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Evangelizar a cultura da não-crença e da indiferença: Presença da Igreja no espaço público

Evangelizar as pessoas não esgota o mandato confiado por Cristo à Igreja. É necessário evangelizar também a consciência de um povo, o seu “ethos”, a sua cultura. Se a cultura é aquilo através da qual o ser humano se torna mais ser humano, a atmosfera espiritual no interior da qual se vive e desenvolve a sua atividade, é claro que a saúde espiritual do ser humano depende muito da qualidade do ar cultural que ele respira. Se a não-crença é também um fenómeno cultural, a resposta da Igreja deve também ter presente as problemáticas da cultura de cada sociedade e país.

Evangelizar a cultura aponta a fazer com que o Evangelho impregne a realidade concreta da vida das pessoas. «A pastoral deve assumir a tarefa de plasmar uma mentalidade cristã na vida quotidiana» (“Ecclesia in Europa”, 58). Mais do que convencer, este anúncio, no coração das culturas, aponta a preparar um terreno favorável à escuta, uma espécie de pré-evangelização. Se o problema fundamental é a indiferença, a primeira e irrenunciável tarefa é atrair a atenção, suscitar o interesse das pessoas.

Identificando os pontos de ancoragem para o anúncio do Evangelho, as propostas seguidamente apresentadas oferecem diversas orientações, novas e antigas, para uma pastoral da cultura que ajude a Igreja a propor a fé cristã, neste texto especificamente no âmbito do espaço público, em resposta ao desafio da não-crença e da indiferença religiosa.



O testemunho público dado pelos jovens que participam nas Jornadas Mundiais da Juventude é um acontecimento que suscita surpresa, maravilha e atenção, de tal maneira que interpela os jovens tantas vezes privados de pontos de referência e de motivações religiosas



Até ao fim dos tempos, a Igreja peregrina entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus, na confiança e na certeza de ser sustentada pela força e iluminada pela luz do Senhor. A sua presença visível e a sua ação tangível, como sacramento universal de salvação na sociedade pluralista, são necessárias, hoje mais do que nunca, para permitir a todos os povos do mundo entrar em contacto com a mensagem da Verdade revelada em Jesus Cristo. Ela concretiza isto através de uma presença diversificada nos espaços de intercâmbio, nos grandes debates da sociedade, a fim de suscitar a curiosidade do mundo, muitas vezes indiferente, e de apresentar a pessoa de Cristo e a sua mensagem de maneira a capturar a atenção e favorecer o acolhimento da parte da cultura dominante.

O testemunho público dado pelos jovens que participam nas Jornadas Mundiais da Juventude é um acontecimento que suscita surpresa, maravilha e atenção, de tal maneira que interpela os jovens tantas vezes privados de pontos de referência e de motivações religiosas. Por este motivo, o compromisso dos vários movimentos espirituais que envolvem os jovens é fundamental. As Jornadas ajudam, de maneira particular, a mudar uma falsa visão da Igreja, considerada instituição opressora, envelhecida e decadente.

As missões nas cidades fazem voltar a Igreja à praça pública. As maravilhas apostólicas suscitadas com a peregrinação de relíquias através do mundo, como foi o caso das de Santa Teresa do Menino Jesus, são extraordinárias: diante de pastores estupefactos, essas viagens chamam multidões imensas, até milhões de pessoas, que em grande parte ignoram habitualmente o caminho das igrejas ou deixaram de as frequentar.

Os movimentos e as associações de cristãos ativos da esfera pública, nos meios de comunicação social, e também junto do governo, contribuem para desenvolver uma cultura diversa da dominante, não só a nível intelectual, mas também concreto. Viver em plenitude o mistério de Cristo e propor maneiras de viver, inspiradas pelo Evangelho segundo o ideal da Carta a Diogneto, continua a ser o testemunho privilegiado dos cristãos no coração do mundo.



Os colóquios em torno ao cinema, com entidades laicas ou de outras Igrejas cristãs, são exemplos de encontro nos quais emerge a capacidade da linguagem cinematográfica de veicular, com a força das imagens, valores espirituais capazes de fecundar as culturas



A colaboração dos cristãos com organizações de não crentes serve para realizar atividades boas em sim, permite viver momentos fortes de participação e de diálogo. Segundo as diretivas pastorais de João XXIII na encíclica “Pacem in Terris”, os encontros e os entendimentos, nos vários setores da ordem temporal, entre crentes e quantos não acreditam, ou creem de maneira não adequada por aderirem aos erros, podem ser ocasiões para descobrir a verdade e para lhe prestar homenagem (cf. n. 83).

