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Exposição: “Braços Abertos”

Esculturas de Alberto Vieira – Sala de Exposições Temporárias do Tesouro-Museu da Sé de Braga, 14 de abril a 31 de outubro de 2021

«Saúdo-te, meio divino, carregado de Força Criadora, Oceano agitado pelo Espírito, Argila amassada e animada pelo Verbo Incarnado. (…) … É preciso, se te quisermos ver, que te sublimemos na dor depois de te termos tomado voluptuosamente nos nossos braços.» (Pierre Teilhard de Chardin, "Hino do universo")



Imagem “Cristo” (det.) | Alberto Vieira | © Joaquim Félix


Esculpir o rosto de Cristo

No funesto tempo dos abraços-de-plástico, como se os sucedâneos fossem verdade na aparência da pele transparente e, por similitude à parede do aquário, a água quebrasse o vidro, grita o Anjo vigilante à cidade: «Por aqui. Por aqui». Do seu trapézio, no início da rua, o grito surge já a matutino pé descalço e em curvo adejar recolhido: «Se do fundo vens, mesmo de ti, do teu de profundis, a Porta Nova está aberta. Há um Corpo a atrair no seu Tesouro. Aproxima-te ao centro. Em ti e para ti, há Braços Abertos. Vem. Venhas donde vieres, vem. Cede à circular temperatura do amplexo. Cinge-te de fogo, seu Corpo soprado, e reacende as cinzas flambas do teu. Reúne os incêndios. Haja conflagração. Vem aos abraços verdadeiros, à matéria anelada de luz».

Tudo está no Aberto. Na ambiguidade pronta a revelar-se à ferida que teus olhos tocam. Isto é, na leitura tátil esculpida à luz dos dedos, no desassossego invisual do íntimo a transcender-se da matéria. Desde o íntimo, sim. Amparado no flúmen transeunte, do nascente ao solar pôr, atravessa a fonte húmida do Ser. Tem obliquidade bastante para te ser chuva e calar a sede na argilosa, magmática, arbórea, óssea Carne almada. Por esse ‘amplo’ se abre o Corpo d’Ele, em rostos múltiplos, reunido num centro. Afeição e ritmo. Da morte à vida. Daquela cruz que nem o sepulcro encerrou ao contínuo jorro do Corpo. Cede. Cede ao desejo desta sede de abraços, nesta carne de Corpo suspenso, ao teu alcance. Dessedenta-te no rio Omnia. Banha-te na sua matéria.

Alberto Vieira esculpe o rosto de Cristo na sua poliédrica e ovalidade. São tantos os rostos. José Tolentino Mendonça, cardeal, escreveu para o Livro «Os rostos de Jesus. Uma revelação», com imagens (em cruzeiros) da autoria de Duarte Belo, que o rosto de Cristo esculpe-se em «hipóteses». E que, «num certo sentido, não deveríamos estranhar que o rosto de Jesus seja um enigma». Referindo-se ao filósofo do rosto, Emmanuel Lévinas, sublinha o seu ‘além-imagético’: «um rosto ultrapassa a cada instante a imagem que temos dele». Porque cada rosto, fugitivo à ‘definição’, «exprime-se simplesmente». Que será então um rosto? Em que rosto Jesus é?



Imagem “Cristo” (det.) | Alberto Vieira | © Joaquim Félix


A resposta do cardeal Tolentino aplica-se aos rostos de Jesus, que Alberto Vieira expressa em «nova carne» (cf. Evangelii Gaudium, 167): «As aproximações ao rosto de Jesus são necessariamente plurais». O rosto de Jesus não soa monódico às mãos do escultor. Antes, plural, epifaniza-se em expressiva polifonia, com seus silêncios e soídos. É um cânone aglutinador de rostos, sinóticos e sem paralelo, narrativos de Jesus em speculum. Ao contemplar a sua ovalidade, olhar último em nascente, não se divisará o seu ressuscitar? E naquele rosto amendoado? Mas que estranho, na feição ‘sarda’, semelhante ao de Jesus no filme Su Re’! E porquê naquele adolescente e no aflito sucumbindo ao mar de metal? Quem se elevar à pergunta peregrinará, pelo crucífero caminho, até ao rosto argilosamente narrado por Alberto Vieira. Chegará ao reconhecimento. E, longe do ídolo, narcísico, acederá à face especular no ‘encontro’. O rosto plural de Cristo espelha «um povo de muitos rostos» (Evangelii Gaudium, 115-118).


