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Eutanásia, triunfo de Hitler

Tendo, em sua versão contemporânea, a eutanásia começado na Alemanha Nazi e sob a tutela imediata de Hitler e tendo sido o «Programa» científico e médico que lhe foi dedicado o grande ensaio para o que viria a ser o holocausto, não apenas do Povo Judeu que caiu sob as garras do fascismo extremo nazi, mas de todos os que a tirania nazi considerava como indesejados, todas as iniciativas que promovam algo intitulado como «eutanásia» ficam indelevelmente marcadas por esta associação e são, por tal, um diferido triunfo de Hitler.

Diga-se o que se disser, argumente-se o que se quiser, todos os movimentos para a promoção da eutanásia imediatamente, apenas por, assim, serem, se associam ao seu teórico e prático antepassado nazi, paradigma de todos estes movimentos e precursor da mais abjeta matança de seres humanos por parte de seus semelhantes.

A certidão de nascimento da eutanásia contemporânea tem a marca indelével do regime nazi e não apenas a bênção, mas o empenho pessoal de Hitler.

Poder-se-á dizer que Hitler tinha legitimidade para fazer o que fez pois fora democraticamente eleito e reconhecido como legítimo Chanceler do povo que o elegeu. Tal é absolutamente verdade. Todavia, qualquer forma de legitimidade justificará qualquer coisa, nomeadamente um gradual movimento iniciado com o «Programa T4 Eutanásia» e que culminou no holocausto?

Há quem pense que sim. Houve quem assim pensasse nos tempos de Hitler e não apenas na Alemanha. De notar que poucas foram as pessoas que fora da Alemanha, sabendo-se o que se estava a passar, ergueram a voz contra Hitler. Muito menos as que pensaram em intervir efetivamente a fim de que parasse. «Direito internacional», diz-se: o mesmo que se compagina com todas as formas de atrocidades, de Hitler à matança do Ruanda. Bom para as santas mentes burguesas que tudo vendem em favor da sua vidinha hedónica. Enquanto dura.



Este debate assumiu foros de cientificidade (termo que já pouco significa, tendo grande parte dos cientistas vendido a sua honra em troco de mundanas profanidades académicas) real ou fictícia



A matança germânica que começou com o Programa Eutanásia começou a pretexto de dar a pessoas diferentes e cuja presença era incómoda uma morte ‘misericordiosa’. Culminou na ‘misericórdia’ de Treblinka, lugar em que a humanidade atingiu o seu ponto ético, político e antropológico mais baixo, mais proximamente animalesco, bestial.

É muito anterior a Hitler e ao seu interesse por tão nazi nobre forma de misericórdia o debate acerca da eutanásia. Este debate assumiu foros de cientificidade (termo que já pouco significa, tendo grande parte dos cientistas vendido a sua honra em troco de mundanas profanidades académicas) real ou fictícia. Na Alemanha várias obras importantes sobre o tema haviam sido publicadas. (1)

O interesse de Hitler pela matança medicamente assistida era intenso. (2) Todavia, os acontecimentos começaram a precipitar-se a partir de fins de 1938, quando o regime nazi foi contactado no sentido da resolução de problemas de progenitores (não se pode chamar a tais associações sociais «famílias» dado que são a sua negação) com recém-nascidos ou crianças com deformações severas, incluindo deformações cerebrais. A ideia era solicitar a autorização legal para uma morte ‘misericordiosa’, assim legalizando a matança de indesejados e de importunas presenças humanas. (3)

Estes pedidos, que chegaram ao conhecimento de Hitler, permitiram a este aliar ao seu desejo de eliminar todos os que considerava indesejáveis com o sentido de uma morte supostamente misericordiosa. Já não se tratava de assassinar seres humanos, mas de os eliminar ‘misericordiosamente’, de os ‘libertar’ de viver e de conspurcar com a sua existência o mundo que o tirano queria construir para os que elegera como os seres verdadeiramente humanos, os «arianos», os verdadeiros ‘alemães’.

O início do processo reunia, assim, à vontade de Hitler, legitimidade institucional – que o próprio lhe conferiria – e apoio popular, dado que, no caso das crianças, até os progenitores pediam que tal solução final fosse implementada.



