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Família e mística do quotidiano

A pintura de Jan Knap (Chéquia, 1949) só na aparência é simples. Hoje, a simplicidade faz pensar em banalidade. As obras de Knap, quando se estuda e aprofunda também o conhecimento do artista, de aparentemente elementares tornam-se intelectualmente exigentes. Anjinhos com asas, crianças de rostos doces, ambientes domésticos de casa de bonecas, estes particulares ocupam a pintura de Knap. Pode parecer anacrónica, vista a aspereza das linguagens da maior parte dos artistas contemporâneos. Pode parecer adocicada, sentimentalista, em conflito com esquizofrenia da nossa humanidade, pode até escandalizar pela mansidão das suas figuras, todavia não é nada disto. Por trás das composições idílicas ocultam-se investigações filosóficas, teológicas, antropológicas. Aluno do maior artista contemporâneo, Gerhard Richter, dele aprende o uso e as potencialidades das cores, mas não o imita, não lhe segue os códigos expressionistas abstratos, antes afasta-se deles desenvolvendo a sua assinatura estilística, dominada pelo sagrado na proposta cristã católica (Knap estudou filosofia e teologia em Roma, de 1982 a 1984).

A iconografia da Sagrada Família não nasce de impulsos emotivos fideístas, de devocionismos gratuitos, nasce do estudo do Evangelho, da individuação daquela “luz” que só quem indaga seriamente o Evangelho consegue colher, e da qual não poderá voltar a prescindir. A identidade de Knap revela-se ao entrar nas salas dos seus quadros, sentando-se às mesas preparadas, olhando das janelas de luz o quotidiano da família que é sagrada, tanto quanto o é a própria família.



A fé dos membros de uma família não se mede pelo número de imagens sagradas presentes em casa ou pela quantidade de reuniões semanais nas quais participa, mas na vida de família praticada e pensada segundo o Evangelho de Jesus



Um quotidiano que nas obras de Knap se torna mística, espaço onde se dá lugar a Deus, no sofá, à noite antes de adormecer, de manhã ao despertar. O papa Francisco fala da beleza do quotidiano: aceitar em silêncio a fragilidade do outro, saber pedir por favor e perdão, ter gestos de doçura, mostrando concretamente a bondade.

“A Sagrada Família” é um óleo sobre tela de 1994, repleto de candura e sabedoria familiar, poderíamos dizer. Nostálgico daquelas famílias que vivem no nosso imaginário. Vislumbramos um classicismo na composição que transparece contemporaneidade no uso das cores e luz que se reflete sobre uma branquíssima toalha em contraste com o cinzento das paredes. Paredes despojadas, provadas de decoração, exceto uma cruz estilizada. Estão José e Maria com o Menino, têm a auréola, mas são ao mesmo tempo todos os José e Maria de hoje que carregam a cruz ou a suspendem na parede como guia. A fé dos membros de uma família não se mede pelo número de imagens sagradas presentes em casa ou pela quantidade de reuniões semanais nas quais participa, mas na vida de família praticada e pensada segundo o Evangelho de Jesus.

Mas regressemos à concretude das paredes de casa: vem à nossa mente uma passagem profética do papa Francisco na “Amoris laetitia”: «A falta duma habitação digna ou adequada leva muitas vezes a adiar a formalização duma relação. (…) A família tem direito a uma habitação condigna, apropriada para a vida familiar e proporcional ao número dos seus membros, num ambiente fisicamente sadio que proporcione os serviços básicos para a vida da família e da comunidade» (n. 44). A casa é importante na pintura de Jan Knap talvez porque, obrigado a fugir da Checoslováquia do bloco soviético, exilou-se entre a Europa e os EUA. Quase um nómada, Jan insere nos seus quadros casas silenciosas, cenas de vida familiar íntimas, janelas com vista para jardins relaxantes, para aceder à necessidade de luz.



É na fé, vendo o anjo, que José compreende o seu papel e consegue levá-lo por diante, apesar das dificuldades. Quantos pais e esposos têm dificuldade em tomar decisões, em fazer escolhas acertadas diante dos obstáculos que a vida lhes lança



José e Maria, na obra que estamos a observar, são pais que não têm medo de falar de Deus e com Deus, aspiram ao Paraíso (a maçã e os anjos sentados à mesa recordam-no), são pais que na limpidez dos seus olhares, as roupas sem pechisbeques inúteis, a compostura dos seus corpos, os cabelos penteados, símbolos de humildade como valor, não como submissão beata, transmitem-nos a beleza da família na simplicidade da fé. Eis a riqueza e a força deste quadro. Grita quando é bela a família que crê.

A mesa é o lugar da reunião familiar, onde se conta e interpreta a realidade. Assim se desvela a vida à luz do Evangelho, as palavras trocadas às refeições são uma escola quotidiana de vida entre pais e filhos. Como vão as coisas com aquele colega insuportável? Como lidamos com aquele companheiro de escola aborrecido? Como andam as coisas no mundo? As respostas, se nascem do Evangelho, tornam-se o catecismo familiar. Mergulhado na vida verdadeira.

“A Sagrada Família” de Knap é composta por muitos quadros num só. Cada personagem poderia ser, só por si, um quadro. Cada particular traduz-se numa multiplicidade de visões na unicidade de ser família. O pai, com o anjinho que evoca o sonho de José, parece dormir de olhos abertos. Com efeito, está ausente em relação ao que está a acontecer do outro lado da mesa, respeitando na perfeição a iconografia clássica de um José que está ao lado porque é apenas um guardião. Os protagonistas são Maria e Deus. É na fé, vendo o anjo, que José compreende o seu papel e consegue levá-lo por diante, apesar das dificuldades. Quantos pais e esposos têm dificuldade em tomar decisões, em fazer escolhas acertadas diante dos obstáculos que a vida lhes lança!



Família é também concretude: coisas a fazer, justiça que se pretende, salário a procurar e a utilizar de maneira inteligentes, ambientes a cuidar. Nenhuma família pode pensar viver sem trabalho, depender do dinheiro dos outros, não receber a justa recompensa



Desloquemos o olhar para Maria. É “Nossa Senhora com o Menino”. Folheiam ou brincam com um livro, claríssima evocação e homenagem à iconografia do século XVI, relida hoje. Maria, com aquela criança loura, quase à maneira de Botticelli, folheia as páginas brancas de um livro por escrever, que revelará a história a verdadeira salvação.

E depois o anjinho com as penas sobre a cadeira e as mãos postas. Homenageia Maria, rainha dos anjos? É um anjo da guarda? Sabemos que toda a família tem uma parte de si no Céu. Pode ser a criança concebida que não viu a luz ou o familiar que morreu mas que está sempre junto de nós e que um dia reencontraremos, porque a ressurreição nos juntará a todos para sempre.

À esquerda encontramos uma porta dourada, de acesso ao laboratório de José. O trabalho está separado mas não está distante da vida familiar. Família é também concretude: coisas a fazer, justiça que se pretende, salário a procurar e a utilizar de maneira inteligentes, ambientes a cuidar. Nenhuma família pode pensar viver sem trabalho, depender do dinheiro dos outros, não receber a justa recompensa.

Da janela vê-se o céu azul, plantas verdes, nuvens que trazem vida. Esta família está mergulhada numa beleza terrena, mas não só.



Imagem "Sagrada Família" | Jan Knap | D.R.

 

Massimiliano Ferragina, Luca Pasquale
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "Sagrada Família" | Jan Knap | D.R.
Publicado em 08.07.2021

 

 
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