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Falar de Deus quando Deus já pouco interessa

«A cultura cristã está em clara regressão, em particular entre os jovens»: é o título de um artigo publicado no jornal francês "Le Monde", em agosto, ao comentar os resultados de uma sondagem realizada no início desse mês. O colunista escreve: «Há um fenómeno global de secularização da sociedade. A muitos não interessa grande coisa conhecer essa cultura, que se tornou uma língua estrangeira, ou até desconhecida, para a grande parte das jovens gerações». É a situação em que nos encontramos.

Nesta sondagem fala-se de «cultura cristã», e não de «fé cristã». Pode ter-se uma boa cultura cristã sem ter a fé, enquanto o inverso não é praticamente possível, dado que a fé nasce da palavra, e essa palavra contém necessariamente elementos de conhecimento e, portanto, de cultura.

Nestes anos tem havido muitas outras sondagens que indicam um declínio contínuo da prática religiosa e da adesão aos dados da fé. Há bons motivos para considerar que esta tendência vai prosseguir. Para aqueles que são crentes, esta situação é um verdadeiro desafio, sem contar com o sofrimento que pode comportar, em particular para as pessoas idosas que constatam o abandono da religião nos seus filhos, e ainda mais nos seus netos. O problema é saber como é possível hoje comunicar a fé, que palavra e que testemunho poderão superar esta ausência de interesse evidente pelas realidades da fé.



«Não», poderemos retorquir a Cristo, «quem te viu não viu o Pai, o Pai é outro, alguém que não se tem o direito de confundir contigo! Serás talvez o falso profeta de um Deus sem transcendência? Já estamos suficientemente cheios deste apelo permanente ao humano, precisamos, antes, de um Deus outro, de um Deus que nos eleve a alma para o alto, afastado dos nossos vales de lágrimas»



A secularização é um dado de facto. Seria preciso saber como fazer nascer um interesse pela questão de Deus para além de qualquer percurso religioso. Mas é possível? O problema não é totalmente novo, dado que foi colocado profeticamente por Dietrich Bonhoeffer, cujas Cartas da prisão são imprescindíveis. Sem dúvida que não há outra possibilidade para colher alguma coisa da fé a não ser falar de Deus a partir das nossas realidades humanas. A situação atual convida-nos a superar uma maneira de proceder tradicionalmente dedutiva que consiste em partir de um Deus definido preliminar para daí deduzir seguidamente uma "visão cristã" do ser humano.

Não se trata de falar do ser humano a partir as realidades religiosas. Trata-se, antes, de falar de Deus a partir do ser humano. A questão de Deus não pode ter sentido a não ser no prolongamento da questão ser humano. Situa-se no seu desenvolvimento. Deus torna-se aquilo que constitui o coração da consistência humana. Deixa de ser aquele a partir do qual se poderia deduzir aquilo que é o ser humano, dado que é Ele cujo rosto se constrói a partir da nossa humanidade. Sim, é precisamente a partir do ser humano que podemos conhecer algo de Deus.

Este percurso não faz mais do que conformar-se ao facto da revelação de Deus no homem Jesus. É precisamente a partir desta humanidade singular que á a de Jesus de Nazaré que se delineia o rosto de Deus. De tal maneira que Jesus declara em João 14,9: «Quem me viu, viu o Pai». Palavra que se poderia definir, a partir dos nossos hábitos religiosos, como «reducionismo inaceitável».



Não é talvez Ele o Deus que deixou de interessar às pessoas, a despeito das buscas religiosas de um número cada vez mais reduzido de pessoas? Não é, em resumo, o Deus das religiões, esse Deus todo-poderoso, glorioso e condescendente, que deixou de ser credível para a maioria dos nossos contemporâneos?



«Não», poderemos retorquir a Cristo, «quem te viu não viu o Pai, o Pai é outro, alguém que não se tem o direito de confundir contigo! Serás talvez o falso profeta de um Deus sem transcendência? Já estamos suficientemente cheios deste apelo permanente ao humano, precisamos, antes, de um Deus outro, de um Deus que nos eleve a alma para o alto, afastado dos nossos vales de lágrimas. Temos necessidade precisamente de algo de diferente do humano, e eis que Tu chegas para baixar as nossas aspirações, ao ponto de pretenderes que basta ver-te, o homem de Nazaré, para ver Deus. Que esmagamento! Que estreitamento! Esperávamos elevar-nos rumo às esferas celestes, e Tu deitas-nos por terra!».