«Diferentemente do programa “eutanásia” para crianças, o programa T4, focado sobre pacientes adultos crónicos, envolveu virtualmente a totalidade da comunidade psiquiátrica alemã e partes relacionadas da comunidade médica geral»



Nas palavras do autor de The Nazi Doctors: «A ocasião para se iniciar efectivamente a matança das crianças, e de todo o projecto “eutanásia”, foi a petição para “a matança misericordiosa”(Genadentod, “morte misericordiosa”) de uma criança chamada Knauer, nascida cega, com uma perna e parte de um braço em falta e, aparentemente, um “idiota”» (4). Estava lançado o movimento que iria levar até Treblinka.

De novo as palavras do Autor já citado: «De retorno a Berlim, Brandt [médico pessoal de Hitler a quem este entregou o processo aqui em causa] foi autorizado por Hitler, que não queria ser publicamente identificado com o projecto, a proceder do mesmo modo em casos similares: isto é, a formalizar um programa, com a ajuda do dirigente nazi de alto nível Philip Bouhler, chefe da Chancelaria de Hitler. Este “caso de teste” acabou por ter um papel de pivot para os dois programas de matança – das crianças e dos adultos». (5)

Para os misericordiosos nazis, era mais natural iniciar o processo de matança pelas crianças: primeiro os recém-nascidos, depois crianças até 3-4 anos, depois as crianças mais velhas. (6) Os candidatos a esta misericórdia nazi eram submetidos a um júri científico de avaliadores médicos, em número de três, que preenchiam um relatório, assinalando cientificamente a sua recomendação médica, isto é, o «tratamento», quer dizer, a morte da criança, inserindo uma cruz na coluna à direita do impresso. Tudo muito correcto do ponto de vista administrativo. Tudo legal. Tudo legítimo.

Era até possível propor-se um adiamento para a decisão. O formulário, por razões científicas e de clareza administrativa, era processado sequencialmente, sabendo os médicos em sequência qual o parecer ou pareceres antecedentes. Neste ambiente tão humano, necessitava-se de uma decisão unânime para que a criança fosse morta. (7)

Todo este processo era perfeito dos pontos de vista formal, metodológico, científico e legal, pois até tinha a chancela do Chanceler reconhecido como legítimo chefe de estado pela diplomacia internacional. Tudo legal, tudo democrático, tudo segundo o direito, mesmo o dito internacional. Todavia, estava-se a assassinar crianças.



O despudor e o sentimento de total impunidade que hoje grassa é de tal modo avassalador que nem há o trabalho de disfarçar os fins mascarando os meios, mudando as designações: é mesmo eutanásia o que se propõe e se implementa



Poupam-se os pormenores escabrosos de como tal matança era realizada. Todavia, não se quedou no assassinato de crianças a acção da misericórdia nazi. A morte misericordiosa foi estendida aos adultos, citamos: «Diferentemente do programa “eutanásia” para crianças, o programa T4, focado sobre pacientes adultos crónicos, envolveu virtualmente a totalidade da comunidade psiquiátrica alemã e partes relacionadas da comunidade médica geral». (8)

Estamos perante o que constituirá a eutanásia-padrão, então como agora: a morte “misericordiosa” medicamente assistida. Foi este o modo como, em termos éticos, políticos e médicos, se lançaram as bases científicas e prático-pragmáticas para a matança generalizada que apenas cessou com a libertação da Alemanha da tutela nazi. Foi assim que a eutanásia-padrão surgiu e se foi desenvolvendo inicialmente.

Perante a infame história que acompanha quer os atos históricos de eutanásia contemporânea sob o regime nazi quer o simples termo que tal ação designa, seria de supor que quem quisesse voltar ao tema e aos atos implicados pelo menos mudasse de palavreado. Como com Hitler, o despudor e o sentimento de total impunidade que hoje grassa é de tal modo avassalador que nem há o trabalho de disfarçar os fins mascarando os meios, mudando as designações: é mesmo eutanásia o que se propõe e se implementa.

Que melhor vitória para Hitler do que este retomar, a seu modo, das suas iniciativas mais queridas? Que maior derrota para todos os que lutaram pela dignidade humana, contra Hitler e seus émulos?

Misericórdia nazi?

Não, obrigado!



(1) Ver obra de LIFTON Robert Jay, The Nazi Doctors. Medical killing and the psychology of genocide, s. l., Perseus Books, 1986, «Capítulo 2».
(2) Ibidem, p. 50.
(3) Ibidem.
(4) Ibidem.
(5) Ibidem, p. 51.
(6) Cf. ibidem.
(7) Cf. ibidem.
(8) Ibidem, p. 65.


 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Imagem: digitalista/Bigstock.com
Publicado em 26.10.2020

 

 
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