Imagem “Cristo” (det.) | Alberto Vieira | © Joaquim Félix


Mergulho na Matéria almada

Espantosamente, Alberto Vieira faz-nos mergulhar nas matérias, na carne do mundo. Profundo e magmático é o mergulho proposto. É verdade, em diversas esculturas de Cristo, por exemplo, os flancos são de magma trazido dos Açores. Oferecem-se numa poesia, que se diz nos versos de António Ramos Rosa: «Partir dos minerais dos abruptos flancos / ou da lisura dos planos das arestas afiadas / reencontrar a violência da lava / deixar de ser um ponto de coordenadas / romper os contornos do lugar / quebrar os laços entre o corpo e os seus abrigos / procurar os caminhos sem caminho / onde a sombra se abre como um futuro antigo» (Obra Poética, II).


Imagem Cristo” (det. com lava dos Açores) | Alberto Vieira | © Joaquim Félix


Sem quaisquer laivos de maniqueísmo, ele diz-nos, em dueto com Teilhard de Chardin, até ao reconhecimento do corpo de Cristo: «E não repitas tão-pouco: “A Matéria está condenada, a matéria é má!” Disse alguém: “Bebereis o veneno e ele não vos fará mal.” E ainda: “A vida sairá da morte”, e, por fim, proferindo a palavra definitiva da minha libertação: “Este é o meu Corpo”» (Pierre Teilhard de Chardin, Hino do universo). O Corpo de Cristo, na matéria, incarnado é.

A argila sai do forno e costura-se à madeira com magma dos vulcões açorianos. Eis a cintura! Ao contemplar tanto barro, até o Corpo sudarizado a martelo, pensaremos nas fragilidades da condição corporal. Recordaremos o desafio que, poeticamente, Alberto Vieira se disse: «Com este barro, tão pobre / tão magro tão escuro, / com este barro onde a luz, / até a mais dura, dificilmente / penetra; / onde a água, também ela / crua, não se demora, / e se escapa; com este barro / onde só a solidão, / essa sim, funda e tão nossa, / se sente em casa; / com este barro – que pão, que roupa, que morada / hão-de fazer mãos assim / tão cegas e tão ávidas?» (Eugénio de Andrade, O sal da língua). Que clareira sentiria ele nos braços abertos? Por certo, o que emocionamos nos abraços: «Deve haver um lugar onde um braço / e outro braço sejam mais que dois braços, / um ardor de folhas mordidas pela chuva, / a manhã perto nem que seja de rastos» (Eugénio de Andrade, O peso da sombra). Pode ser esse lugar, ardor e manhã, o Corpo de Cristo?


Imagem “Cristo” (det.) | Alberto Vieira | © Flávia Vieira


Emanação de uma Carne inquietante

O Corpo de Cristo é oferecido pelo escultor no seu desnudo, nas alfaias metamorfoseadas em instrumentos crucíferos, até nos fios de arame a destrançar-se às vergônteas na alta malha que sustenta a videira sálmica: «A vide transportaste de Egipto: e faz resplandecer teu rosto, e seremos redimidos. Aparelhaste-lhe lugar: e fizeste arraigar suas raízes, e assim encheu a terra. Os montes se cobriram com sua sombra, e seus ramos se fizeram como cedros de Deus. Fizeste espairar suas ramas até ao mar: e seus pimpolhos até o rio» (Sl 80,9-12). Mais: ele esculpe querigmas numa teologia kenótica. E, nessa medida, inscreve-se no movimento que tanto exalta a força da verdade e da bondade expressas na beleza que salva. Dele se pode dizer quanto escreveu João Paulo Costa, a propósito do Ciclo de visões e imagens contemporâneas de Cristo, realizado em 2016: «Este movimento espiritual de kenose, de procura, de fascínio e de mistério, diante da encarnação do “Verbo de Deus que deveio carne” (cfr. Jo 1,14), tem sido uma constante no diálogo entre a espiritualidade cristã e a arte. O movimento artístico moderno-contemporâneo, que alguns procuram ver obsessivamente como arte degenerativa, insere-se nesse grande movimento espiritual da humanidade. Colhendo o despojamento de Cristo e a sua dádiva incondicional na ‘folia da cruz’ (cfr. 1Cor1,18), o artista faz-se solidário com o Filho do homem e com as vítimas da história. O escultor Rui Chafes di-lo do seguinte modo: “O perigo que Jesus representou (e ainda representa) é o de ser alguém para quem não existem leis, apenas exceções, alguém que aparece para questionar e destabilizar o que está empedernido” (in “Entre o céu e a terra”)».