«Além disso, o homem que Tu és e a quem ousaste reduzir o Pai perdeu na Cruz toda o atrativo humano. Este homem tornou-se o último de todos, o flagelado, o condenado, e tu gostarias que se reconduza a Deus a essa decadência! Não, é preciso que mantenhamos a distância, o abismo entre Tu e Deus, entre o ser humano e Deus. De outra maneira estamos perdidos. Deixaria, então, de haver motivo para nos agarrarmos a Deus se Deus nos fosse semelhante a esse ponto! Precisamos de um Deus outro, de um verdadeiro Deus, de um Deus que não seja um homem. Sobretudo não um homem humilhado, torturado, martirizado, morto. Não, nós precisamos de um Deus forte, de um Deus omnipotente, de um Deus resplandecente, capaz de vir socorrer-nos, em vez daquele Deus humilde que vem partilhar a nossa sorte.» Mas não é precisamente esse Deus, o Deus das religiões, o Deus prestigiado, o Deus poderoso, que abandonou o nosso universo? Não é talvez Ele o Deus que deixou de interessar às pessoas, a despeito das buscas religiosas de um número cada vez mais reduzido de pessoas? Não é, em resumo, o Deus das religiões, esse Deus todo-poderoso, glorioso e condescendente, que deixou de ser credível para a maioria dos nossos contemporâneos?

Tomemos, como ponto de partida, o facto cada vez mais evidente que aquilo que interessa às pessoas de boa vontade é poder levar uma vida plenamente humana, sem fanfarras, uma vida com as suas alegrias simples e as suas pequenas felicidades quotidianas, uma vida em que possamos viver na dignidade, na qual possamos participar no banquete da vida, saboreando a doçura da terra, a beleza das coisas e o calor das relações, uma vida onde cada um se encarrega de construir a fraternidade humana. Tudo isto pode preencher as nossas vidas? Porquê relativizar a nossa maneira de viver, a partir de um ponto de vista que seria o de um Deus exterior que propõe algo de muito mais grandioso?



A minha esperança é que esse Deus suscite no nosso coração o desejo de o encontrar, de maneira totalmente diferente daquilo que poderia fazer, do alto da sua grandeza, um Deus soberano cristalizado no absoluto. Nós somos responsáveis pelos traços do seu rosto quando falamos dele



O humano, a partir do qual Cristo nos fala de Deus e dele delineia o rosto, é feito de tudo aquilo que dá valor à nossa vida, como dava valor à sua vida. Não havia apenas grandes coisas na sua vida, aquelas que se atribuem aos grandes personagens, havia todos estes gestos simples e amigáveis que criam fraternidade, havia aquela atenção ao sofrimento dos outros que era o primeiro passo efetuado para dar alívio à tragédia humana, havia também aquelas refeições e aquelas bebidas que Ele apreciava, ao ponto de ser chamado glutão e beberrão pelos seus detratores. Havia o acolhimento incondicional dos feridos da vida, aquele perfume espalhado pela sua cabeça, aquelas refeições partilhadas com aqueles que nunca deveria ter frequentado segundo a moral vigente dos homens religiosos.

Sim, tudo isto nos remete para um outro Deus. Um Deus humano, um Deus próximo, um Deus que vacila connosco, enchendo-nos de novo de ternura. Este Deus não se impõe. Abster-me-ei absolutamente de o fazer um Deus necessário. Não, é um Deus facultativo, isto é, deixa ao ser humano a faculdade de o deixar de parte. É um Deus de quem se pode prescindir, ainda que Ele não possa prescindir de nós. Um Deus que posso encontrar apenas descobrindo ao mesmo tempo que sou infinitamente precioso aos seus olhos. É um Deus que aquece o coração, um Deus que permite a vida, um Deus que não procura apanhar ninguém em falso, um Deus que se esconde no coração de cada relação de fraternidade, um Deus que dilata toda a riqueza do humano, porque é Ele mesmo a plenitude interior do humano.

É um Deus de quem é possível falar humanamente, um Deus que se deixa abordar sem que se saiba, um Deus que não teme deixar-se encontrar cobrindo-se de anonimato quando uma pessoa, qualquer que seja, crente ou não crente, acolhe uma outra pessoa, qualquer que seja, crente ou não crente. É um Deus que se descobre no «sussurro da brisa ligeira» (1 Reis 19,12), e não na tempestade, no relâmpago, no terramoto, no maremoto, nos carros armados, na violência das ditaduras, nas barbárie dos atentados. Um Deus tão discreto que está presente, mesmo quando não sabemos nada e não experimentamos nada. Este Deus é um Deus fonte daquilo que há de mais humano no ser humano. É a dimensão última da minha própria humanidade. A minha esperança é que esse Deus suscite no nosso coração o desejo de o encontrar, de maneira totalmente diferente daquilo que poderia fazer, do alto da sua grandeza, um Deus soberano cristalizado no absoluto. Nós somos responsáveis pelos traços do seu rosto quando falamos dele. Tudo o resto a Ele pertence.


 

Alain Durand, o.p.
In Il blog di Enzo Bianchi
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: travelview/Bigstock.com
Publicado em 05.02.2021

 

 
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