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Ex-votos em pintura: Tesouros de espiritualidade cristã e arte popular

“Histórias pintadas por graças recebidas”. É a definição sintética, mas precisa, das tabuinhas votivas que se encontram penduradas nas paredes de incontáveis santuários, oferecidos por devotos e agradecidos a Nossa Senhora e aos santos devido à sobrevivência a perigos ou a curas inesperadas.

Os ex-votos por graça recebida são expressões de uma cultura popular em que era condição normal, com o reconhecimento da precariedade pessoal, o confiante recurso ao divino: sinais de autêntica piedade religiosa, histórias de vida sofrida quotidiana. O hábito de oferecer dons às divindades para propiciar a sua benevolência ou como agradecimento pela ajuda obtida é antiga. A prática de doar, nos templos dedicados ás divindades, pequenas estátuas ou outros objetos votivos, já está documentada na civilização egípcia, na antiga Grécia, na época romana e etrusca.

Na lenta passagem das religiões pré-cristãs à cristã, os ex-votos mudam de conteúdos, mas não na substância. Isto é evidenciado quer pela progressiva transformação dos ex-votos anatómicos, que da reprodução de várias partes do corpo humano se reduzirão à única representação do coração, entendido como o todo (ou seja, como órgão mais importante, e por isso expressão seja da vida orgânica seja da psicológica e moral, do afeto, da alegria, das virtudes), que pelo surgimento das tabuinhas pintadas.



Imagem D.R.


A tradição iconográfica dos ex-votos pintados, as tabuinhas votivas, extrai inspiração das predelas dos políticos do gótico tardio ou renascentista, nas quais eram muitas vezes representados os milagres dos santos cujas efígies aparecem nas tábuas maiores. Já nos mais antigos e raros exemplos de ex-votos quatrocentistas, o estilo dos ilustres protótipos (como nas obras de Fra Angelico ou de Piero della Francesca) é transformado segundo as exigências de uma cultura mais humilde, que recorria a uma linguagem mais simples para se exprimir. Com efeito, o que distingue os ex-votos de prestígio dos populares é que naqueles a motivação real permanece oculta, porque avança em primeiro plano o aspeto celebrativo ou simplesmente cultural.

Quando a tabuinha votiva é expressão não de arte rica (culta), mas de “arte povera” (popular), a motivação inverte-se: a graça recebida assume um papel de primeiro plano. São como as páginas de um livro de história a ler com atenção: vivências menores que iluminam os capítulos da grande história.

Isto é testemunhado pelos protagonistas e conteúdos das graças recebidas: curas milagrosas ou salvamentos inesperados de morte certa, retorno à saúde de animais doentes, infortúnios laborais, incidentes de viagem, agressões, catástrofes naturais, naufrágios, banditismo, guerra.



Imagem D.R.


As tabuinhas votivas têm uma estrutura iconográfica recorrente: o espaço em que decorre a ação ou a representação do acontecimento que está na origem da graça é comum quer ao devoto quer à presença divina (Nossa Senhora e/ou santo). Esta é colocada na parte alta da pintura (espaço celeste), delimitada por um manto de nuvens que, apesar de a isolar, não a separa completamente da cena. A divindade olha para baixo (espaço terreno), onde está situado o agraciado. Muitas vezes, próximo da borda inferior da tabuinha uma cartela reporta, junto ao ano, a sigla latina “Vfga” (votum fecit gratiam accepit) (por graça recebida).

Particularmente importante é a “cenografia”: nos ex-votos por doença, o ambiente doméstico mostra o doente que jaz no leito, com as mãos juntas em oração ou apontadas para a parte doente do corpo, o olhar dirigido à divindade. Noutros casos, a tabuinha mostra o agraciado no ato de realizar os gestos que até então a doença tinha impedido, como caminhar após ter afastado as muletas, falar ou escutar.

Os elementos presentes na cena da graça representada fornecem indícios para compreender as doenças: um fluxo de sangue que brota da boa, uma hemorragia profunda, pústulas cutâneas nas costas ou um membro enfaixado permitem um diagnóstico imediato.



Imagem D.R.


Outras vezes os sinais são indiretos: a presença de duas parteiras que cuidam de um recém-nascido aos pés do leito sobre o qual jaz uma jovem dão a entender que se está perante um parto difícil que chegou a final feliz; uma criança que lança as muletas significa uma reencontrada capacidade de caminhar; a presença da imagem de Santa Luzia, S. Bi´sgio ou Santa Apolónia comunica que se tratava de um problema nos olhos, na garganta, nos dentes.

Espetaculares são as tabuinhas que representam incidentes em torno ao trabalho e catástrofes naturais, enquanto ricas de detalhes e de referências topográficas são os ex-votos realizados na decorrência de incidentes viários ou de viagem. Permeados de angústia existencial são as tabuinhas referentes aos acontecimentos bélicos: agradecimento de quem conseguiu regressar salvo e preces de quem, também miraculosamente, escapou vivo aos bombardeamentos.

As tabuinhas votivas são orações pintadas, sinais autênticos de fé humilde e sincera, que, se por vezes se arriscam a desembocar na ingenuidade, são todavia ricas de ardor genuíno. «A par de elementos a eliminar, há outros que, se bem utilizados, poderão muito bem servir para fazer progredir no conhecimento do mistério de Cristo e da sua mensagem: o amor e a misericórdia de Deus», escreveu S. João Paulo II.


 

Vittorio A. Sironi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 05.07.2021

 

 
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