A promoção de acontecimentos públicos sobre os grandes temas da cultura favorece os contactos e o diálogo pessoal com aqueles que trabalham nos diversos âmbitos da cultura, e constituem uma maneira significativa de presença pública da Igreja.

Os colóquios em torno ao cinema, com entidades laicas ou de outras Igrejas cristãs, são exemplos de encontro nos quais emerge a capacidade da linguagem cinematográfica de veicular, com a força das imagens, valores espirituais capazes de fecundar as culturas. Estes encontros, também sobre outras artes, permitem assegurar uma presença cristã na cultura, valorizam as potencialidades da arte e criam espaços de diálogo e reflexão.

O papa, anualmente, entrega o prémio das Academias Pontifícias, a fim de encorajar jovens universitários ou artistas cujas investigações ou obras contribuem significativamente para a promoção do humanismo cristão e das suas expressões artísticas. As iniciativas com intelectuais, ou as que decorrem em torno a questões sociais, dão relevo público ao encontro entre fé e cultura, e mostram o compromisso dos católicos nos grandes problemas sociais.



Sabemos que não basta falar para se ser compreendido. É pedido um grande esforço para utilizar a linguagem das pessoas de hoje, para partilhar as suas expetativas e responder-lhes com sinceridade e com um estilo acessível



Os meios de comunicação social jogam, na cultura dominante, um papel fundamental. A imagem, a palavra, os gestos, a presença são elementos irrenunciáveis para a evangelização inserida na cultura das comunidades e dos povos, mesmo se é preciso estar atento para que não sejam favorecidas imagens que deturpam a realidade e os conteúdos objetivos da fé. A reviravolta epocal que os meios de comunicação social estão a produzir na vida das pessoas exige um compromisso pastoral adequado: «Muitos jovens leigos orientam-se para os “mass media”. Cabe à pastoral da cultura prepará-los para estarem ativamente presentes no mundo da rádio, da televisão, do livro e das revistas, vetores de informação que constituem a referência quotidiana da maioria dos nossos contemporâneos. Através dos “mass media” abertos e honestos, cristãos bem preparados poderão exercer um papel missionário de primeiro plano. É importante que sejam formados e apoiados» (“Para uma pastoral da cultura”, 34). A presença profissional de católicos qualificados, que se identificam claramente como tal nos meios de comunicação social, nas agências noticiosas, nos jornais, nas revistas, nas páginas da internet e nas televisões, é importante para difundir notícias e informações precisas sobre a Igreja e ajuda a compreender a singularidade do seu mistério, evitando focalizações sobre aspetos marginais e insólitos e atalhos ideológicos. Prémios, bolsas de estudo e a criação de redes e associações profissionais católicas encorajam e manifestam o necessário compromisso neste campo tão importante, sem cair no risco de criar um gueto católico.

Sabemos que não basta falar para se ser compreendido. É pedido um grande esforço para utilizar a linguagem das pessoas de hoje, para partilhar as suas expetativas e responder-lhes com sinceridade e com um estilo acessível. Assim, por exemplo, um bispo polaco apresentou uma “Carta dos Direitos Humanos” que teve um grande impacto sobre o público, honrando desta maneira a perspetiva positiva do Concílio Vaticano II na sua constituição pastoral “Gaudium et spes”: «As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração. Porque a sua comunidade é formada por homens, que, reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo na sua peregrinação em demanda do reino do Pai, e receberam a mensagem da salvação para a comunicar a todos. Por este motivo, a Igreja sente-se real e intimamente ligada ao género humano e à sua história» (1).

Assegurar a presença da Igreja na vida pública, em diálogo com os não crentes, permite criar uma ponte entre a mensagem evangélica e a vida quotidiana, mensagem que não deixa de suscitar interrogações e, muitas vezes, revelar o invisível no coração do visível. Trata-se de suscitar interrogações que verdadeiras antes de propor respostas convincentes. Com efeito, se estas não respondem às perguntas verdadeiras, e portanto a uma busca pessoal, não suscitam atenção e não são recebidas como pertinentes. Saindo do santuário para ir para as praças, os cristãos testemunham publicamente, sem publicidade, a alegria de acreditar e a importância da fé para a sua vida. Os diálogos estabelecidos e os testemunhos oferecidos podem suscitar o desejo de entrar no mistério da fé. É a maneira de fazer de Jesus no Evangelho: «Vinde e vede» (João 1,36).


 

Conselho Pontifício da Cultura
In Conselho Pontifício da Cultura
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Aliaksandr Antanovich/Bigstock.com
Publicado em 05.02.2021

 

 
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