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Cinema: O alfabeto de Fellini no centenário do nascimento

É um alfabeto de luxo aquele que foi cunhado por Federico Fellini: a cada letra corresponde ou um grande ator ou um célebre filme, bem como um símbolo ou um ícone de refinada manufatura. Do A de "Amarcord" ao V de "Vitelloni", passando pelo E de Ekberge e o G de Giulietta. E não podemos deixar de dar o justo relevo ao P de Paparazzo. O livro "Amarcord Fellini. O alfabeto de Federico", de Oscar Iarussi, orienta o leitor ao longo do exaltante itinerário da poética do cineasta nascido a 20 de janeiro de 1920, em Rimini, Itália. Um itinerário articulado pelas letras deste peculiar alfabeto, compondo um itinerário um cenário caracterizado por uma dupla dimensão: de um lado, as luzes da ribalta, ou seja, os sucessos e as honras; do outro, a solidão do homem e do artista, animado, mas não menos angustiado, por uma ânsia, nobilitante mas também corrosiva, de busca.

O mundo que Fellini descreveu é complexo, rico de cambiantes, de mensagens subentendidas, de citações eruditas. No entanto, ao contar-se a si próprio, o realizador não podia ser mais espartano. Não por acaso, a primeira página do livro abre-se com uma frase que em poucas palavras diz tudo: «Nasci, vim para Roma, casei-me, e entrei na "Cinecittà". É tudo». A esta afirmação segue uma declaração de Fellii que, justificadamente, se pode assumir como a sua marca registada: «O visionário é o único verdadeiro realista». Trata-se, escreve Iarussi, de «um magnífico paradoxo», que ao cineasta reconhece outro mérito: o de ter sido entre os poucos a saber narrar uma Itália em radical transformação. A sua não foi, seguramente, uma obra simples, dado que foi «muitas vezes incompreendida ou hostilizada, pontualmente equivocada sob o signo da presumida nostalgia exuberante, quando, ao contrário, ilumina o presente ou até capta o futuro».



«No fim de contas, ele [Pasolini] e eu narrámos sempre derrotas. Mas desejo, tenho de conseguir dizê-lo, que acredito que a arte é isto, a possibilidade de transformar a derrota em vitória, a tristeza em felicidade»



Vencedor de cinco prémios Óscar, Fellini - sublinha Iarussi, ensaísta, crítico cinematográfico e literário - foi um «refinado antropólogo dos século XX no seu fazer-se e desfazer-se». A sua excelência pode medir-se também pela capacidade de consagrar a supremacia do estranho, do sarcástico, do bizarro. Esse primado do grotesco articula o progressivo declínio de uma sociedade envelhecida e cansada, «talvez a pagar - evidencia Iarussi - a recordação, ou a pálida imitação, muitas vezes parodiada, do seu florescimento lendário nos tempos do boom dos anos 69, ou da "dolce vita"». No livro torna-se presente, depois, que sem as  «dilacerantes invetivas» de Pasolini contra a modernidade, Fellini configura-se como uma clarividente testemunha no campo das metamorfoses sociais. Entrevistado pelo amigo Georges Simenon, Fellini confessou: «No fim de contas, ele e eu narrámos sempre derrotas. Mas desejo, tenho de conseguir dizê-lo, que acredito que a arte é isto, a possibilidade de transformar a derrota em vitória, a tristeza em felicidade».

Na cultura de massa e no imaginário coletivo, o nome de Fellini está ligado antes de mais ao filme "La dolce vita". Ganha desde logo um enorme sucesso: estima-se que no ano em que saiu, 1960, foram mais de 13 milhões e meio as pessoas que acorreram às salas. Entre os menores não faltaram os menores de 16 anos, apesar da proibição da comissão ministerial (só em 1975 essa interdição será baixada para os 14 anos). A crítica não foi unívoca: sobre a película não choveram só elogios,mas também críticas ferozes, antes de tudo da parte eclesiástica, recorda Iarussi: O "L'Osservatore Romano" escreve um comentário intitulado "A vida obscena" (para depois publicar, no cinquentenário do filme, em 2010, um ensaio elogioso).



No jogo de ficção e realidade, Fellini estava completamente à vontade. Mas ao mesmo tempo pagava o tributo, em termos de identidade, deste entretecer - nunca verdadeiramente fluido e estabelecido de uma vez por todas - de coisas fatuais e citações abstratas



Em "La dolce vita", o realizador, em balanço precário entre a dimensão objetiva e onírica, entre realidade e veia surrealista, descreve em filigrana uma Itália que se quer divertir: mas é um divertimento que não consegue sacudir um sentimento de amargura constante, um travo de desilusão cheio de melancolia. No «banho fatal» de Ekberg na fonte de Trevi - afirma Iarussi - a Itália torna-se num país «em que se podem experimentar amores passageiros e grandes paixões, aventuras noturnas e um amanhã de olhos abertos». Iarussi salienta que quer Vittorio De Sica quer Luchino Visconti não têm razão porque, como muitos, interpretaram o filme como uma apologia do vício ou do tempo perdido «entre os braços de uma Roma sedutora e paralisante».

No jogo de ficção e realidade, Fellini estava completamente à vontade. Mas ao mesmo tempo pagava o tributo, em termos de identidade, deste entretecer - nunca verdadeiramente fluido e estabelecido de uma vez por todas - de coisas fatuais e citações abstratas. Muito significativo é o que o realizador declarou em fevereiro de 1993, poucos meses antes de morrer. Na véspera da cerimónia, em Los Angeles, onde ganhou o Óscar de carreira, Fellini confiou ao amigo jornalista Vincenzo Millica: «Se tivesse de escrever frases para um ator chamado a interpretar a parte de um cineasta premiado com o Óscar, provavelmente sair-me-ia suficientemente bem. Mas o facto de ser eu próprio envolvido neste acontecimento, torna-me balbuciante e inseguro».Com efeito, nestes casos - notava o realizador - é preciso ser-se espirituoso, inteligente, elegantemente distante. E deve-se ser, sublinhava não sem ironia, «também felliniano». E sentenciou: «Este é o papel mais difícil, porque apesar der lisonjeador ter-se tornado um adjetivo, não sei o que quer dizer». Nesta frase está todo o Fellini (e a assinatura felliniana).


 

Gabriele Nicolò
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Federico Fellini | D.R.
Publicado em 19.01.2020

 

 
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