar em torno; por vezes, basta olhar para o seio de cada um de nós. Todavia, a realidade que cria é perversa; é destrutiva; é anti-ontológica; é cancerígena, onto-cancerígena  – eis uma metáfora hiperbólica, mas, aqui, válida.

Os mitos cosmológicos eram e são grandes metáforas, criadas não para mentir a realidade, mas para, com a devida humildade de quem busca, como pode, sentido, o absoluto do sentido, entrever algo de «lógico» no seio da multiforme movimentação que constitui o ato do mundo.

Bem estudados, os mitos revelam – assim mitologicamente, porque estudados – estruturas lógicas. São estas estruturas que promovem o sentido, que põem sentido no movimento; são elas que criam «mundo», realidade oposta a «imundo», isto é, sem ordem (a sujidade é apenas uma sua forma; a ecologia como sentido de ordem própria, natural, é muito mais antiga do que o que se vende por aí).

Ora, grande parte do religioso e das suas concretizações – que são as religiões – é mito.

Um mito em si mesmo não respeita o lema de Anselmo.



Uma Teologia que não seja a possível infinita busca em ato do sentido do acto de fé está morta. Então, que descanse em paz, já que não soube viver



O crente mítico vive o que vive miticamente (não é mitologicamente, porque tal é já do âmbito do reflexivo), realiza os rituais que realiza e que mantêm vivos os preceitos míticos, acredita no que acredita, mas não se questiona sobre o sentido disso em que acredita.

Vive o sentido do mito e põe-no em prática nos ritos de um modo puro. Entre o crente mítico e isso em que acredita não há separação. Talvez seja a forma mais pura de viver a religião. Todavia, como não é reflexiva, como não submete à inteligência reflexiva isso que vive, não tem o tipo de inteligência teológica que serve de motor à reflexão de Anselmo.

Este não se limita a crer. Como ser humano inteligente e capacitado para ser essa mesma inteligência em acto, Anselmo quer crer com sentido. Quer saber o que é isso em que crê.

Não se trata de qualquer forma típica de um Prometeu – o original limitou-se a procurar emendar a estupidez divina própria da narrativa em que o fizeram nascer –, mas da atitude humilde de quem sabe que pode saber o «logos» que está no princípio, não segundo a grandeza própria do «logos», mas segundo aquela que é própria do Anselmo (minha, tua, a humana universal, variegada).



O corpo vivo da Teologia é esta busca, de matriz anselmiana, do sentido do ato de fé. Enquanto houver fé, é tarefa da Teologia prosseguir esta vida inteligente, verdadeiramente espiritual. Sem esta inteligência, não há espírito. Sem espírito não há humanidade



É ao humilde Anselmo que a Teologia – e não só – deve o sentido de que a aproximação noética a Deus é infinita, passível de infinito aperfeiçoamento, estando, no entanto, sempre, esse que busca a inteligência, o «logos» de isso em que acredita, sempre a uma distância infinita, mesmo segundo a inteligência, de isso que busca e em que crê.

Anselmo mostra, assim, a infinitude possível do ato humano – também teológico – de fé, no mesmo ato em que mostra que tal é assim porque o objeto de fé é infinito em ato e a possibilidade do que busca a fé é logicamente infinita, linearmente ou espiraladamente, assim abrindo teoricamente a porta para que a inteligência sobreviva à própria morte segundo a matéria porque o espírito humano é capaz de busca infinita. E é.

Ora, a Teologia ou é isto que Anselmo propõe ou é nada.

O corpo vivo da Teologia é esta busca, de matriz anselmiana, do sentido do ato de fé. Enquanto houver fé, é tarefa da Teologia prosseguir esta vida inteligente, verdadeiramente espiritual. Sem esta inteligência, não há espírito. Sem espírito não há humanidade.

Uma Teologia que não seja a possível infinita busca em ato do sentido do acto de fé está morta.

Então, que descanse em paz, já que não soube viver.

A vida continuará sem Teologia.


 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa. Faculdade de Ciências Humanas
Publicado em 19.03.2021

 

 
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