Para Clément Rosset, «todo o dom gratuito é inquietante», como toda a beleza, aliás. Seguramente que a exposição conduzirá os contemplantes à luta, entre as imagens da fé e as esculturas, e à «fratura das falsas evidências» (Joseph Caillot, Comment l’experérience esthétique nourrit-elle aujourd’hui la recherche d’un théologien?) naquele profundo abismo, impreenchível por intenções ou hermenêuticas. A admiratio pode ser ativada. Não faltará ‘combustível’ para a veiculação da fé, através de experiências da proximidade do inatingível, no tangível: há uma série policromática de Cristos que, na semelhança das esculturas de roca e de articulação, podem ser continuadas na relação que estabelecem com quem as toca, rodando a cabeça, o tronco e os braços impossíveis de fechar. Deste modo, Alberto Vieira possibilita a cada pessoa, que se encontre com Cristo, esculpir a afetuosidade de ser abraçado e abraçar. Na analogia da revelação, este encontro experimenta-se no excesso do Amor amante, mas, note-se «na forma de uma incompletude pesada de plenitude, no modo de um despertar inquieto» (Joseph Caillot).


Imagem “Cristo” (det.) | Alberto Vieira | © Flávia Vieira


É o paradoxo que subsiste e reclama uma kenose mimética, discípula. Que nos faz voltar à epígrafe: «É preciso, se te quisermos ver, que te sublimemos na dor depois de te termos tomado voluptuosamente nos nossos braços». Para continuar a dizer, ainda com Teilhard: «Ora, eis que no interior do turbilhão crescia uma luz que tinha a doçura e a mobilidade de um olhar… Difundia-se um calor que já não era a dura irradiação de um núcleo, mas a rica emanação de uma carne… A imensidade cega e selvagem tornava-se expressiva, pessoal. As suas massas amorfas dispunham-se segundo as linhas de um rosto inefável». De um rosto inefável, sim, elevado acima dos braços que desenham o Humano, na medida ‘amplexa’, que tudo instaura.


Imagem Cristos | Esculturas “articuláveis” de Alberto Vieira | © Flávia Vieira


Abertos à exposição, de braços para braços, celebraremos Cristo, nossa Páscoa, com lábios anamnéticos: «Quando estávamos perdidos, incapazes de nos aproximarmos de Vós, deste-nos a maior prova do vosso amor: o vosso Filho, o único Justo, entregou-Se em nossas mãos, deixando-se pregar numa cruz. Mas antes de estender os braços entre o Céu e a terra, como sinal indelével da vossa aliança, quis celebrar a Páscoa com os seus discípulos» (Missal Romano, Oração Eucarística I das Missas da Reconciliação). Bem-haja Alberto Vieira, por estes abraços, sinais inapagáveis, que nos religam na Carne do mundo, no Corpo de Cristo.


Imagem “Cristo” (det.) | Alberto Vieira | © Joaquim Félix

Imagem “Cristo” (det.) | Alberto Vieira | © Joaquim Félix

 

Texto [da Brochura da Exposição]: Joaquim Félix de Carvalho
Investigador do CITER
Imagem de topo: “Cristo” (det.) | Alberto Vieira | © Joaquim Félix
Publicado em 30.03.2021

 

Tesouro-Museu da Sé de Braga
Para a Exposição: Entrada pela porta da Rua D. Diogo de Sousa

 

 
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